Aquelle puro espirito encastoado;

No delicado corpo que vos vieis,

Sò consentia ser de vòs amado,

Porque o divino amor lhe consentieis;

E pois que Deos aos Ceos o tinha dado,

E vòs só do emprestado possueis,

Porque haveis de chorar de ver que Deos,

Da terra quer levar o que he dos Ceos?

IV.

Tanto o amador melhor padece,

O trabalho por mais duro que seja,

Quanto delle o pezar mais enriquece,

A cousa que mais ama, e mais deseja.

Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse,

Naõ quer que a terra indigna mais a veja,

Possa mais o seu bem para alegrar-vos,

Do que pòde esse mal para cançar-vos.

V.

He tençaõ do amor à razaõ dada,

Que os bens que busca ainda em seu perigo,

Mais saõ para os dar à cousa amada,

Que naõ para logralos sò comsigo:

Pois se estes a que esta alma foy chamada,

Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo,

Folgay de carecer da parte vossa,

Porque ella a parte, e o todo lograr possa.

VI.

Quem vive no terrestre Purgatorio,

Vive para ir gozar de hum bem eterno,

E em quanto tinheis nella o transitorio;

Em tanto naõ tinha ella o sempiterno,

Pois se he ponto de fé, claro, e notorio,

Que acaba o bem antigo, e o bem moderno,

Se lhe querieis bem, num bem está posta,

No qual todos os bens possue, e gosta.

VII.

Mas vòs a quem a dor custa mais caro,

Direis do damno della atormentado,

Que naõ chorais da esposa o rico amparo

Mas que chorais a vòs desamparado.

Porèm sabendo Deos que era muy raro,

Poder viver sem amar, e ser amado,

Amar sua belleza vos convida,

E quer que vendo a morte, ameis a vida.

VIII.

Porque este autor de toda a formosura,

Movido da feição, não de rigor,

Vos tira dante os olhos a pintura,

Porque ponhais os olhos no pintor;

O casto amor que tinheis foy figura,

Do real, verdadeiro, e puro amor,

Que se Deos vos tirou cousa tào bella,

Foy por vos dar a si que o he mais que ella.

IX.

As cousas que da terra vaõ passando,

Que nòs andamos nella pretendendo,

Naõ saõ para os lograr nellas parando,

Mas para Deos por ellas irmos vendo;

Assim esta que vos hieis amando,

Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo,

Que no humano amor vos enssayasseis,

Porque o divino amor representasseis.

OITAVAS

_Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a

liberdade de seu marido._

I.

He muito natural de quem carece,

Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza,

Louvalo a quem o tem, porque conhece,

Que louvado se ama, estima, e preza:

E como bens mais altos appetece,

Toma de mòr estado, mòr empreza,

O bem que desprezou esse festeja,

E o bem que naõ alcança, esse deseja.

II.

Na corte em que morais louvais a fonte,

O monte, a solidaõ, bosque cerrado,

Da qual muito dizeis do prado, e monte,

Mas muyto mais se vè no monte, e prado;

Por mais que ninguem diga, e mais que cõte

Naõ fica ditto nada, nem contado,

Porque he o que se diz morta pintura,

E o que se vè real viva figura.

III.

Eu cà no monte moro, e naõ com elle,

Vòs na corte morais, mas he com ella,

Quem logra o monte logra o doce delle,

Quem sofre a corte sofre o agro della:

Diga a corte do monte o bem que ha nelle,

Diga o monte da corte o mal que ha nella,

Porque he regra direita de amizade,

Que pague huma verdade outra verdade.

IV.

Ahi por dar calor a huma esperança,

Que com dadivas grandes só aquenta,

Se perde o que se tem, e naõ se alcança,

Se naõ o que molesta, e que atormenta;

Ahi se peza tudo em tal balança,

Que na maõ desigual só se sustenta,

E com taõ maõ fiel que o mais pezado,

Contra direito tràs mais levantado.

V.

De palavras se faz rica almoeda,

Que deixaõ pobres sempre os compradores,

Onde comprais cõ tempo, e cõ a moeda,

As esperanças vãs aos vendedores;

Gastais a vida, o pam, o pano, e a seda,

Desejos só vos daõ como penhores,

Que cada qual por grande preço empenha,

A quem, ou gasta o tempo, ou desempenha.

VI.

Ahi onde repousa a esperança,

A sombra da infamia, e da deshonra,

Onde a vosso pezar anda a privança

Taõ alta que os pès tras sobre a honra:

Ahi onde se tira o ferro à lança,

Que seu dono levanta, louva, e honra,

Onde os merecimentos se escurecem,

Com fantasticos lumes, que apparecem.

VII.

O fim da pertençaõ he duvidoso,

E o trabalho della sempre he certo,

Mas se o mal vos afasta, que he penoso,

O apparente bem chegarvos perto;

O dezejo do fim traz-vos mimoso,

Molesta-vos porèm o vello incerto,

E se sabe a proveito o falso engano,

Depois de experimentado sabe a damno.

VIII.

Ahi onde se vem com liberdade

Andar todos os doudos desatados,

Aquem, ou a sciencia, ou dignidade,

Por mal de quem os vè tras embuçados,

Detras da vã mentira anda a verdade,

Para poder falar com os mais privados,

Ahi vos he pezado, mas forçoso,

Rogar, fingir, temer, e estar queixoso.

IX.

Rogar a peito duro, e empedernido,

Que só com metais ricos se quebranta,

Em que lançais algum, mas taõ perdido,

Que nem pode ser situ, nem ser manta,

Rogar por termo humilde, mas fingido,

Que vos abate avòs, outrem levanta,

Rogo que faz Senhor, ao que he ouvinte,

E ao que roga faz pobre pedinte.

X.

Fingir, andando sempre atormentado,

Para o alheyo bem grande alvoroço,

Fingir que desejais de ser creado

De quem pudera ser creado vosso:

Fingir alegre rostro, a rostro irado,

Que vos desejais ver sem seu pescoço,

Fingir palavras vãs tintas com cores,

Que sendo ellas de fel, pareçaõ amores.

XI.

Temer que seja falsa a esperança;

Que tanto tarda, cansa, e tanto custa,

Temer que os bens, que a fama vos alcansa,

Vos negue a Corte ingrata, dura injusta,

Temer que este temor que tanto cança,

Seja da esperança a paga justa,

Que sejaõ os cortesaõs prometimentos

Sem nenhuma largura comprimentos.

XII.

Estar queixoso de ver quanto alcançaraõ,

Os que parios em paz nunca correraõ,

Queixoso de ver bens que transbordaraõ,

Fóra dos que estes bens naõ mereceraõ,

Queixoso de ver que inda naõ pagaraõ,

Serviços que fiados se fizeraõ

Queixoso porque o mào sem seu trabalho,

Faz bigorna do bom, faz de si malho.

XIII.

A terra em que repouso, em que descanso,

Na qual livres cuidados apascento

Cento me dà por hum, que nella lanço,

A corte davos hum, lançais-lhe cento,

Compra-se cà com gosto o que he descanso;

Comprais lá cõ desgosto o que he tormento,

O bem que tem o monte nunca o nega,

O mal que tem a corte, sempre chega.

XIV.

Depois que o mundo vão experimẽtastes,

Depois de ser por sorte despachado,

Me diz que vos deraõ, e o que gastastes,

E achais que o que trazeis que foy comprado,

Sabeis quã caro em fim tudo comprastes

Na corte, que vos tem desenganado,

Na qual quando as merces saõ muito largas,

Despachaõ só com cargos, que saõ cargas.

OITAVAS

_Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro

de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir,

segundo as pennas, que à acompanhava._

I.

Ficay esteriles campos, calvos montes,

Incultas serras, tristes arvoredos,

Ribeiras seccas, peçonhentas fontes,

Medonhos valles, asperos rochedos;

Ficai mal assombrados orizontes,

Parados rios, desiguaes penedos,

Que jà me naõ vereis como me vistes,

Inda que o ser mudeis de serdes tristes.

II.

Meus sentidos trouxestes jà fechados,

Que agora sem vos ver já trago abertos,

De ouro, e de azul vestistes meus cuidados,

Mas agora os vereis de dò cubertos;

Se os vistes andar sempre acompanhados,

Metidos os vereis pelos desertos,

Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ

E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.

III.

Sempre senti pezar, nunca alegria,

Nunca em vòs descançei, sempre cançava,

O bem que achava em vòs, de mim fugia,

Mas se me achava o mal, em mim parava:

A treição me dava, e me feria

Se delle por diante me escuzava,

Notai deste meu mal este segredo,

Que sendo matador, he falso, e tredo.

IV.

Em vós todos os bens vi contrafeitos,

Cujas internas formas eraõ dores,

Em vós topey pastores lobos feitos,

Porém ainda em trajos de pastores;

A estes procureis, e vãos respeitos,

Dos bens alheyos vi destruidores,

Gostando só do mal que entaõ causavaõ,

E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.

V.

Mais feroces, que lobos, pois que querem

Sustentar-se dos males, que causarem:

Que os lobos mataõ gado por comerem,

Mas estes só matavaõ por matarem;

Sómente se recream em offenderem,

Os que mais suas leys contrariarem,

Porque a contradicçaõ faz inimigos

Daquelles, que antes della foraõ amigos.

VI.

Nenhum seu proprio estado já respeita

E trazem nas aldeas em que moraõ

Rebuços de virtude contrafeita,

E rostos naturaes do mal que adoraõ:

Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita,

E em todas por seu mal sempre peòram,

Taõ amigos do bem, que vivo o enterram,

E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.

VII.

De Astioge se diz que aborrecia

A Cyro moço tenro, e delicado,

A quem morte cruel traçava, e ordia;

Porque era pretensor do seu Reynado;

Porém o odio destes naõ se cria,

Por enveja, ou temor demasiado,

Sò com odio do bem, o bem perseguem,

Por seguirem o mal, que todos seguem.

VIII.

Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo,

Quem me importuna, turba, e desordena,

Se a cegueira que tem he seu castigo,

E sua mà vontade he sua pena;

Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo,

Se Deos assim o traça, assim ordena

Que tudo quanto ha, tenha adversario,

E seja o homem de si cruel contrario.

IX.

Saõ estes desliaes adoradores

Da propria vontade cega, e dura,

Que fazem de seus vicios seus senhores,

E só para seu mal mostraõ brandura,

Das sempiternas leys contraditores,

Trazendo destas leys a vestidura,

Amadores do mal, e da mentira,

Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.

X.

Vestem a perversaõ com sua nobreza,

Querem fazer da noite claro dia,

Sua maldade cobrem, com a riqueza,

Rebução com poder a tyrannia:

Disfarçaõ sua furia em fortaleza,

A vontade cruel julgaõ por pia,

Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ,

E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.

XI.

Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ

A seus filhos mataraõ por peccarem,

Mas estes mais crueis que os que passaraõ

Querem-lhos inventar para os matarem;

Os bens dignos de premio nunca olharaõ,

Sò vem os males para os castigarem,

E o que he furia cruel digna de espanto,

Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.

XII.

Falo com reprovados, que abterno

Foraõ por culpa sua condemnados,

Ao fogo abrazador do escuro inferno,

Sepulchro dos que jà saõ reprovados;

Juizo foy divino, e sempiterno,

Que os juizos humanos traz cançados,

Que vivaõ de mistura os escolhidos,

Com os que se haõ de perder, e já perdidos.

XIII.

Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo

Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem,

E póde vir a ser que os que defendo

Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem,

Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo

Senaõ segundo as obras que aparecem:

Porèm a graça de huns naõ he segura,

E nem a culpa de outros sempre dura.

XIV.

O Principe das trevas naõ pretende

Com todos seus vassalos preseguirnos?

Naõ nos deseja mal, naõ nos offende?

E naõ estuda sempre em destruirnos?

Naõ temos nòs a Deos que nos defende,

Se elle quer offendernos, e oprimirnos?

Se nòs sem paixam nossa o desprezamos,

Porque com seus ministros nos cançamos?

XV.

Que ter amigos taes he sorte boa,

Pois saõ occasiões para a vitoria,

Artifices sutis da altiva coroa,

Que Deos costuma dar na eterna gloria;

Naõ quero que me cause, ou que me doa,

Trazelos como trago na memoria,

Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina,

Saõ meyos de mayor graça divina.

XVI.

Quem nunca aborreceo o ferro agudo

Com que o barbeyro destro dà a sangria,

Se para o mal que vem serve de escudo,

Lançando à força o mal que havia:

Quem trata mal o instrumento tudo,

Que dente lhe arrancou, que lhe dohia?

Amem-se pois amigos que daõ pena,

Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.

XVII.

Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem,

Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ,

Com os males com que os justos enriquecẽ,

Que exercitaõ no bem quando maltrataõ,

A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem,

A si destruem, cansaõ, e disbarataõ,

A quem dos bens alheyos qualquer copia,

Serve de afronta, penna, e magoa propria.

XVIII.

O profeta David Deos defendia,

Do Rey perverso injusto que o buscava,

Saul por huma parte o perseguia,

E Deos por outra parte o sublimava,

Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria,

Destroe Deos o Rey que o invejava,

Quem sofre reyna, quem perdoa alcança,

He o odio do mào a espada, e a lança.

XIX.

Assim que està por ley jà definido,

A qual se tem no mundo publicado,

Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido,

E empena fica o bem quando he passado;

Hum passando deixou triste o sentido,

Outro durando o traz desenganado;

Porque hey de gastar bem que tanto damna,

E temer mal que tanto desengana.

XX.

Assim Deos o permitte, assim o ordena,

Que nesta vida triste, e transitoria,

Com gloria vaã se ganhe eterna pena,

Com pena temporal eterna gloria:

O gosto sempre a alma dezordena,

A penna faz a vida meritoria,

Quando se gosta o bem entaõ escurece,

Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece.

SONETO.

Horas breves de meu contentamento,

Nunca me pareceo quando vos tinha

Que vos visse mudadas taõ azinha,

Em taõ compridos annos de tormento.

As minhas torres que fundei no vento,

O vento mas levou que mas sustinha,

Do mal que me ficou a culpa he minha,

Pois sobre cousas vãas fiz fundamẽto.

Amor com falsas mostras aparece,

Tudo possivel faz, tudo assegura,

Mas logo no melhor desaparece,

Ó grande mal, estranha desventura,

Por hum breve prazer que desfalece,

Aventurar hum bem que sempre dura.

OITAVAS

_Que fes a mudança do Mundo no espelho de seu esposo, sobre que

ponderou a variedade delle segundo o discurso, com que glosou o Soneto

186. das Rimas do Principe dos Poetas o Grande Luis de Camões, que fica

na pagina antecedente._

GLOZA I.

Agora q̃ meu mal trouxe a meu dãno

Mil annos se detẽ hũ duro inverno,

Que quẽ em hum sò momẽto acha hũ anno,

Hum anno lhe parece tempo eterno;

Assim por castigar meu cego engano,

Por quem jà me naõ rejo nem governo,

As horas mudaõ em annos de tormento,

Horas breves de meu contentamento.

II.

O gosto por algum tempo me destes,

Porque vindo o desgosto mais durasse,

Que se no falso bem me detivestes,

Foy por manchar o mal quando chegasse,

Logo me pareceo quando vistes,

Que nunca longos annos vos lograsse,

Mas que fosseis agora a penna minha,

Nunca me pareceo quando vos tinha.

III.

E com me parecer que vos detinheis,

O vosso vaõ soheyto me mostrava,

Ser taõ certa a mudança do que tinheis

Como a posse do bem que entaõ lograva:

Cuidey, ó horas breves, quando vinheis,

Que o tempo por algum tempo vos dava,

Mas nunca presumio esta alma minha,

Que vos visse mudadas taõ azinha.

IV.

Bem podes em breve tempo conhecer,

Que por discurso as cousas vay sabendo,

Que a brevidade occulta do prazer,

Da vaidade delle está nascendo;

Mas como a payxaõ tira o saber,

Naõ pude nesse tempo ir entendendo,

Que vos mudasse o vil contentamento,

Em taõ compridos annos de tormento.

V.

Naõ julga o vaõ juizo apaixonado,

Com segunda razaõ, alta, e profunda,

Que quando o fundamento vay errado,

Errado hade ficar quanto se funda;

Assim para ficar mais magoado,

E porque o erro meu mais se confunda,

Em vento resolveo meu fundamento,

As minhas torres, que fundei no vento.

VI.

Naõ pode ser constante a esperança,

Fundada sobre hum falso pensamento,

Porque a constante, e firme segurança

Procede de ser firme o fundamento:

Por isso vi taõ cedo esta mudança,

Porque as torres que fiz fundei no vento,

E como eu no vento as torres tinha,

O vento mas levou, que mas sostinha.

VII.

Culpa de meu perverso, e vaõ sentido,

Que vendo só mal huma sombra boa,

Mas estimou o mal pelo vestido,

Do que estimou o bem pela pessoa:

Mas posto que me veja hoje perdido,

Em penna que a razaõ tanto magóa,

Como buscar o bem sò a mim convinha,

Do mal que ficou a culpa he minha.

VIII.

Por culpa só morre, e padece,

Quem quer que as armas deu a seu amigo,

Bem mostra que seu mal naõ aborrece,

Quem deste mesmo mal ama o perigo;

Pois logo se a razaõ isto conhece,

Justo tormento foy, justo castigo,

Que tudo me levaste o leve vento,

Pois sobre cousas vãas fiz fundamento.

IX.

Sente o cego amador em seus amores,

A paga do serviço ser o engano,

Converterem-se os bens em puras dores,

Ser o proveito pouco, muito o damno;

Mentirosas lisonjas os louvores,

O fim de seu trabalho hum desengano,

Porém nestas verdades que conhece,

Amor com falsas mostras aparece.

X.

Tudo o que vê cruel, mostra amoroso,

Tudo o que he puro, mal finge bem puro,

Tudo o que certo he, faz duvidoso,

E tudo o que se vay, dà por seguro;

Tudo que doce he, diz que he penoso,

Tudo o que he manifesto, mostra escuro,

Tudo confunde amor, tudo mistura,

Tudo possivel faz, tudo assegura.

XI.

Mostra que pode dar contentamentos,

Aquelle que de taes mostras se fia,

E mostra que he remedio de tormentos,

Instrumento do bem, e da alegria;

Mostra que faz seguros fundamentos,

E que leva segura, e recta via,

Mostra que a vida toda permanece,

Mas logo no melhor desaparece.

XII.

Mas ó razaõ perversa, e infernal,

Pois tens a eleiçaõ taõ cega, e injusta,

Que queres dar hum bem que tanto val,

Por hum perverso mal, que tanto custa:

Que por iguaes teu bem, queiras teu mal,

E que aborreças tanto a vida justa?

Que ames mais que a vida a morte dura,

Ó grande mal, estranha desventura.

XIII.

Nesta alegria falsa, a qual eu douro,

Com minha razaõ torpe, e com meu erro,

Onde as promessas saõ de fino ouro,

E as dadivas saõ de duro ferro;

Trocava o rico preço, e o thesouro,

Que me levava à patria do desterro,

Trocava o eterno bem que permanece,

Por hum breve prazer que desfalece.

XIV.

Sò o torpe juizo, e insensato,

A quem verdades tais saõ odiosas,

Das cousas preza mais o aparato,

Do que preza, e ama as mesmas cousas;

Sò este a quem por falso jà naõ trato,

Pode por falsas mostras, mas fermosas,

Por huma breve, e vãa desventura,

Aventura hum bem que sempre dura.

OITAVAS

_Que fez dirigidas a sua magoa, na consideraçaõ do discurso

antecedente; e juntamente mostrando o quanto perturbado tinha com

pennas o seu coraçaõ sobre que glosou o Mote seguinte._

_Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra._

GLOZA I.

Naõ pode ser a chama quente, e fria,

Na tempestade estar o ar sereno,

Na noyte escura verse o claro dia,

O fogo abrazador sentir-se ameno,

Acharse na tristeza à alegria,

E poder ser mezinha, o que he veneno,

Naõ se pòde ajuntar o ceo com a terra,

_Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.

II.

Naõ se acha pelo mar caminho aberto,

A Lua naõ se vè nunca constante,

Nem pode o que he desordem ser concerto,

O preto, o branco ser, hum mesmo instante;

Na incerteza acharse o tempo certo,

Nem ser hum mesmo sabio, e ignorante,

Ninguem na patria fica, e se desterra,

_Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.

III.

Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno,

Ninguem em seu tormento, tem sua gloria

Em seu proveito pode achar seu damno,

E sua destruiçaõ sua victoria,

Naõ mora o desengano, no engano,

Naõ he a vida eterna transitoria,

Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra,

_Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.

IV.

Naõ pòde ser prudente o vicioso,

Sollicito, sagaz, o descuidado,

Nem manso pode ser o furioso,

Nem pode estar contente o magoado,

Naõ he o temerario temeroso,

Nem he ditoso o mal afortunado,

Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra,

_Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.

V.

Naõ pode o que he doença ser saude,

O que he prodigo ser tambem avaro,

Naõ pode ser peccado o que he virtude,

O que custa barato, custar caro;

O engenhoso ser grosseiro, e rude,

Aquillo que he commum puder ser raro,

Naõ resplandece o ouro se se enterra,

_Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.

VI.

Naõ he resplandecente o abysmo escuro,

Naõ pode ser traiçaõ, o que he lealdade,

O puro bem, naõ se acha no mal puro,

A mentira naõ pode ser verdade;

O fundamento vaõ naõ he seguro,

Nem pode ser segura a falsidade,

E assim como naõ cabe o Ceo na terra,

_Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.

OITAVAS

_Que ultimamente fez com grande espirito, quando se vio dezenganada do

mundo, e conheceo a sua variedade sobre que glosou o Mote seguinte._

_Salid sin duelo lagrimas corriendo._

GLOZA I.

Ay Dios, ay alma mia, ay dura suerte,

Ay triste como estoy tan affligida,

Pues que pude peccando dar la muerte,

A quien no puedo dar llorando vida;

Fue ser mi culpa tal, tanta dura, y fuerte,

Que solo de Dios, es bien entendida,

Y pues es tal mi mal que no lo entiendo,

_Salid sin duelo lagrimas corriendo_.

II.

Quien me diera, mi Dios, pues te offendi,

Pues con tanto plazer te he offendido,

Que fuera igual a el mal que cometi

El pezar de tenerlo cometido:

Quien pudiera, Senhor, vengarte en mi,

Por todo quanto bien he destruido,

Mas si llorando el mal en parte imiendo,

_Salid sin duelo lagrimas corriendo_.

III.

Sin ti quizo el mal mi coraçon,

Pero contigo del es levantado,

Pues que para poder darme el perdon,

Me dás arrepentirme del peccado;

Abage-se al profundo la razon,

Pues a Dios de lo alto ha derribado,

Venid suspiros ya, venid saliendo,

_Salid sin duelo lagrimas corriendo_.

IV.

Menos dolor tuviera en la memoria

Del mal, que a tantos males me condena

Si me quitara a mi tan dulce gloria,

Y no te diera a ti tan dura pena,

Mas pues mi culpa yá es tan notoria,

Sea notorio el llanto, que ella ordena,

Y por mostrar que mal me està doliendo,

_Salid sin duelo lagrimas corriendo_.

V.

Holgara ò Dias remedio del engaño,

Que en camino te puzo taõ estrecho

Que ansi como del mal fue tuyo el daño,

Pudiera ser del bien tuyo el provecho,

Pero teniendo de esto el desengaño

Mirando en tu persona abierto el pecho,

Con voz llorosa, y triste ando diziendo,

_Salid sin duelo lagrimas corriendo_.

VI.

Vi la causa del mal quize agradarla,

Ya veo la del bien quiero sentirla,

Miré la falcedad, quize abraçarla,

Yà miro la verdad quiero seguirla;

Si para tanto mal fue desecharla,

Por mucho mayor bien era admitirla,

Y en quanto su ausencia estoy sintiendo,

_Salid sin duelo lagrimas corriendo_.

~FIM~

_da Terceira, e ultima parte_.

[Ilustração]

VIRTUDES, E VICIOS,

_Feitas pela mesma Autora à instancia de huma Religiosa devota, as

quaes virtudes augmentaõ as Religoens para melhor servir a Deos Nosso

Senhor sendo-lhe contrarios os vicios que as destroe._

_Humildade._

Sempre nos baixos me encerra

A luz que a Deos me prendeo,

Mas quanto deço na terra

Tanto me sobem no Ceo.

_Liberalidade._

Cubro o bom, cubro o iniquo

Tudo comigo se cobre,

Comigo he rico, o que he pobre

Sem mim he pobre, o que he rico.

_Castidade._

Quem contra mim nunca erra

Quem comigo a si venceo,

Fica estrangeiro na terra,

Faz-se natural do Ceo.

_Paciencia._

Quem por meu respeito cansa

Sofrendo o mal que parece,

Tudo vence, e tudo alcança,

Tudo tem, tudo merece.

_Temperança._

Sou temperada virtude

Que todo o corpo governa,

Dou-lhe temporal saude

A alma saude eterna.

_Charidade_.

Sou amada, e amadora

Do mais perverso louvada,

Das creaturas, criada,

Mas das virtudes senhora.

_Diligencia._

Quem nesta vida me tem

Logra o bem acrescentado,

Que a diligencia no bem,

Faz que o bem seja dobrado.

_Prudencia._

Sou prudente em toda a hora,

Cousa com que sou contente;

Porque em quanto sou prudente

Naõ posso ser peccadora.

_Silencio._

Dẽtro em mim mesmo me encerro

Tudo ouço, e tudo callo;

Porque tanto menos erro,

Quanto menos vezes falo.

_Fè._

Sou fè que da alma desterra

O mal, que a escureço,

Estando presa na terra

Subo mil vezes ao Ceo.

_Esperança._

Espero hum bem immortal

Donde os bens todos me vem;

Porque a esperança do bem,

A doça a penna do mal.

_Penitencia._

Sou a virtude que tem

Contra o mal grande potencia,

Sou a feliz penitencia,

Que converte o mal em bem.

_Oração._

Posto que grosseira, e rude,

Sempre oro em meu coração;

Porque só nesta Oração,

Se a prende toda a virtude.

_Perseverança._

Persevero sem mudança,

Insisto sem me mover,

Pois tudo pode vencer

A longa perseverança.

_Mansidaõ._

Mansa sou, e assim alcanço,

Quanto prometem os Ceos,

Que o que na vida he mais manso,

He mais semelhante a Deos.

_Fortaleza._

Resistir he meu officio,

Tudo venço com firmeza,

Porque a firme fortaleza,

Vence, e mata todo o vicio.

_Verdade._

Sempre acho quem me louve

Por ser natural dos Ceos,

A Deos ouve, quem me ouve,

Quem me busca, busca a Deos.

_Misericordia._

Sou das virtudes concordia,

Estou na terra, estou nos Ceos:

Sou huma cousa como Deos,

Pois que sou misericordia.

_Abstinencia._

Tenho o rosto feo, e fero

Mas sou de summa excellencia,

Sou o custo da abstinencia,

Que os apetites tempero.

_Desprezo do mundo._

O mundo, ou o immundo

Deixo, como reyno alheyo,

Pois com desprezo do mundo

Todo o mundo senhoreo.

_Constancia._

Sou forte firme, e prestante,

Tenho a Deos, e Deos me tem,

Quem no bem he taõ constante,

Bem he que tenha tal bem.

_Justiça._

A Deos tenho por farol

Nunca me cega a cubiça,

Senaõ sou Sol de Justiça,

Sou justiça mais que o sol.

_Pobreza._

Ninguem por mim se governa,

Antes sou mui perseguida,

Sendo miseria da vida,

Posso dar a vida eterna.

_Mortificação._

Sou das virtudes hum cofre

Porque a todas faço a cama,

Se persigo a quem me sofre,

Guarlado-o a quem me ama.

_Paz da alma._

Quem me logra cà na terra,

Quem me tem do Ceo me traz,

Na terra me sinto em paz,

Por mayor que seja a guerra.

_Modestia._

Saudades de D. Ignez de Castro · 第 2 / 3 段