Na frieza alvacenta da manhã, quando, lentos, os montes, ressurgindo da
confusão da noite, de novo vinham a esculpirem na luz o seu orgulho,
sonhei que as horas do nascer da aurora, essas de redenção, eram contadas
em torres de mármore, e, compassadamente, instante a instante, as
apontavam, caminhando sempre, os ponteiros doirados de um relógio,
fulgentes, repetindo no fulvo scintilar o ardor dos astros. De espaço a
espaço, como anunciando um mandado solene inalterável, o bronze da torre
modulava, em seu cavo bradar, pausadamente, aquelas mesmas horas tão
ligeiras que os ponteiros doirados lhes diziam.
Assim, altivamente ufana, a vaidade do mundo pretendia reflectir a glória
dos céus e adorá-la, traduzindo-a nos bens da terra que mais caros tinha.
Porventura pensou, enlouquecida, igualar em seus falsos tesouros
perecíveis a emanação divina da beleza que nas alturas passa e não
consente em ser cativa e serva da nossa arte.
Porêm, quando acordei, uma doçura estranha baniu essa ilusão que era o meu
sonho, e perseguido e vão o dissipou. Quando a ave cantou a despertar o
cavador ainda adormecido nas minguadas palhas da choupana, quando a sua
ternura, reanimando-os, exaltou da obscura nudez que os oprimia os prados
e as selvas, e as aguas, e os rochedos, e os orvalhos, fôram pobreza
estreme e pequenina aquêles sonhos doídos da grandeza fundada em ouro puro
e claro mármore; como caíram as torres altas que ela edificou, de todo se
calaram humilhados os écos magestosos do bronze que lhe apregoavam o breve
império. Efémera quiméra, afugentou-a o místico poder que na ave incarnou
e a fez arauto e missionário sobrehumano.
Cai o palácio, a fortaleza, o templo; desfaz-se em pó e é nada o diamante.
Não renascem se o vento os arrastou. Mas a ave, essa de peito em peito
volta e revive, a cantar perenamente a madrugada, ou na terra se ostentem
monumentos, ou no chão se esboroem as ruinas. Não sei que eternidade a faz
eterna onde foi fraca, tenue e transitória a fôrça mais robusta, quanto o
homem imagina duradouro. Mistério da candura dominando toda a mortal
jactância da soberba, foi a maior grandeza a singeleza e mais pôde em
nossa alma que o fausto da volupia, ainda mesmo quando impulsos sagrados
transviados ofereceram à glória de Deus e ao amor da luz toda a fortuna
que é a paixão e pasto da avareza.
Erradamente, sonhei, louvei e amei o sonho passageiro que me contava as
horas da existência no mármore e no ouro. Mas outro sonho, e êsse foi
constante, e fiel e seguro não mentiu, êsse me desprendeu do pérfido
fulgor que me enlevava, êsse me libertou para arrebatar-me àquêles reinos
de infinda pureza em que as horas da vida são contadas pelo cantar ingénuo
e pela ave.
E então, outras jámais contei, essas sómente ouvi, louvei e amei
humildemente.