*Segunda*.--Para quê?... Fito-vos a ambas e não vos vejo log

Produced by Vasco Salgado

ORPHEU

*"ORPHEU"*

REVISTA TRIMESTRAL DE LITERATURA

PORTUGAL E BRAZIL

Propriedade de: ORPHEU, L.^da Editor: ANTONIO FERRO

_DIRECÇÃO_

PORTUGAL

Luiz de Montalvôr--17, Caminho do Forno do Tijolo--LISBOA

BRAZIL

Ronald de Carvalho--104, Rua Humaytá--RIO DE JANEIRO

*ANO I--1915* *N.^o 1* *Janeiro-Fevereiro-Março*

*SUMARIO*

LUIZ DE MONTALVÔR _Introducção_

MARIO DE SÁ-CARNEIRO _Para os "Indicios de Oiro"_ (poemas)

RONALD DE CARVALHO _Poemas_

FERNANDO PESSOA _O Marinheiro_ (drama estático)

ALFREDO PEDRO GUISADO _Treze sonetos_

JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS _Frizos_ (prosas)

CÔRTES-RODRIGUES _Poemas_

ALVARO DE CAMPOS _Opiário_ e _Ode Triunfal_

*Capa desenhada por José Pacheco*

Oficinas: Tipografia do Comércio--10, Rua da Oliveira, ao Carmo

LISBOA

*CONDIÇÕES*

Toda a correspondencia deve ser dirigida aos Directores.

Convidamos todos os Artistas cuja simpatia esteja com a indole desta

Revista a enviarem-nos colaboração. No caso de não ser inserta

devolveremos os originais.

São nossos depositarios em Portugal os srs. Monteiro & C.^a, Livraria

Brazileira--190 e 192, Rua Aurea, Lisboa.

*Orpheu* publicará um numero incerto de paginas, nunca inferior a 72,

ao preço invariavel de 30 centavos o numero avulso, em Portugal, e

1$500 réis fracos no Brazil.

*ASSINATURAS*

(AO ANO--SÉRIE DE 4 NUMEROS)

Portugal, Espanha e Colonias portuguesas 1 escudo

Brazil 5$000 réis (moeda fraca)

União Postal 6 francos

*Livraria Brazileira de MONTEIRO & C.^a--Editores*

190 e 192, RUA AUREA--LISBOA

Á venda no fim de abril:

*CÉU EM FOGO*

NOVELAS POR

MARIO DE SÁ-CARNEIRO

A GRANDE SOMBRA--MISTÉRIO

O HOMEM DOS SONHOS--ASAS--EU-PRÓPRIO O OUTRO

A ESTRANHA MORTE DO PROF. ANTENA

O FIXADOR DE INSTANTES--RESURREIÇÃO

1 VOLUME DE 350 PAGINAS

CAPA DESENHADA POR

JOSÉ PACHECO

Preço 70 centavos

*Obras dos colaboradores dêste numero*

LUIZ DE MONTALVÔR

_A Caminho_, uma plaquette de versos

Edição da Livraria Brazileira

Preço: 20 centavos

MARIO DE SÁ-CARNEIRO

_Amizade_, peça em 3 actos (com colaboração de Tomás Cabreira J.^or)

Edição da Livraria Bordalo

Preço: 30 centavos

_Principio_, novelas

Edição da Livraria Ferreira

Preço: 70 centavos

_Dispersão_, 12 poesias

Edição do autor

Exgotada

_A Confissão de Lucio_, narrativa

Edição do autor

Preço: 60 centavos

RONALD DE CARVALHO

_Luz Gloriosa_, poemas

Paris 1913. Edição do autor

FERNANDO PESSOA

_As sete salas do palacio abandonado_, poemas

Em preparação

ALFREDO PEDRO GUISADO

_Rimas da Noite e da Tristeza_, versos

Edição da Livraria Classica Editora

Preço: 40 centavos

_Distância_, poemas

Edição da Livraria Ferreira

Preço: 30 centavos

JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS

_Frizos_, prosas ilustradas pelo autor

A saír este ano

ALVARO DE CAMPOS

_Arco do Triunfo_

Em preparação

Qualquer destas obras pode ser requisitada directamente ao administrador

de ORPHEU--Alfredo Pedro Guisado: 112, Rocio, Lisboa.

No nosso segundo numero (a sair em junho) contamos publicar, entre

outras obras, as seguintes: _Poemas_ de Fernando Pessoa, _Mundo

Interior_, novela de Mario de Sá-Carneiro e _Narcisso_, poema de Luiz

de Montalvôr.

A fotogravura da capa foi executada nos ateliers da ILUSTRADORA

*ORPHEU*

VOL. I--1915

*ORPHEU*

REVISTA TRIMESTRAL DE LITERATURA

VOLUME I

LISBOA

TYPOGRAPHIA Do COMMERCIO

10, RUA DA OLIVEIRA (AO CARMO), 10

1915

_INTRODUCÇÃO_

_O que é propriamente revista em sua essencia de vida e quotidiano,

deixa-o de ser_ ORPHEU_, para melhor se engalanar do seu titulo e

propôr-se.

E propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar

de outros meios, maneiras de formas de realisar arte, tendo por notavel

nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como

literarias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal.

Puras e raras suas intenções como seu destino de Beleza é o do:--Exilio!

Bem propriamente,_ ORPHEU_, é um exilio de temperamentos de arte que

a querem como a um segrêdo ou tormento...

Nossa pretenção é formar, em grupo ou ideia, um numero escolhido de

revelações em pensamento ou arte, que sobre este principio aristocratico

tenham em_ ORPHEU _o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos

e conhecermo-nos.

A photographia de geração, raça ou meio, com o seu mundo immediato de

exhibição a que frequentemente se chama literatura e é sumo do que para

ahi se intitula revista, com a variedade a inferiorisar pela egualdade

de assumptos (artigo, secção ou momentos) qualquer tentativa de

arte--deixa de existir no texto preocupado de_ ORPHEU_.

Isto explica nossa ansiedade e nossa essencia!

Esta linha de que se quer acercar em_ Beleza_,_ ORPHEU_, necessita de

vida e palpitação, e não é justo que se esterilise individual e

isoladamente cada um que a sonhar nestas cousas de pensamento, lhes

der orgulho, temperamento e esplendor--mas pelo contrario se unam em

selecção e a dêem aos outros que, da mesma especie, como raros e

interiores que são, esperam ansiosos e sonham nalguma cousa que lhes

falta,--do que resulta uma procura esthética de permutas: os que nos

procuram e os que nós esperamos...

Bem representativos da sua estructura, os que a formam em_ ORPHEU_,

concorrerão a dentro do mesmo nivel de competencias

para o mesmo rithmo, em elevação, unidade e discreção, de onde

dependerá a harmonia esthética que será o typo da sua especialidade.

E assim, esperançados seremos em ir a direito de alguns desejos de bom

gosto e refinados propositos em arte que isoladamente vivem para ahi,

certos que assignalamos como os primeiros que somos em nosso meio,

alguma cousa de louvavel e tentamos por esta forma, já revelar um

signal de vida, esperando dos que formam o publico leitor de selecção,

os esforços do seu contentamento e carinho para com a realisação da

obra literaria de_ ORPHEU_._

LUIS DE MONTALVÔR.

*PARA OS "INDICIOS DE OIRO"*

POEMAS DE

MARIO DE SÁ-CARNEIRO

*TACITURNO*

Ha Ouro marchetado em mim, a pedras raras,

Ouro sinistro em sons de bronzes medievais--

Joia profunda a minha Alma a luzes caras,

Cibório triangular de ritos infernais.

No meu mundo interior cerraram-se armaduras,

Capacetes de ferro esmagaram Princesas.

Toda uma estirpe rial de herois d'Outras bravuras

Em mim se despojou dos seus brazões e presas.

Heraldicas-luar sobre ímpetos de rubro,

Humilhações a liz, desforços de brocado;

Bazilicas de tédio, arnezes de crispado,

Insignias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro...

A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido

Enferrujou--embalde a tentarão descer...

Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer--

Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...

Percorro-me em salões sem janelas nem portas,

Longas salas de trôno a espessas densidades,

Onde os pânos de Arrás são esgarçadas saudades,

E os divans, em redór, ansias lassas, absortas...

Ha rôxos fins de Imperio em meu renunciar--

Caprichos de setim do meu desdem Astral...

Ha exéquias de herois na minha dôr feudal--

E os meus remorsos são terraços sobre o Mar...

_Paris--Agosto de 1914_

*SALOMÉ*

Insónia rôxa. A luz a virgular-se em mêdo,

Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...

Ela dança, ela range. A carne, alcool de nua,

Alastra-se pra mim num espasmo de segrêdo...

Tudo é capricho ao seu redór, em sombras fátuas...

O arôma endoideceu, upou-se em côr, quebrou...

Tenho frio... Alabastro!... A minh'Alma parou...

E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-me em Iris. Nimba-se a perder-me,

Golfa-me os seios nus, ecôa-me em quebranto...

Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar--ha sexos no seu pranto...

Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me

Na bôca imperial que humanisou um Santo...

_Lisboa 1913--Novembro 3_

*CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE...*

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada

Em sons côr de amaranto, ás noites de incerteza,

Que eu lembro não sei d'Onde--a voz duma Princesa

Bailando meia nua entre clarões de espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;

E bêbada de Si, arfante de Beleza,

Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza

O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...

Entanto nunca a vi, mesmo em visão. Sómente

A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim

Não lhe desejo a carne--a carne inexistente...

É só de voz-em-cio a bailadeira astral--

E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,

É que eu sonho esvaír-me em vicios de marfim...

_Lisboa 1914--Janeiro 31_

*NOSSA SENHORA DE PARIS*

Listas de som avançam para mim a fustigar-me

Em luz.

Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...

Os braços duma cruz

Anseiam-se-me, e eu fujo tambem ao luar...

Um cheiro a maresia

Vem-me refrescar,

Longinqua melodia

Toda saudosa a Mar...

Mirtos e tamarindos

Odoram a lonjura;

Resvalam sonhos lindos...

Mas o Oiro não perdura,

E a noite cresce agora a desabar catedrais...

Fico sepulto sob círios--

Escureço-me em delirios,

Mas ressurjo de Ideais...

--Os meus sentidos a escoarem-se...

Altares e vélas...

Orgulho... Estrelas...

Vitrais! Vitrais!

Flores de liz...

Manchas de côr a ogivarem-se...

As grandes naves a sagrarem-se...

--Nossa Senhora de Paris!...

_Paris 1913--Junho 15_

*16*

Esta inconstancia de mim próprio em vibração

É que me ha de transpôr ás zonas intermédias,

E seguirei entre cristais de inquietação,

A retinir, a ondular... Soltas as rédeas,

Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar

A tôrre d'ouro que era o carro da minh'Alma,

Transviarão pelo deserto, muribundos de Luar--

E eu só me lembrarei num baloiçar de palma...

Nos oásis, depois, hão de se abismar gumes,

A atmosfera ha de ser outra, noutros planos:

As rãs hão de coaxar-me em roucos tons humanos

Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...

* * * * *

Ha sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...

A cada passo a minha alma é outra cruz,

E o meu coração gira: é uma roda de côres...

Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...

Já não é o meu rastro o rastro d'oiro que ainda sigo...

Resvalo em pontes de gelatina e de bolôres...

Hoje, a luz para mim é sempre meia-luz...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

As mesas do Café endoideceram feitas ar...

Caiu-me agora um braço... Olha, lá vai êle a valsar

Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...

(Subo por mim acima como por uma escada de corda,

E a minha Ansia é um trapézio escangalhado...).

_Lisboa--Maio de 1914_

*DISTANTE MELODIA...*

Num sonho d'Iris, morto a ouro e brasa,

Vem-me lembranças doutro Tempo azul

Que me oscilava entre véus de tule--

Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Então os meus sentidos eram côres,

Nasciam num jardim as minhas ansias,

Havia na minh'alma Outras distancias--

Distancias que o segui-las era flôres...

Caía Ouro se pensava Estrelas,

O luar batia sobre o meu alhear-me...

Noites-lagôas, como éreis belas

Sob terraços-liz de recordar-me!...

Idade acorde d'Inter sonho e Lua,

Onde as horas corriam sempre jade,

Onde a neblina era uma saudade,

E a luz--anseios de Princesa nua...

Balaústres de som, arcos de Amar,

Pontes de brilho, ogivas de perfume...

Dominio inexprimivel d'Ópio e lume

Que nunca mais, em côr, hei de habitar...

Tapêtes doutras Persias mais Oriente...

Cortinados de Chinas mais marfim...

Aureos Templos de ritos de setim...

Fontes correndo sombra, mansamente...

Zimbórios-panthéons de nostalgias...

Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...

Escadas de honra, escadas só, ao ar...

Novas Byzancios-alma, outras Turquias...

Lembranças fluidas... cinza de brocado...

Irrealidade anil que em mim ondeia...

--Ao meu redór eu sou Rei exilado,

Vagabundo dum sonho de sereia...

_Paris 1914--Junho 30_

*VISLUMBRE*

A horas flébeis, outonais--

Por magoados fins de dia--

A minha Alma é água fria

Em ânforas d'Ouro... entre cristais...

_Camarate--Quinta da Vitória.

Outubro de 1914._

*SUGESTÃO*

As companheiras que não tive,

Sinto-as chorar por mim, veladas,

Ao pôr do sol, pelos jardins...

Na sua mágoa azul revive

A minha dôr de mãos finadas

Sobre setins...

_Paris--Agosto de 1914_

*7*

Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o Outro.

_Lisboa--Fevereiro de 1914_

*ANGULO*

Aonde irei neste sem-fim perdido,

Neste mar ôco de certezas mortas?--

Fingidas, afinal, todas as portas

Que no dique julguei ter construido...

--Barcaças dos meus impetos tigrados,

Que oceano vos dormiram de Segrêdo?

Partiste-vos, transportes encantados,

De embate, em alma ao rôxo, a que rochêdo?...

--Ó nau de festa, ó ruiva de aventura

Onde, em Champanhe, a minha ansia ia,

Quebraste-vos tambem ou, por ventura,

Fundeaste a Ouro em portos d'alquimia?...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Chegaram á baía os galeões

Com as séte Princesas que morreram.

Regatas de luar não se correram...

As bandeiras velaram-se, orações...

Detive-me na ponte, debruçado,

Mas a ponte era falsa--e derradeira.

Segui no cais. O cais era abaulado,

Cais fingido sem mar á sua beira...

--Por sôbre o que Eu não sou ha grandes pontes

Que um outro, só metade, quer passar

Em miragens de falsos horizontes--

Um outro que eu não posso acorrentar...

_Barcelona--Setembro de 1914_

*A INEGUALAVEL*

Ai, como eu te queria toda de violetas

E flébil de setim...

Teus dedos longos, de marfim,

Que os sombreassem joias pretas...

E tão febril e delicada

Que não podesses dar um passo--

Sonhando estrelas, transtornada,

Com estampas de côr no regaço...

Queria-te nua e friorenta,

Aconchegando-te em zibelinas--

Sonolenta,

Ruiva de éteres e morfinas...

Ah! que as tuas nostalgias fôssem guisos de prata--

Teus frenesis, lantejoulas;

E os ócios em que estiolas,

Luar que se desbarata...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Teus beijos, queria-os de tule,

Transparecendo carmim--

Os teus espasmos, de sêda...

--Água fria e clara numa noite azul,

Água, devia ser o teu amor por mim...

_Lisboa 1915--Fevereiro 16_

*APOTEOSE*

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro

Dormindo fôgo, incerto, longemente...

Tudo se me igualou num sonho rente,

E em metade de mim hoje só móro...

São tristezas de bronze as que inda chóro--

Pilastras mortas, marmores ao Poente...

Lagearam-se-me as ansias brancamente

Por claustros falsos onde nunca óro...

Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,

Quebrei a taça de cristal e espanto,

Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Olor-brocado...

Luar-ansia... Luz-perdão... Orquideas pranto...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

--Ó pantanos de Mim--jardim estagnado...

_Paris 1914--Junho 28_

MARIO DE SÁ-CARNEIRO.

*POEMAS*

DE

RONALD DE CARVALHO

*A ALMA QUE PASSA*

*I--Sentido*

Fujo de mim como um perfume antigo

foge ondulante e vago de um missal

e julgo uma alma estranha andar commigo,

dizendo adeus a uma aventura irreal.

Sou transparencia, chamma pallida, ansia,

ultima nau que abandonou o caes.

No alvôr das minhas mãos chora a distancia

prôas rachadas, longes de ouro, ideaes...

Sonho meu corpo como de um ausente,

naufrágo e exsurjo dentro da memoria,

accórdo num jardim convalescente,

vago perdido em outros num jardim,

e sinto no clarão da ultima gloria

a sombra do que sou morrer em mim...

*II--Legenda*

A Vida é uma princeza dolorosa

no seu castelo de rubis e opalas,

tanjendo ao poente em harpa silenciosa

uma agonia de almas e de falas...

Colho de tuas mãos a triste rosa,

Vida que és sombra e sobre mim resvalas.

Passas, e em tua sombra a ondear saudosa

vagam fantasmas de desertas salas...

(Vozes perdidas, juramentos a esmo,

passos que morrem sobre passos, sinos

accórdam madrugadas em mim mesmo.

E entre trompas, tambores e metralha,

claveharpas, orgãos, tubas e violinos

a Vida e a Dôr começam a batalha...)

*III--Genese*

Antes a alma que tenho andou perdida,

foi pedrouço a rolar pelo caminho,

topazio, opala, perola esquecida

num bracelete real; foi caule e espinho,

bronze que a mão tocou, aurea jazida

por entre as ruinas de um paiz maninho,

e reflectiu, fatal, o olhar da Vida

no corpo em sangue de um estranho vinho...

Foi casco medieval, foi lança e escudo,

foi luz lunar e errante de lanterna,

e depois de exsurgir, triste, de tudo

veio para chorar dentro em meu ser

a amarga maldição de ser eterna

e a dôr de renascer quando eu morrer...

*LAMPADA NOCTURNA*

Tonta de somno e de doçura

no alto das garras de marfim

perdida em sombra a luz procura.

Alguem morreu dentro de mim...

Pela janela triste e escura

que abre os balcões para o jardim

sóbe um perfume de amargura.

Alguem morreu dentro de mím...

E vaes rompendo silenciosa

com o fino teu punhal de luxo

no ultimo vaso a ultima rosa...

E o caule nú reflecte agora

no teu olhar como um repuxo

que implora o azul e não demora...

*TORRE IGNOTA*

Da sombra se ergue e não demóra

nas mãos que a cingem desejosas

o ar a fascina sempre e agora

e as linhas lava luminosas

O talhe inquieta a luz por fóra

sonham chimeras dolorosas

e não floresce na haste da hóra

nem a volupia de outras rosas

Só de ser unica levanta

como um sorriso a pedraria

que o som dos bronzes acalanta

Da sombra se ergue para a gloria

e a mão que a esflóra é argila fria

num vôo branco de memoria

*O ELOGIO DOS REPUXOS*

Dôr dos repuxos ao Sol-Pôr agonisando

em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz...

Canto da água que desce em poeira, leve e brando,

canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma--a cinza tem affagos...

Sombras de antigas náos, velas altas a arfar,

passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,

(a aventura, a conquista, a ansia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos--

curvos leques a abrir e a fechar num adejo,

--mão vencida que vem de vãos incitamentos,

mão nervosa que vai mais cheia de desejo...

Volupia de fugir--ser longe e ser distancia,

e tornar logo ao cais e de novo partir!

Volupia--desejar e não possuir, ser ansia...

Repuxos a descer, repuxos a subir...

Não fixar emoções, volupia de esquecê-las,

andar dentro de si perdido na memória...

(Caçadores ideais de mundos e de estrelas--

repuxos ao Sol-Pôr cheios de magoa e glória...)

Dôr dos repuxos ao crepusculo cantando!

desespero, alegria--o labio, a mão... e um beijo.

Dôr dos repuxos, dôr sangrando, dôr sonhando--

ir tocar a ilusão e morrer em desejo...

*REFLEXOS*

_(Poema da Alma enferma)_

Minha alma treme como um lirio

dentro da água dos teus olhos--

minha alma treme como um lirio,

com as mãos varadas por abrolhos.

Toda de linho de noivado,

á tua porta a tremer,

toda de linho de noivado

minha alma vai amanhecer.

Anda um perfume de alêm-morte

na sua voz dolorida,

anda um perfume de alêm-morte

nas vestes pálidas da vida...

A hora lilaz desabotôa

em flôres de cinza e braza,

a hora lilaz desabotôa

com um rumor sonambulo de asa.

Pelo canal resam os barcos

cheios de graça e de glória...

pelo canal resam os barcos

a triste história da memória...

Minha alma accorda o caes deserto,

florida em rosas de magoa--

minha alma accorda o caes deserto,

e a sua sombra é um cysne na água...

E sobre as lampadas extintas

tombam funebres antenas,

e sobre as lampadas extintas

morrem as ultimas falenas.

As torres scismam pelo espaço.

No silencio erram violinos--

as torres scismam pelo espaço...

na penumbra cogitam sinos...

Minha alma toda se enclausura

no jardim que entardeceu...

minha alma toda se enclausura

num beijo irreal que não nasceu...

Dentro da água dos teus olhos

minha alma treme como um lirio...

RONALD DE CARVALHO.

_FERNANDO PESSOA_

*O MARINHEIRO*

DRAMA ESTÁTICO EM UM QUADRO

a Carlos Franco.

Um quarto que é sem duvida num castello antigo. Do quarto vê-se que é

circular. Ao centro ergue-se, sobre uma eça, um caixão com uma

donzella, de branco. Quatro tochas aos cantos. Á direita, quasi em

frente a quem imagina o quarto, ha uma unica janella, alta e estreita,

dando para onde só se vê, entre dois montes longinquos, um pequeno

espaço de mar.

Do lado da janella velam trez donzellas. A primeira está sentada em

frente á janella, de costas contra a tocha de cima da direita. As

outras duas estão sentadas uma de cada lado da janella.

É noite e ha como que um resto vago de luar.

*Primeira veladora*.--Ainda não deu hora nenhuma.

*Segunda*.--Não se podia ouvir. Não ha relogio aqui perto. Dentro

em pouco deve ser dia.

*Terceira*.--Não: o horizonte é negro.

*Primeira*.--Não desejaes, minha irmã, que nos entretenhamos contando

o que fômos? É bello e é sempre falso...

*Segunda*.--Não, não fallemos d'isso. De resto, fômos nós alguma

cousa?

*Primeira*.--Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é bello

fallar do passado... As horas teem cahido e nós temos guardado

silencio. Por mim, tenho estado a olhar para a chamma d'aquella vela.

Ás vezes treme, outras torna-se mais amarella, outras vezes empallidece.

Eu não sei porque é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas

irmãs, porque se dá qualquer cousa?...

(uma pausa)

*A mesma*.--Fallar do passado--isso deve ser bello, porque é inútil

e faz tanta pena...

*Segunda*.--Fallemos, se quizerdes, de um passado que não tivessemos

tido.

*Terceira*.--Não. Talvez o tivessemos tido...

*Primeira*.--Não dizeis senão palavras. É tão triste fallar! É um

modo tão falso de nos esquecermos!... Se passeassemos?...

*Terceira*.--Onde?

*Primeira*.--Aqui, de um lado para o outro. Ás vezes isso vai buscar

sonhos.

*Terceira*.--De quê?

*Primeira*.--Não sei. Porque o havia eu de saber?

(uma pausa)

*Segunda*.--Todo este paiz é muito triste... Aquelle onde eu vivi

outr'ora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada á minha

janella. A janella dava para o mar e ás vezes havia uma ilha ao longe...

Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de

viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquillo que talvez

eu nunca fôsse...

*Primeira*.--Fóra de aqui, nunca vi o mar. Alli, d'aquella janella,

que é a unica de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de

outras terras é bello?

*Segunda*.--Só o mar das outras terras é que é bello. Aquelle

que nós vemos dá-nos sempre saudades d'aquelle que não veremos

nunca...

(uma pausa)

*Primeira*.--Não diziamos nós que iamos contar o nosso passado?

*Segunda*.--Não, não diziamos.

*Terceira*.--Porque não haverá relogio neste quarto?

*Segunda*.--Não sei... Mas assim, sem o relogio, tudo é mais

afastado e mysterioso. A noite pertence mais a si-propria... Quem

sabe se nós poderiamos fallar assim se soubessemos a hora que é?

*Primeira*.--Minha irmã, em mim tudo é triste. Passo dezembros

na alma... Estou procurando não olhar para a janella... Sei que de

lá se vêem, ao longe, montes... Eu fui feliz para além de montes,

outr'ora... Eu era pequenina. Colhia flôres todo o dia e antes de

adormecer pedia que não m'as tirassem... Não sei o que isto tem de

irreparavel que me dá vontade de chorar... Foi longe d'aqui que

isto pôde ser... Quando virá o dia?...

*Terceira*.--Que importa? Elle vem sempre da mesma maneira...

sempre, sempre, sempre...

(uma pausa)

*Segunda*.--Contemos contos umas ás outras... Eu não sei contos

nenhuns, mas isso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não

rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... Não, não vos

levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho...

Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar

que o podia estar tendo... Mas o passado--porque não fallâmos nós

d'elle?

*Primeira*.--Decidimos não o fazer... Breve raiará o dia e arrepender-nos-hemos...

Com a luz os sonhos adormecem... O passado

não é senão um sonho... De resto, nem sei o que não é sonho... Se

ólho para o presente com muita attenção, parece-me que elle já passou...

O que é qualquer cousa? Como é que ella passa? Como é

por dentro o modo como ella passa?... Ah, fallemos, minhas irmãs,

fallemos alto, fallemos todas juntas... O silencio começa a tomar

corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma nevoa...

Ah, fallae, fallae!...

*Segunda*.--Para quê?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo...

Parece-me que entre nós se augmentaram abysmos... Tenho que

cançar a idéa de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos...

Este ar quente é frio por dentro, naquella parte que toca na alma...

Eu devia agora sentir mãos impossiveis passarem-me pelos cabellos...

As mãos pelos cabellos--é o gesto com que fallam das

sereias... _(Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa.)_ Ainda ha pouco,

quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado...

*Primeira*.---Eu tambem devia ter estado a pensar no meu...

*Terceira*.--Eu já não sei em que pensava... No passado dos

outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu...

Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho... Porque é

que correria, e porque é que não correria mais longe, ou mais

perto?... Ha alguma razão para qualquer cousa ser o que é? Ha

para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?...

*Segunda*.--As mãos não são verdadeiras nem reaes... São mysterios

que habitam na nossa vida... Ás vezes, quando fito as minhas

mãos, tenho medo de Deus... Não ha vento que mova as chammas

das velas, e olhae, ellas movem-se... Para onde se inclinam ellas?...

Que pena se alguem pudesse responder!... Sinto-me desejosa de

ouvir musicas barbaras que devem agora estar tocando em palacios

de outros continentes... É sempre longe na minha alma... Talvez porque,

quando creança, corri atraz das ondas á beira-mar. Levei a vida

pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado

as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estatua de

anjo para que nunca mais ninguem olhasse...

*Terceira*.--As vossas phrases lembram-me a minha alma...

*Segunda*.--É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as

digo... Repito-as seguindo uma voz que não ouço que m'as está

segredando... Mas eu devo ter vivido realmente á beira-mar... Sempre

que uma causa ondeia, eu amo-a... Ha ondas na minha alma...

Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... Não o

faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se

quer fazer... Dos montes é que eu tenho medo... É impossivel que

elles sejam tão parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra

que se recusam a saber que teem... Se d'esta janella, debruçando-me,

eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-hia um momento da

minha alma alguem em quem eu me sentisse feliz...

*Primeira*.--Por mim, amo os montes... Do lado de cá de todos

os montes é que a vida é sempre feia... Do lado de lá, onde mora

minha mãe, costumavamos sentarmo-nos á sombra dos tamarindos e

fallar de ir ver outras terras... Tudo alli era longo e feliz como

o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho... A floresta

não tinha outras clareiras senão os nossos pensamentos... E os nossos

sonhos eram de que as arvores projectassem no chão outra calma

que não as suas sombras... Foi decerto assim que alli vivemos, eu

e não sei se mais alguem... Dizei-me que isto foi verdade para que

eu não tenha de chorar...

*Segunda*.--Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar... A orla

da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas...

Eu era pequena e barbara... Hoje tenho medo de ter sido... O presente

parece me que durmo... Fallae-me das fadas. Nunca ouvi fallar

d'ellas a ninguem... O mar era grande demais para fazer pensar

nellas... Na vida aquece ser pequeno... Ereis feliz minha irmã?.

*Primeira*.--Começo neste momento a tel-o sido outr'ora... De

resto, tudo aquilo se passou na sombra... As arvores viveram-o mais

do que eu... Nunca chegou quem eu mal esperava... E vós, irmã,

porque não fallaes?

*Terceira*.--Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que

vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as diga, pertencerão

logo ao passado, ficarão fóra de mim, não sei onde, rigidas e

fataes... Fallo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras

parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu. Sinto

na minha mão, não sei como, a chave de uma porta desconhecida. E

toda eu sou um amuleto ou um sacrario que estivesse com consciencia

de si-proprio. É por isto que me apavora ir, como por uma floresta

escura, atravez do mysterio de fallar... E, afinal, quem sabe

se eu sou assim e se é isto sem duvida que sinto?...

*Primeira*.--Custa tanto saber o que se sente quando reparamos

em nós!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso...

Fallae portanto, sem reparardes que existis... Não nos ieis dizer quem

ereis?

*Terceira*.--O que eu era outr'ora já não se lembra de quem sou...

Pobre da feliz que eu fui!... Eu vivi entre as sombras dos ramos, e

tudo na minha alma é folhas que estremecem. Quando ando ao sol a

minha sombra é fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes,

onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquillas

dos meus dedos... Ás vezes, á beira dos lagos, debruçava-me e fitava-me...

Quando eu sorria, os meus dentes eram mysteriosos na

agua... Tinham um sorriso só d'elles, independente do meu... Era

sempre sem razão que eu sorria... Fallae-me da morte, do fim de

tudo, para que eu sinta uma razão p'ra recordar...

*Primeira*.--Não fallemos de nada, de nada... Está mais frio, mas

porque é que está mais frio? Não ha razão para estar mais frio. Não

é bem mais frio que está... Para que é que havemos de fallar?...

É melhor cantar, não sei porquê... O canto, quando a gente canta

de noite, é uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no

quarto e o aquece a consolar-nos... Eu podia cantar-vos uma canção

que cantavamos em casa de meu passado. Porque é que não quereis

que vol-a cante?

*Terceira*.--Não vale a pena, minha irmã... Quando alguem canta,

eu não posso estar commigo. Tenho que não poder recordar-me. E

depois todo o meu passado torna-se outro e eu chóro uma vida morta

que trago commigo e que não vivi nunca. É sempre tarde de mais

para cantar, assim como é sempre tarde de mais para não cantar...

(uma pausa)

*Primeira*.--Breve será dia... Guardemos silencio... A vida assim

o quer... Ao pé da minha casa natal havia um lago. Eu ia lá

e assentava-me á beira d'elle, sobre um tronco de arvore que cahira

quasi dentro de agua... Sentava-me na ponta e molhava na agua os

pés, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente

para as pontas dos pés, mas não era para as ver... Não sei porquê,

mas parece-me d'este lago que elle nunca existiu... Lembrar-me

d'elle é como não me poder lembrar de nada... Quem sabe porque

é que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?...

*Segunda*.--Á beira-mar somos tristes quando sonhamos... Não

podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremol-o

sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a

espuma chia, parece que ha mil vozes minimas a fallar. A espuma

só parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo é muito e nós não

sabemos nada... Quereis que vos conte o que eu sonhava á beira-mar?

*Primeira*.--Podeis contal-o, minha irmã, mas nada em nós tem necessidade

de que nol-o conteis... Se é bello, tenho já pena de vir a

tel-o ouvido. E se não é bello, esperae..., contae-o só depois de o

alterardes...

*Segunda*.--Vou dizer vol-o. Não é inteiramente falso, porque sem

duvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que

eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha

esquecido que tinha pae e mãe e que houvera em mim infancia

e outros dias--nesse dia vi ao longe, como uma cousa que eu só pensasse

em ver, a passagem vaga de uma vela... Depois ella cessou...

Quando reparei para mim, vi que já tinha esse meu sonho... Não

sei onde elle teve principio... E nunca tornei a ver outra vela...

Nenhuma das velas dos navios que sahem aqui de um porto se parece

com aquella, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar...

*Primeira*.--Vejo pela janella um navio ao longe. É talvez aquelle

que vistes...

*Segunda*.--Não, minha irmã; esse que vêdes busca sem duvida

um porto qualquér... Não podia ser que aquelle que eu vi buscasse

qualquér porto...

*Primeira*.---Porque é que me respondestes?... Pode ser... Eu

não vi navio nenhum pela janella... Desejava ver um e fallei-vos

d'elle para não ter pena... Contae-nos agora o que foi que sonhastes

á beira mar...

*Segunda*.--Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido

numa ilha longinqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e

aves vagas passavam por ellas... Não vi se alguma vez pousavam...

Desde que, naufragado, se salvára, o marinheiro vivia alli... Como

elle não tinha meio de voltar á patria, e cada vez que se lembrava

d'ella soffria, poz-se a sonhar uma patria que nunca tivesse tido; poz-se

a fazer ter sido sua uma outra patria, uma outra especie de paiz,

com outras especies de paysagens, e outra gente, e outro feitio de passarem

pelas ruas e de se debruçarem das janellas... Cada hora elle

construía em sonho esta falsa patria, e elle nunca deixava de sonhar,

de dia á sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada

de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia,

de costas, e não reparando nas estrellas.

*Primeira*.--Não ter havido uma arvore que mosqueasse sobre as

minhas mãos estendidas a sombra de um sonho como esse!...

*Terceira*.--Deixae-a fallar... Não a interrompaes... Ella conhece

palavras que as sereias lhe ensinaram... Adormeço para a poder escutar...

Dizei, minha irmã, dizei... Meu coração doe-me de não ter

sido vós quando sonhaveis á beira mar...

*Segunda*.--Durante annos e annos, dia a dia o marinheiro erguia

num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha

uma pedra de sonho nesse edificio impossivel... Breve elle ia tendo

um paiz que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se

já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que côr

soiam ser os crepusculos numa bahia do norte, e como era suave

entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmurio da agua que

o navio abria, num grande porto do sul onde elle passára outr'ora,

feliz talvez, das suas mocidades a supposta...

(uma pausa)

*Primeira*.--Minha irmã, porque é que vos calaes?

*Segunda*.--Não se deve fallar demasiado... A vida espreita-nos

sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não

o saber... Quando fallo de mais começo a separar-me de mim e a

ouvir-me fallar. Isso faz com que me compadeça de mim-propria e

sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa

de o ter nos braços para o poder embalar como a um filho... Vêde:

o horizonte empallideceu... O dia não póde já tardar... Será preciso

que eu vos falle ainda mais do meu sonho?

*Primeira*.--Contae sempre, minha irmã, contae sempre... Não

pareis de contar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca

raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas... Não

torçaes as mãos. Isso faz um ruido como o de uma serpente furtiva...

Fallae-nos muito mais do vosso sonho. Elle é tão verdadeiro que não

tem sentido nenhum. Só pensar em ouvir-vos me toca musica na

alma...

*Segunda*.--Sim, fallar-vos-hei mais d'elle. Mesmo eu preciso de

vol-o contar. À medida que o vou contando, é a mim tambem que o

conto... São trez a escutar... _(De repente, olhando para o caixão,

e estremecendo.)_ Trez não... Não sei... Não sei quantas...

*Terceira*.--Não falleis assim... Contae depressa, contae outra

vez... Não falleis em quantos podem ouvir... Nós nunca sabemos

quantas cousas realmente vivem e vêem e escutam... Voltae ao vosso

sonho... O marinheiro... O que sonhava o marinheiro?...

*Segunda* _(mais baixo, numa voz muito lenta)_.--Ao principio elle

creou as paysagens; depois creou as cidades; creou depois as ruas

e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na materia da sua alma--

uma a uma as ruas, bairro a bairro, até ás muralhas dos caes d'onde

elle creou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as

percorria e que olhava sobre ellas das janellas... Passou a conhecer

certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as

vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas

paysagens e as vae vendo... Depois viajava, recordado, atravez

do paiz que creara... E assim foi construindo o seu passado... Breve

tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova patria, um

logar onde nascera, os logares onde passara a juventude, os portos

onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infancia e depois

os amigos e inimigos da sua edade viril... Tudo era differente de

como elle o tivera--nem o paiz, nem a gente, nem o seu passado

proprio se pareciam com o que haviam sido... Exigís que eu continue?...

Causa-me tanta pena fallar d'isto!... Agora, porque vos fallo

d'isto, aprazia-me mais estar-vos fallando de outros sonhos...

*Terceira*.--Continuae, ainda que não saibaes porquê... Quanto

mais vos ouço, mais me não pertenço...

*Primeira*.--Será bom realmente que continueis? Deve qualquer

historia ter fim? Em todo o caso fallae... Importa tão pouco o que

dizemos ou não dizemos... Velamos as horas que passam... O nosso

mister é inutil como a Vida...

*Segunda*.--Um dia, que chovêra muito, e o horizonte estava mais

incerto, o marinheiro cançou-se de sonhar... Quiz então recordar a

sua patria verdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que

ella não existia para elle... Meninice de que se lembrasse, era a na

sua patria de sonho; adolescencia que recordasse, era aquella que se

creara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E

elle viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Se elle

nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se

lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e

tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que

tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Ó minhas

irmãs, minhas irmãs... Ha qualquer cousa, que não sei o que é, que

vos não disse..., qualquer cousa que explicaria isto tudo... A minha

alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a fallar... Fallae-me, gritae-me,

para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante

vós e que ha cousas que são apenas sonhos...

*Primeira* _(numa voz muito baixa)_.--Não sei que vos diga... Não

ouso olhar para as cousas... Esse sonho como continúa?...

*Segunda*.--Não sei como era o resto... Mal sei como era o

resto... Porque é que haverá mais?...

*Primeira*.--E o que aconteceu depois?

*Segunda*.--Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?...

Veiu um dia um barco... Veiu um dia um barco...--Sim, sim...

só podia ter sido assim...--Veiu um dia um barco, e passou por

essa ilha, e não estava lá o marinheiro...

*Terceira*.--Talvez tivesse regressado á patria... Mas a qual?

*Primeira*.--Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabel-o-hia

alguem?

*Segunda*.--Porque é que m'o perguntaes? Ha resposta para

alguma cousa?

(uma pausa)

*Terceira*.--Será absolutamente necessario, mesmo dentro do vosso

sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?

*Segunda*.--Não, minha irmã; nada é absolutamente necessario.

*Primeira*.--Ao menos, como acabou o sonho?

*Segunda*.--Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba...

Sei eu ao certo se o não continúo sonhando, se o não sonho sem o

saber, se o sonhal-o não é esta cousa vaga a que eu chamo a minha

vida?... Não me falleis mais... Principío a estar certa de qualquer

cousa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que

não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu

ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo

disforme de que Deus tivesse prohibido o meu sonho... Elle é sem

duvida mais real do que Deus permitte... Não estejaes silenciosas...

Dizei-me ao menos que a noite vae passando, embora eu o saiba...

Vêde, começa a ir ser dia... Vêde: vae haver o dia real... Paremos...

Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura

interior... Quem sabe o que está no fim d'ella?... Tudo isto, minhas

irmãs, passou-se na noite... Não fallemos mais d'isto, nem a nós-proprias...

É humano e conveniente que tomemos, cada qual a sua

attitude de tristeza.

*Terceira*.--Foi-me tão bello escutar-vos... Não digaes que não...

Bem sei que não valeu a pena... É porisso que o achei bello... Não

foi porisso, mas deixae que eu o diga... De resto, a musica da vossa

voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez

só por ser musica, descontente...

*Segunda*.--Tudo deixa descontente, minha irmã... Os homens

que pensam cançam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que

passam provam-o, porque mudam com tudo... De eterno e bello ha

apenas o sonho... Porque estamos nós fallando ainda?...

*Primeira*.--Não sei... _(olhando para o caixão, em voz mais baixa)_

Porque é que se morre?

*Segunda*.--Talvez por não se sonhar bastante...

*Primeira*.--É possivel... Não valeria então a pena fecharmo-nos

no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?...

*Segunda*.--Não, minha irmã: nada vale a pena...

*Terceira*.--Minhas irmãs, é já dia... Vêde, a linha dos montes

maravilha-se... Porque não choramos nós?... Aquella que finge estar

alli era bella, e nova como nós, e sonhava tambem... Estou certa

que o sonho d'ella era o mais bello de todos... Ella de que sonharia?...

*Primeira*.--Fallae mais baixo. Ella escuta-nos talvez, e já sabe

para que servem os sonhos...

(uma pausa)

*Segunda*.--Talvez nada d'isto seja verdade... Todo este silencio,

e esta morta, e este dia que começa não são talvez senão um sonho...

Olhae bem para tudo isto... Parece-vos que pertence á vida?...

*Primeira*.--Não sei. Não sei como se é da vida... Ah, como vós

estaes parada! E os vossos olhos tão tristes, parece que o estão inutilmente...

*Segunda*.--Não vale a pena estar triste de outra maneira... Não

desejaes que nos calemos? É tão extranho estar a viver... Tudo o

que acontece é inacreditavel, tanto na ilha do marinheiro como neste

mundo... Vêde, o céu é já verde... O horizonte sorri ouro... Sinto

que me ardem os olhos, de eu ter pensado em chorar...

*Primeira*.--Chorastes, com effeito, minha irmã.

*Segunda*.--Talvez... Não importa... Que frio é este?... O que

é isto?... Ah, é agora... é agora... Dizei-me isto... Dizei-me uma

cousa ainda... Porque não será a unica cousa real nisto tudo o marinheiro,

e nós e tudo isto aqui apenas um sonho d'elle?...

*Primeira*.--Não falleis mais, não falleis mais... Isso é tão extranho

que deve ser verdade... Não continueis... O que ieis dizer não

sei o que é, mas deve ser de mais para a alma o poder ouvir...

Tenho medo do que não chegastes a dizer... Vêde, vêde, é dia já...

Vêde o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, alli

fóra... Vêde-o, vêde-o... Elle consola... Não penseis, não olheis

para o que pensaes... Vêde-o a vir, o dia... Elle brilha como ouro

numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se á medida que

se coloram... Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, de

qualquer modo, absolutamente cousa nenhuma?... Porque olhastes

assim?...

(Não lhe respondem. E ninguem olhara de nenhuma maneira.)

*A mesma*.--Que foi isso que dissestes e que me apavorou?... Senti-o

tanto que mal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu,

ouvindo-o segunda vez, já não tenha tanto mêdo como d'antes... Não,

não... Não digaes nada... Não vos pergunto isto para que me respondaes,

mas para fallar apenas, para me não deixar pensar... Tenho

medo de me poder lembrar do que foi... Mas foi qualquer cousa

de grande e pavoroso como o haver Deus... Deviamos já ter acabado

de fallar... Ha tempo já que a nossa conversa perdeu o sentido...

O que ha entre nós que nos faz fallar prolonga-se demasiadamente...

Ha mais presenças aqui do que as nossas almas... O dia devia ter

já raiado... Deviam já ter acordado... Tarda qualquer cousa...

Tarda tudo... O que é que se está dando nas cousas de accordo com

o nosso horror?... Ah, não me abandoneis... Fallae commigo, fallae

commigo... Fallae ao mesmo tempo do que eu para não deixardes

sosinha a minha voz... Tenho menos medo á minha voz do que

á idéa da minha voz, dentro de mim, se fôr reparar que estou fallando...

*Terceira*.--Que voz é essa com que fallaes?... É de outra...

Vem de uma especie de longe...

*Primeira*.--Não sei... Não me lembreis isso... Eu devia estar

fallando com a voz aguda e tremida do mêdo... Mas já não sei como

é que se falla... Entre mim e a minha voz abriu-se um abysmo...

Tudo isto, toda esta conversa, e esta noite, e este mêdo--tudo isto

devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que

nos dissestes... Começo a sentir que o esqueço, a isso que dissestes,

e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para

exprimir um horror de aquelles...

*Terceira* _(para a Segunda)_.--Minha irmã, não nos devieis ter

contado essa historia. Agora extranho-me viva com mais horror. Contaveis

e eu tanto me distrahia que ouvia o sentido das vossas palavras

e o seu som separadamente. E parecia-me que vós, e a vossa voz, e

o sentido do que dizieis eram trez entes differentes, como trez creaturas

que fallam e andam.

*Segunda*.--São realmente trez entes differentes, com vida propria

e real. Deus talvez saiba porquê... Ah, mas porque é que fallamos?

Quem é que nos faz continuar fallando? Porque fallo eu sem querer

fallar? Porque é que á não reparamos que é dia?...

*Primeira*.--Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me

a gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha

vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter

mêdo de que alguem possa agora bater àquella porta. Porque não bate

alguem á porta? Seria impossivel e eu tenho necessidade de ter mêdo

d'isso, de saber de que é que tenho mêdo... Que extranha que me sinto!...

Parece-me já não ter a minha voz... Parte de mim adormeceu e ficou

a vêr... O meu pavôr cresceu mas eu já não sei sentil-o... Já

não sei em que parte da alma é que se sente... Puzeram ao meu sentimento

do meu corpo uma mortalha de chumbo... Para que foi que

que nos contastes a vossa historia?

*Segunda*.--Já não me lembro... Já mal me lembro que a contei...

Parece ter sido já ha tanto tempo!... Que somno, que somno absorve

o meu modo de olhar para as cousas!... O que é que nós queremos

fazer? o que é que nós temos idéa de fazer?--já não sei se é fallar

ou não fallar...

*Primeira*.--Não fallemos mais. Por mim, cança-me o esforço que

fazeis para fallar... Dóe-me o intervallo que ha entre o que pensaes

e o que dizeis... A minha consciencia boia á tona da somnolencia

apavorada dos meus sentidos pela minha pelle... Não sei o que é isto,

mas é o que sinto... Preciso dizer phrases confusas, um pouco longas,

que custem a dizer... Não sentis tudo isto como uma aranha

enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende?

*Segunda*.--Não sinto nada... Sinto as minhas sensações como uma

cousa que se não sente... Quem é que eu estou sendo?... Quem é

que está fallando com a minha voz?... Ah, escutae...

*Primeira e Terceira*.--Quem foi?

*Segunda*.--Nada. Não ouvi nada... Quiz fingir que ouvia para que

vós suppozesseis que ouvieis e eu pudesse crêr que havia alguma cousa

a ouvir... Oh, que horror, que horror intimo nos desata a voz da alma,

e as sensações dos pensamentos, e nos faz fallar e sentir e pensar

quando tudo em nós pede o silencio e o dia e a inconsciencia da vida...

Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe

sempre que vamos a sentir?...

*Primeira*.--Para quê tentar apavorar-me?... Não cabe mais terror

dentro de mim... Peso excessivamente ao collo de me sentir.

Afundei-me toda no lodo morno do que supponho que sinto. Entra-me

por todos os sentidos qualquer cousa que m'os pega e m'os vela. Pesam

as palpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a lingua a

todos os meus sentimentos. Um somno fundo colla uma ás outras as

idéas de todos os meus gestos... Porque foi que olhastes assim?...

*Terceira* _(numa voz muito lenta e apagada)_.--Ah, é agora, é

agora... Sim, acordou alguem... Ha gente que acorda... Quando

entrar alguem tudo isto acabará... Até lá façamos por crêr que todo

este horror foi um longo somno que fomos dormindo... É dia já...

Vae acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois

feliz, porque acreditaes no sonho...

*Segunda*.--Porque é que m'o perguntaes? Porque eu o disse? Não,

não acredito...

Um gallo canta. A luz, como que subitamente,

augmenta. As trez veladoras quedam-se silenciosas

e sem olharem umas para as outras.

Não muito longe, por uma estrada, um vago

carro geme e chia.

_11/12 Outubro, 1913._

FERNANDO PESSÔA.

*TREZE SONETOS*

DE

ALFREDO PEDRO GUISADO

_ADORMECIDA_

As tuas mãos dormiam na lagôa incenso.

E pelas alamedas destruídas, loucas,

Desceu-se em mim minha alma a procurar as bocas

Que me rezaram Ser sôbre o teu manto extenso.

Orpheu Nº1 Revista Trimestral de Literatura · 第 1 / 3 段