XXIII

Na frieza alvacenta da manhã, quando, lentos, os montes, ressurgindo da

confusão da noite, de novo vinham a esculpirem na luz o seu orgulho,

sonhei que as horas do nascer da aurora, essas de redenção, eram contadas

em torres de mármore, e, compassadamente, instante a instante, as

apontavam, caminhando sempre, os ponteiros doirados de um relógio,

fulgentes, repetindo no fulvo scintilar o ardor dos astros. De espaço a

espaço, como anunciando um mandado solene inalterável, o bronze da torre

modulava, em seu cavo bradar, pausadamente, aquelas mesmas horas tão

ligeiras que os ponteiros doirados lhes diziam.

Assim, altivamente ufana, a vaidade do mundo pretendia reflectir a glória

dos céus e adorá-la, traduzindo-a nos bens da terra que mais caros tinha.

Porventura pensou, enlouquecida, igualar em seus falsos tesouros

perecíveis a emanação divina da beleza que nas alturas passa e não

consente em ser cativa e serva da nossa arte.

Porêm, quando acordei, uma doçura estranha baniu essa ilusão que era o meu

sonho, e perseguido e vão o dissipou. Quando a ave cantou a despertar o

cavador ainda adormecido nas minguadas palhas da choupana, quando a sua

ternura, reanimando-os, exaltou da obscura nudez que os oprimia os prados

e as selvas, e as aguas, e os rochedos, e os orvalhos, fôram pobreza

estreme e pequenina aquêles sonhos doídos da grandeza fundada em ouro puro

e claro mármore; como caíram as torres altas que ela edificou, de todo se

calaram humilhados os écos magestosos do bronze que lhe apregoavam o breve

império. Efémera quiméra, afugentou-a o místico poder que na ave incarnou

e a fez arauto e missionário sobrehumano.

Cai o palácio, a fortaleza, o templo; desfaz-se em pó e é nada o diamante.

Não renascem se o vento os arrastou. Mas a ave, essa de peito em peito

volta e revive, a cantar perenamente a madrugada, ou na terra se ostentem

monumentos, ou no chão se esboroem as ruinas. Não sei que eternidade a faz

eterna onde foi fraca, tenue e transitória a fôrça mais robusta, quanto o

homem imagina duradouro. Mistério da candura dominando toda a mortal

jactância da soberba, foi a maior grandeza a singeleza e mais pôde em

nossa alma que o fausto da volupia, ainda mesmo quando impulsos sagrados

transviados ofereceram à glória de Deus e ao amor da luz toda a fortuna

que é a paixão e pasto da avareza.

Erradamente, sonhei, louvei e amei o sonho passageiro que me contava as

horas da existência no mármore e no ouro. Mas outro sonho, e êsse foi

constante, e fiel e seguro não mentiu, êsse me desprendeu do pérfido

fulgor que me enlevava, êsse me libertou para arrebatar-me àquêles reinos

de infinda pureza em que as horas da vida são contadas pelo cantar ingénuo

e pela ave.

E então, outras jámais contei, essas sómente ouvi, louvei e amei

humildemente.

Salmos do prisioneiro · 第 29 / 34 题