Não tarda a madrugada. E o campanário, e a igreja, e a fortaleza da
muralha impassivel que resguarda as eiras, as moradas e a deveza, se o
ímpeto das águas ameaça, quando em torrente desce das montanhas, geladas,
no inverno; e o rio, e os amieiros, e os palácios, e a ponte, sombriamente
altiva e orgulhosa:--sonham encantos ao luar cadente que em derradeiro
afago ainda os protege no silencio da sua mansidão. A rocha e a onda, que
eram inimigas e porfiádos combates combatiam pertinázmente disputando o
chão, confundiram-se, adorando o luar; e na mesma doçura adormeceram,
dormindo o mesmo sôno, desarmadas, ambas humildes, dóceis e sujeitas à
magia divina desse bemdito alvôr que as alumia. E o coração, dorido dos
anseios que o agitam, prostrado dos enlevos e das penas que lhe são
cadafalso e o seu consolo, sustento, pão e cálice e o algôz, a cicuta
mortal e a perdição, acalmou-se, como o rochedo e a onda, em seu lutar; à
luz piedosa do luar se entrega e em seus sonhos lhe roga e lhe implora que
benignamente suavise, e lhe abrande, embalsame e lhe receba esperanças e
tormentos, e os vôos da ilusão e a loucura de engânos que só querem
renascer renovados e crescidos em muitos mais enganos e mais loucos.
Mas vem a despertá-los a manhã. Além, onde as estrelas desmaiaram, o ceu
pressente a aurora e o seu rubôr. E rochêdos, e igreja, e amieiros, e
muros, e palácios, a criação dos deuses e a dos homens, e o próprio
coração que Deus habita, acordam para sofrer uma outra luz, essa do sol
cruel e inclemente na turbação candente de um ardor que por igual é vida e
consumpção, géra e destrói.
Que destino adverso as amedronta para fugirem pálidas, vencidas, as
sombras carinhosas do luar em que a nossa alma e a terra redimidas
cantavam confiadas e felizes, como se estranha fé as afoitasse a dizerem
segredos do seu seio, como se a sombra feita de ternura as confessasse e
ouvisse cautelosa e lhes rasgasse os véus do seu mistério?!... Porque
passaram, assim breves e inquietas, e tão pouco duraram beatitudes da
salutar brandura que descerra os mundos só de paz e ventura, onde no
extasi se dissipam mágoas, e a culpa se apagou, e não existem nem mentira
ou traição ou a fraqueza?!... Para mais queridas serem e desejadas, foram
curtas, aladas como fumo, essas graças celestes do luar que em seus tronos
pozeram as quimeras, resplendentes, coroadas nas alturas?!...
Embora!... Não fugiram, porém, tão apressadas que eu, preso da saudade, as
não seguisse e, seu escravo, não as sirva e ame, fiel, obediente, em seu
infindo rasto e eterna gloria.