XXIV

Não tarda a madrugada. E o campanário, e a igreja, e a fortaleza da

muralha impassivel que resguarda as eiras, as moradas e a deveza, se o

ímpeto das águas ameaça, quando em torrente desce das montanhas, geladas,

no inverno; e o rio, e os amieiros, e os palácios, e a ponte, sombriamente

altiva e orgulhosa:--sonham encantos ao luar cadente que em derradeiro

afago ainda os protege no silencio da sua mansidão. A rocha e a onda, que

eram inimigas e porfiádos combates combatiam pertinázmente disputando o

chão, confundiram-se, adorando o luar; e na mesma doçura adormeceram,

dormindo o mesmo sôno, desarmadas, ambas humildes, dóceis e sujeitas à

magia divina desse bemdito alvôr que as alumia. E o coração, dorido dos

anseios que o agitam, prostrado dos enlevos e das penas que lhe são

cadafalso e o seu consolo, sustento, pão e cálice e o algôz, a cicuta

mortal e a perdição, acalmou-se, como o rochedo e a onda, em seu lutar; à

luz piedosa do luar se entrega e em seus sonhos lhe roga e lhe implora que

benignamente suavise, e lhe abrande, embalsame e lhe receba esperanças e

tormentos, e os vôos da ilusão e a loucura de engânos que só querem

renascer renovados e crescidos em muitos mais enganos e mais loucos.

Mas vem a despertá-los a manhã. Além, onde as estrelas desmaiaram, o ceu

pressente a aurora e o seu rubôr. E rochêdos, e igreja, e amieiros, e

muros, e palácios, a criação dos deuses e a dos homens, e o próprio

coração que Deus habita, acordam para sofrer uma outra luz, essa do sol

cruel e inclemente na turbação candente de um ardor que por igual é vida e

consumpção, géra e destrói.

Que destino adverso as amedronta para fugirem pálidas, vencidas, as

sombras carinhosas do luar em que a nossa alma e a terra redimidas

cantavam confiadas e felizes, como se estranha fé as afoitasse a dizerem

segredos do seu seio, como se a sombra feita de ternura as confessasse e

ouvisse cautelosa e lhes rasgasse os véus do seu mistério?!... Porque

passaram, assim breves e inquietas, e tão pouco duraram beatitudes da

salutar brandura que descerra os mundos só de paz e ventura, onde no

extasi se dissipam mágoas, e a culpa se apagou, e não existem nem mentira

ou traição ou a fraqueza?!... Para mais queridas serem e desejadas, foram

curtas, aladas como fumo, essas graças celestes do luar que em seus tronos

pozeram as quimeras, resplendentes, coroadas nas alturas?!...

Embora!... Não fugiram, porém, tão apressadas que eu, preso da saudade, as

não seguisse e, seu escravo, não as sirva e ame, fiel, obediente, em seu

infindo rasto e eterna gloria.

Salmos do prisioneiro · 第 30 / 34 题