Que pesáres, que penas, que rigores

SAUDADES

DE

D. IGNEZ

DE CASTRO.

SAUDADES

DE

D. IGNEZ

DE CASTRO.

PELO LICENCIADO

MANOEL DE AZEVEDO

Conimbricense.

_OFFERECIDA AO SENHOR_

GUILHERME JOAQUIM

PAES VELHO.

_PELO PADRE_

JOÃO DE GOUVEA

Prisbitero do habito de S. Pedro.

[Ilustração]

LISBOA:

Na Officina JOAQUINIANNA DA MUSICA DED.

Bernardo Fernandes Gayo, Morador na rua das Mudas.

M. DCC. XLV.

_Com todas as licenças necessarias._

[Ilustração]

DEDICATORIA

AO SENHOR

GUILHERME JOAQUIM

PAES VELHO.

_Justo era, que huma taõ excellente obra procurasse hum assyllo taõ

excelso. Publica-se por meyo da estanpa ao Mundo as Saudades de D.

Ignez de Castro, Rainha taõ infeliz, como formoza, e vendo eu que he

perigozo entregar nas mãos do vulgo cousa, para cuja seja materia a

sua distracçaõ, logo me occoreo, que a offerta só era conveniente em

V. M. porque sey, que como V. M. he dado às letras, naõ deyxarà de

amparar hum milagre da Poesia, e juntamente escurecer o alvedrio de hum

Zoylo. Materia difficel seria o querer expór ao publico a Genelogia de

V. M. que como conhecida naõ carece de explicação, mas só lembro a V.

M. que o sangue, que lhe pulsa pelas veyas, mais logra de soberano,

que de nobre. Dedicar o presente papel a V. M. he como divida,

porque confórme, diz Seneca, só se conhecem as remuneraçoens pelo

offerecimento, por essa causa quando eu tenho recebido taõ dilatados

favores, porque razaõ naõ heyde de manifestar o quanto sou devedor a

V. M. Aceyte pois o presente obsequio como divida, porque só assim

lograrey eu a ventura de acertar quando me lembro da sua generosidade

para o restituir. A pessoa de V. M. guarde Deos pelos annos, que todos

os seus amigos dezejamos._

Amigo, e Venerador de V. M.

O P. Joaõ de Gouvea

[Ilustração]

SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO.

I.

Era na meya idade, a q̃ chegava

Em fraguas de Zafir o Sol, q̃ ardia,

e nas asas do tẽpo, q̃ passava,

Icaro de seus rayos era o dia

Quando pois com as chammas se abrasava,

Que morrer incendîdo entaõ queria,

Sendo por renascer com novo alarde,

Em cinzas de rubim Féniz da tarde.

II.

Na lisongeira planta se enlaçava

Cortez o vento com gentil porfia,

E nos jardins a Rosa, que encalmava,

Em berços de esmeralda adormecia:

A simples avesinha se banhava

No murmúreo correr da fonte fria,

Renovando na vista o doce alento,

Narciso nos crystaes, Orfêo no vento,

III.

Mas Ignez só, que por penar vivia,

Naufragava em soluços cada instante,

Ignez, aquella Ignez, que amor fazia

Por lhe dobrar as magoas mais constante:

Aquella, em cujas graças competia

Ser formosa, discreta, e ser amante,

Em cujas prendas naõ tiveraõ parte

Artificios da industria, invençoẽs da arte.

IV.

A que nos dotes da alma taõ possante,

Discreta, grave, terna, e generosa,

Que da mesma bellesa sendo Atlante,

Tinha por menór prenda o ser formosa:

Nos donaires do talhe taõ galante,

Nos alinhos da graça taõ vistosa,

Que topando na culpa de Narciso,

Fora sem culpa seu discreto aviso.

V.

Mas qual o passarinho descuidado,

Lisonja mais gentil da tenra idade,

Foy das maõs do menino aprisionado,

Que lhe roubou no laço a liberdade:

Que quando delle mais galanteado,

Exprimenta no mimo a crueldade:

E quando a côr das pennas lhe contenta,

Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta.

VI.

Tal Ignez na manhaã dos ternos annos,

Nas primeyras Auróras da esperança,

Deo nos laços de amor doces enganos,

Do vendádo rapaz linda vingança;

Mas os golpes da Parca deshumanos

A belleza por flor em flor alcança,

Exprimentou na sempre amarga sorte

Por maõs do Deos do amor armas da morte.

VII.

Eraõ gentil emprego a seus cuidados

As finesas de Pedro, que a beldade

Nelle soube trazer aprisionados

Sceptro, corôa, vida, e liberdade:

Entre ambos tinha amor já taõ ligados

Os soltos alvedrîos da vontade,

Que foy nelles baldado, e foy perdido

Nascer Antéros por crescer Cupido.

VIII.

Mas oh tyranna dor amor inventa!

Forçosa foy de Pedro a dura ausencia,

Atropos da alma, que da pena isenta,

Nella sabe sentir mortal violencia:

Como preso, partir-se Pedro intenta,

E sente na alma, Ignez, nova inclemencia,

Que quer a sorte, pois amor ordêna,

Onde naõ chega a morte, offenda a pena.

IX.

Quantas vezes, Ignez, no pensamento

Este desár notaste a teus favores?

Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento

Os viste, e vês agora, e verás flores:

Tanto nas affeiçoens, gosto avarento,

Este pesár sentiste em teus amores,

Que naõ posso dizer, que neste emprego

Estavas, linda Ignez, posta em socego.

X.

Entre os braços de Pedro, ardẽte Fragoa,

Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido,

Que multiplîca a dôr, e dobra a magoa

Lograr presente o bem, que he já perdido:

Dos olhos sólta dous chuveiros de agoa,

Oceànos de neve, onde Cupîdo

Quiz da belleza já colhendo as velas,

Chegasse a tempestade até as estrellas.

XI.

Qual em berços de purpura vistosa,

Delicias da manhaã, da tarde empresa,

Dos melindres de flor enferma a Rosa,

Desmayado o verdôr, murcha a lindesa;

Pois a que foy de Abril pompa lustrosa,

Livro do amor, emblema da bellesa,

Perde a graça, por vêr que o Sol lhe talha

Do mesmo carmesim gala, e mortalha.

XII.

Tal do fogo de amor na immensa calma

A côr Ignez perdeo, que amor ordena,

Os desmayos, que tinha impressos na alma,

Trasladasse no rosto a viva pena:

Já despojo da dôr, da magoa palma,

Com respirar de flor, arde Açucena,

Exhála nova dôr ao pensamento,

Em saudosos ays o doce alento.

XIII.

Ay! cadûco prazer, diz lastimada,

Esperança de hum bem, doce tormento,

Ay! que por verde murchas apressada,

Primavéra do amor, da dor portento:

Ay! melindrosa flor agonizada,

Despojado Jasmim de qualquer vento,

Que quando nasce traz na mesma alvûra

Gala, mortalha, berço, e sepultura.

XIV.

Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira

Duas almas de hum peito, oh noite fria!

Oh noite, digo, porque a quem suspira,

Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia:

A bocca, de que hum _ay_, outro _ay_, retira,

Jà cansando, mais bayxo repetia,

Paray Senhor; mas hum soluço ardente

Suffóca o _par_, repete o _ay_ sómente.

XV.

Paray, torna a dizer, meu gosto amado,

Gloria desta alma, em quanto gloria tinha;

Mas ay alivio meu! ay meu cuidado!

Como podeis parar, se gloria minha!

Mas se destîna o Céo, e manda o Fado

Esta alma castigar, que amor mantinha,

Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene,

Mais almas tenha, porque assim mais pene.

XVI.

Mas naõ, que he contra amor esta porfia:

Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado:

Muitas almas naõ quero, que sería

Repartir o tormento a meu cuidado:

Mas se a pena permitte a companhia

Nesta ausencia cruel, oh triste Fado!

Antes que a dor ma roube da partida,

Levai-me, vida minha, a minha vida.

XVII.

Só com vosco, Senhor, irá segura,

Sem que mortal achaque lhe aconteça;

Porque talvez do Fado a sorte dura

Fóra deste meu peito a desconheça:

Nem poderá temer minha ventura,

Que sombra de pesar vos entristeça;

Pois farey no tormento mais esquivo

Correr por conta da alma o sensitivo.

XVIII.

Se só para viver na ley de amante

Forçosa seja a vida repetida;

Ay! Senhor, que naõ póde ser bastante

Para viver ausente huma só vida:

Porém se amor de vidas taõ possante,

Huma nos deo para ambos repartida,

Postoque a dôr entre ambos se accommóda,

Melhor vos partireis levando-a toda.

XIX.

Cá me fica outra vida, que naõ passa,

Com que padeça morte repetida,

Que quer amor tyranno, que renaça

Huma vida das cinzas de outra vida:

Que como taõ crueis penas me traça,

Como me traz em fogo convertida,

A acabar, outra Feniz, me condena,

Morrendo em cinzas, renascendo em pena.

XX.

Ah! quem cuidára, amor, que meus amores

Fossem fingidas sombras mentirosas?

Ah! quẽ cuidará, amor, que em teus favores

Fossem mais as espinhas, do que as Rosas?

Mas depois, que triunfo a teus ardores,

Foraõ de Marte as armas generosas;

Taõ guerreyro ficaste, ufano, e forte,

Que bem pódes matar a propria morte.

XXI.

Mas pois forçosamente me condena,

A que vos ausenteis, ah tyrannîa!

Deyxai, deyxai Senhor, deyxai-me a pena,

Porque só della quero a companhia:

Na noite mais escura, ou mais serena

(Que para ausentes nunca nasce o dia)

Chorarey, permittindo-o minha estrella,

Mais do que a saudade, a causa della.

XXII.

Nas remontadas penhas, nas visinhas

(Se restar a meus ays penhasco possa)

Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas,

Minhas se póde ser, sendo a alma vossa:

De meus annos a flor entre as espinhas

Passarey, sem perder esta fé nossa;

Mas antes perderâõ seu bruto alento

O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.

XXIII.

Mas oh! que he tal a dor de meus retiros,

E taõ firme na ley da tyrannîa,

Que vendo, que me assistem meus suspiros,

Talvez delles me roube a companhia:

Mas inda mais, e mais acérbos tiros

Contra mim fulminar amor porfia;

Pois sem dar attençoens á minha queyxa,

Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.

XXIV.

Qual quando na manhaã naufrága o dia

Nos undósos crystaes, que o Céo desata,

O Jasmim desmayado se agonîa

Dos acháques da gotta, que o maltrata:

Em desares trocando a galhardia,

Icaro já nas agoas se retrata,

O que lisonja foy taõ prateada,

Se no prado jasmim, nas ondas nada.

XXV.

Tal Ignez já de lagrimas banhada,

De seus olhos gentîs mortaes desares,

Que quiz a natureza acautelada

Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares.

Exhalava de todo agonizada

O suspiro final a seus pesares:

Que com vir entre lagrimas undosas,

Inda na bocca achou maré de rosas.

XXVI.

Já Pedro em fim rendido a seu cuidado,

A dôr quer disfarçar a seu retiro;

Que como o coraçaõ tem já quebrado,

Hum pedaço lhe traz cada suspiro:

E como em fim no peito agonizado

Sente da mortal frecha o novo tiro,

Notando Ignez no pranto de seu rogo,

Exhála em agoa, quanto bebe em fogo.

XXVII.

Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora

Ficar ausente sem partir commigo,

Que se es vida da minha, que te adora,

Na alma te levo por viver comtigo:

Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora,

Supposto que partir-me em fim prosigo;

Que se as almas trocar amor consente,

Nem tu só ficas, nem me parto ausente.

XXVIII.

O corpo só se ausenta, a alma naõ parte,

Que em fim naõ vivo de potencias suas,

Que como me alimento só de amar-te,

Bastaõ para viver memorias tuas:

E porque amor nos tiros, que reparte,

Fulmina contra mim frechas mais cruas;

Quando a vida me rouba, outra me ordena,

Que fora em fim matar-me a menor pena.

XXIX.

Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,

A fazer impossiveis offrecida,

Pois que contraminando a natureza,

Teu mesmo amor me mata, e me dá vida:

Mas como amor notou nessa belleza

Os impossiveis só de merecida,

Quiz tomar por razaõ força infallivel,

Obrar por alcançá-la outro impossivel.

XXX.

Bem vês agora, Ignez, como abrasado

Nos vivos holocaustos de meu peito,

Meu coraçaõ consagro a teu cuidado

Em victimas de lagrimas desfeito:

Agora alcançarás, como alentado

Todo me sacrifico a teu respeito,

Pois chega a consagrar-te em viva calma

Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.

XXXI.

Sucçeda á Primavera o secco Estio,

Á serena manhaã tarde calmosa,

Seja manso regato, quem foy rio,

Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa:

Seja, quem Cravo foy, cadáver frio,

Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa

Seja tudo á mudança em fim sujeito,

Que amor firme será dentro em meu peito.

XXXII.

Nessas gentîs madeixas da beldade,

Em cuja luz do Sol o Sol se nega,

Onde feito piráta da vontade

Nas crespas ondas sempre amor navega:

Nessas, digo, captiva a liberdade

Em refens minha fé por fé te entrega:

Nellas deixo por fim com meus alentos

Alma, cuidados, vida e pensamentos.

XXXIII.

A Deos delicia minha, a Deos cuidado,

A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente,

Que parta em fim nas magoas sepultado

Se partir posso de mim mesmo ausente:

A Deos, que amor nos tinha decretado

Esta ausencia cruel, forçosa, urgente;

Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo:

A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.

XXXIV.

Já se remonta Pedro a seus retiros,

E já de morte em morte Ignez discorre,

Que como entrega a vida a seus suspiros,

Quantas vezes suspira, tantas morre:

O coraçaõ sentindo acérbos tiros

Pelos olhos sangrado em crystaes corre;

Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa,

Porque em cada sangria huma alma lança.

XXXV.

Qual na secca vergóntea desfolhada,

Que despojo restou da tempestade,

Se lamenta em requebros lastimada

A casta Rola posta em soledade:

Soluça, pasma, e geme agonisada,

Chora, suspira, anéla em crueldade,

Que seu pesar lhe tem no peito unîdos

Rigores, magoas, lastimas, gemîdos.

XXXVI.

Tal lastimada chora Ignez saudosa,

No seu mesmo tormento sepultada,

Nos desvélos do dia cuidadosa,

Nos descuidos da noite desvelada;

Já se queixa em suspiros lastimosa,

Fórma razoens dos ays agonisada:

Que fez para queixar-se em seus retiros.

Embaixadores da alma seus suspiros.

XXXVII.

Oh! quanto foy de ti teu Pedro amado,

Formosa Ignez, mas inda mais sentido;

Pois sendo grande a gloria de logrado,

Hoje he mayor a magoa de perdido:

Foy teu prazer á pena apensionado,

He teu pesar na pena desmedido:

Entaõ foraõ de Rosas teus favores,

Agora saõ de Lirios teus amores.

XXXVIII.

Já nos braços da Aurora, que assomava,

Renascido chorava o novo dia,

Quando Ignez saudosa entaõ negava

A seu triste pesar a companhia:

A solidaõ do campo se apartava,

Onde só lamentava, e só gemia;

Porque mais no rigor de seus retiros

A piedade faltasse a seus suspiros.

XXXIX.

Entre flores inquire o doce amado,

Presente em cada flor o considéra,

E dando hum breve encanto a seu cuidado,

Busca nas flores quanto em flor perdêra:

Corre de flor em flor, de prado em prado,

Tópa só magoas, donde gosto espéra;

Que foraõ seu praser: e seus favores,

Perda choradas, quando apenas flores.

XL.

Procûra em cada planta, o que anelava,

Porque no seu tormento engano escolha;

Mas oh! que em seu pesar escrito achava

Liçoens para sentir em cada folha:

Já nas liquidas pérlas, que chorava,

Penhascos, plãtas, prado, e folhas molha,

E na lembrança já de hum bem perdido

Lhe interrõpe hum gemido outro gemido.

XLI.

Qual o menino fica enternecido,

Entre perplexidades pasmadinho,

Quando no verde prado entretenido

Lhe foge o gosto atraz de hum passarinho:

Já soluça, já pasma esmorecido,

Já busca cada flor, cada raminho,

Já melindrosos ays, mimoso alento

Apôs o passarinho leva o vento.

XLII.

Tal Ignez na penosa tyrannia

Entre flores inquire o doce amado;

Mas foy lisonja só da fantasîa,

Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado:

Já queixosa das flores se desvia,

Já nas queyxas diverte o seu cuidado,

E nos alentos da alma, com que espira,

Já soluça, já pasma, já suspira.

XLIII.

Na margem de huma fonte se encostava,

Que já clara correo com seus favores,

E se delles travêssa murmurava,

Em lagrimas agora exhála amores:

Ás plantas, aos penhascos se queixava,

Outra vez já seu mal contava ás flores

Onde nos eccos, que respira o monte,

Suspira o valle, porque chora a fonte.

XLIV.

Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia;

Ay flores! se queyxava enternecida;

Que sendo vossa vida de hum só dia,

Muitas horas contais na vossa vida:

Mas oh! de minha dor mór agonia,

Oh morte em menor vida repetida!

Que como em soledades só discorro,

Nem conto instantes, porque sẽpre morro.

XLV.

E vós Rosas no mimo de huma Aurora

Lograis de vossa adôrno a pompa bella,

Que talvez por firmar vossa melhóra,

Tivéstes no nascer tão boa estrella:

Mas oh! que no pesar, que chóro agora,

Nestes fogosos ays, que o peito anéla,

Escolhe minha estrella em triste forte

Por pena a vida, por lisonja a morte.

XLVI.

Vós plantas, que sentis mudavel erro,

Cifrando em cada folha hum pensamento,

Se Dezembro lamenta vosso enterro

Abril em flor vos dá dobrado alento:

Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro

Eternisa hum rigor meu sentimento;

Pois quer amor na sorte, que me ordena,

Se alimente huma pena de outra pena.

XLVII.

E tû bruto penhasco inhabitado,

Tosco sepulcro de huma clara fonte,

Es agora de flores matizado,

Idolo de crystal, gala do monte:

Mas oh tyranna dor! que meu cuidado

Hoje lamenta o mal, que chorou honte,

Vendo, que teu terror com bruto aviso

Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.

XLVIII.

Mas oh queyxas paray, paray cuidados,

Paray, façamos tregoas pensamento,

Que dos males talvez communicados,

Póde nascer desar ao sentimento:

Correy da alma pedaços distillados,

Dizey lagrimas minhas meu tormento;

Minhas naõ digo bem, que juntamente

Perdi tudo no bem, que chóro ausente.

XLIX.

Irmanay-vos, correy mais cuydadosas,

Seja vosso correr mais repetido,

Naõ cuideis, que vos choro caudalosas,

Porque deis desaffogo a meu sentido:

Que como nas memorias rigorosas

Vossa causa lamento, que hey perdido,

Se talvez mitigaes hum sentimento,

Naõ tem valôr nas perdas vosso alento.

L.

Oh! corraõ com valor vossas violencias

Por duplicar incendios a meu rogo,

Que naõ fora querer sentir ausencias,

Se vos chorára só por desaffogo:

Que posto deis alivio ás inclemencias,

Naõ podeis dar alivios a meu fogo;

Que como sou das penas avarenta,

Qualquer alivio vosso me atormenta.

LI.

Correy livres, correy, que amor ordena,

Sejais a meu rigor ancia penosa,

Que naõ comprais alivios a huma pena,

Quando chegais a ser paga forçosa:

Que pois amor por força me condena

Tributar-vos por divida custosa;

Mal podeis mitigar o mal, que tenho,

Quando sois do que devo desempenho.

LII.

Naõ me póde obrigar outro motivo,

Se naõ chorar-vos só por naturesa,

Que quer, que seja amor por excessivo

Tributo natural, o que he finesa:

Que como a seu querer sujeita vivo,

Rendida a seu querer captiva, e presa,

Do pranto, que saudosa me convinha,

Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.

LIII.

Em vós sentir agora mais penosas,

De ser mudas razoens faço argumento,

Que quando naõ chegais a ser queyxosas,

Naõ limitaes a dor ao sentimento:

Que foreis só lisonjas enganosas,

Mas naõ crueis verdugos ao tormento,

Quando na voz queixosa, que formára,

Lastimas a meus ays solicitára.

LIV.

Mais duro sentimento, mais nocivo

No ser da alma pedaços vos confesso,

Pois se levais a parte com que vivo,

A parte me deyxais, com que padeço;

Que como neste mal por excessivo

Repartida minha alma reconheço,

Se levais huma parte naõ pequena,

A vida póde ser, mas nunca a pena.

LV.

Oh! torna atraz arroyo fugitivo,

Alma da penha, coraçaõ do monte,

Torna atraz, que meu pranto successivo

Te fará Rio quando apenas fonte,

Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo,

Detem-te, espera, que meus males conte,

Que vás talvez com prata taõ custosa

Calçar as plantas de huma ingrata Rosa.

LVI.

Se te vás despenhar ambicioso

Por aspirar a creditos de Rio,

Léva meu triste pranto lachrimoso,

Oceâno será teu senhorîo:

Embarga teu correr taõ cuidadoso,

Suspende teu caudal, teu desvarîo,

Que lá terás no már onde te escondas,

Quantas lagrimas levas, tantas ondas.

LVII.

Mas oh! paray razoens, tornay gemidos,

A dor interpretay, que o peito sente,

Que talvez em meus ays por repetidos

Os eccos ouça de quem choro ausente:

Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos,

Ay! quem pudéra amor ter-vos presente!

Mas deyxai-me fallar, talvez que possa

Ouvir na minha voz eccos da vossa.

LVIII.

Aqui, meu doce amor, meu bem querido,

Se me duplîca a dôr ao pensamento,

Pois quando em vós, me falta meu sentido,

Naõ me póde faltar meu sentimento:

Em vós lamenta a dor meu bem perdido,

Em mim renova a dor novo tormento;

Mas creyo, doce amor, que sentir possa

Menos a minha dor, que a falta vossa.

LIX.

Menos dor, menor danno em fim tivéra,

Menos cruel sentira o meu cuidado,

Quando neste rigor, que padecera,

Me podéra esquecer do que hey logrado:

Mas ay! que nesta dor outra me espera,

E hum mal outro me traz apensionado;

Pois chego a padecer em meu sentido

O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.

LX.

Bem conheço, que posso na lembrança

Vossas prendas lograr, meu doce esposo,

Mas o bem, que se perde na esperança,

Fica, quando lembrado, mais penoso:

Mas nesta triste dor, dura esquivança,

Se me duplica amor mais rigoroso;

Pois só quer meu sentido avincular-se,

Para mais padecer, a mais lembrar-se.

LXI.

Assim chorava Ignez, e assim gemia,

Mas oh tragica dor! rara estranhesa!

Que já tópa nas maõs da tyrannia

Armas sempre mortaes contra a bellesa:

Nas maõs de dous tyrannos já se via,

Entre crueis espadas, tosca empresa!

Mas que Rosa no campo Aurora molhas,

A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas?

LXII.

Paray, detende a furia procellosa,

Paray, paray, detende o bruto alento:

Que contra o fresco mimo de huma Rosa,

Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento?

Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa,

Remonta agora mais teu soffrimento,

Que temo, linda Ignez, teus lindos brios

Accrescentem coraes a tantos fios.

LXIII.

Qual nas tecidas silvas da espessûra,

Labyrintho de espinhas intrincado

Com balîdos se queyxa da ventura

O simples cordeyrinho aprisionado:

Já soluça em melindres com ternûra

Das maternas delicias apartado:

O que mimos achou na branda hervinha,

Acha mortal rigor em cada espinha.

LXIV.

Tal lastimada Ignez troca em gemidos,

Quantas vozes no peito articulava,

Em quanto os dous algoses sementidos

As maõs lhe prendẽ, com que amor matava:

Já fugindo os alentos aos sentidos,

O soluçar as vozes lhe embargava:

Mas oh! que amor lhe deo no pensamento

Razoens ao pranto, voz ao sentimento.

LXV.

Ay tyrannos crueis! oh sorte dura!

Entre suspiros, diz agonizada,

Que delicto commette a formosura,

Com que possa a bellesa ser culpada?

Oh! deyxai-me esta vida em pena escura,

Se me quereis a morte dilatada;

Que nesta triste dor taõ repetida

Menos me mata a morte, do que a vida.

LXVI.

Oh! suspendey sentença taõ penosa,

Mitigay por hum pouco a crueldade,

Que naõ podeis dar morte rigorosa,

Que possa matar mais, que a saudade:

Mas já que minha dôr menos piedosa,

Vos naõ póde causar nova piedade,

Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos,

Unica prenda só de meus sentidos.

LXVII.

Ay! charas prendas minhas taõ queridas,

Reliquias de amor, da alma pedaços;

Ay! como sentireis em mim perdidas

As mimosas delicias de meus braços:

Mas pois naõ póde ser entre homicidas

Lograr, amores meus, vossos abraços,

A Deos, ficai-vos já gostos amados,

A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.

LXVIII.

Mais quiséra fallar enternecida,

Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte!

Hum tyranno cruel, torpe homicîda,

Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte:

Inclîna o lacteo collo amortecida,

Avassallada já da infausta sorte,

Exhála a vida o corpo de alabastro,

Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.

LXIX.

Qual a branca Açucena, que cortada,

Sente do ferro, ou tempo, a crueldade,

Em seu mesmo candôr amortalhada,

Defunta flor em flor na flor da idade:

Á qual ficaõ sómente de engraçada

Os antigos riscunhos da beldade:

Tal fica a bella Ignez amortecida

Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.

LXX.

Vós agora, troféos da formosura,

Apparencias vitaes de ramalhete,

Colhey as vélas, porque a pouca altûra

Qualquer onda vos mólha o galhardete:

Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura

Acha, se berços, campas no alegrête:

Attentay léve flor, bellesa vaã,

Que he mais antiga a tarde, que a manhaã.

~FIM~

_da primeyra parte_.

[Ilustração]

[Ilustração]

SEGUNDA PARTE

I.

Ja da fatal tragédia retiradas

As restantes ruinas da feresa,

Ficaraõ só no cãpo idolatradas

Hũas breves reliquias da bellesa:

Ausente Pedro, sem que as mal logradas

Lamentasse memorias da firmêsa:

Taõ dittoso nas magoas se discorre,

Que morre ufâno, sem saber que morre.

II.

Queixosa em fim feneçe a galhardia,

Solicîta queixûmes a ternûra,

Vendo jà no desdem da tyrannia

Menos cruel a Parca, que a ventûra:

Que como qualquer dote se avalia

Por symptôma fatal da formosúra,

Aquella mesma ditta, que entre sortes

Cumûla prendas, mutiplîca mortes.

III.

Á ventura se queyxa, que a beldade

Fosse causa da perda, porque unida

Naquellas prendas da melhor idade,

Fez acabar rigôr, o que era vida;

Mas a Parca tyranna por vaidade

Solicita bellesas advertida;

Porque dellas talvez se naõ cuidára,

Morre fora huma prenda, e só matára.

IV.

Só suspiraõ, só choraõ lastimosas

(Que naõ pára nas queyxas a finesa)

Aquellas, que restaraõ só piedosas

Troyas do amor, reliquias da bellesa:

Aquellas, digo, prendas lachrimosas,

Dous Infantes gentîs, a que naturesa

Deyxou com vida, porque em seu tribûto

Fosse a morte da flor vida do fructo.

V.

Qual nos braços da planta mais visinha

Em roupas de rubîm, cama olorosa,

Sentindo huma lanceta em cada espinha,

Sangrada no jardim fenece a Rosa:

Consagrando-se flor, quem foy Rainha,

Em vivos holocaustos sanguinosa,

De cujas cinzas restaõ por grinalda

Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.

VI.

Que pesáres, que penas, que rigores

Amor formáva, cada qual sentia,

Qual nos gemidos soluçando amores,

Em carinhossas magoas confundia:

Qual desmayado no tapiz das flores,

Se recosta trophéo da tyrannia,

Notando aquelle peito, cujo enfeite

Lhe troca em pena, quanto foy deleite.

VII.

Quantas vezes fallando enternecidos,

Em soluços lhe pára o doce alento!

Quantas na voz do monte repetidos

Os saudosos ays lhe torna o vento:

Quantas a ser naufragio dos sentidos,

Se deriva em chrystaes o sentimento;

Pois quer a dor, querendo amor agora,

Chórem dous Soes a falta de huma Auróra.

VIII.

Alentado o rigor, duplîca em tiros,

Se bem globos de fogo, esphéras de agoa;

Naõ resiste Clavêl, que nos retiros,

Naõ morra espûma, e naõ feneça fragoa:

Multiplica-se o vento nos suspiros,

Fogósos rayos lhe despede a magoa:

Já naõ sabe nascêr, nem brilhar Rosa,

Que naõ pasme defuncta mariposa.

IX.

Nem tribûtaõ lisonjas aos sentidos

Nestas mudas razoens, que amor ordena,

Que sujeitos amantes desunidos,

Aquelle, que mais chóra, esse mais pena:

E se lagrimas saõ nos mais sentidos

Almas do coraçaõ, bem se condena

Qualquer a mais sentir; pois he patente,

Que quem mais almas tem, muito mais sẽte.

X.

A solidaõ de Pedro imaginada,

Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos,

Que nem morrêra Ignez, se retirada,

Naõ sentira distante os seus effeitos:

Que como seja amor, muito apertada,

Se gentil, uniaõ de dous sujeitos;

Quando matar hum delles amor trata,

Se desunir os dous hum só naõ matta.

XI.

Assi passaõ da mágoa a ser espanto

Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos,

Narciso cada qual do proprio pranto,

Phaetontes em fim de seus gemidos:

Se foraõ gala da bellesa, em quanto

Eraõ gentîs desvelos dos sentidos,

Lastimas ficaõ já da tenra idade,

Culpas de amor, delictos da beldade.

XII.

Quaes simples avesinhas, que roubadas

Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora,

Dos maternaes alentos apartadas,

Suspira cada qual, cada qual chóra:

As que foraõ do campo idolatradas

Oraculos do Sol, linguas da Auróra,

De si mesmas agora occulta fragoa,

Concebem pena, quando abortaõ magoa.

XIII.

Mas já funesta voz, turbado alento

Por linguas de metal enrouquecido

Formava o Semideos monstro violento,

Gigante pela fama conhecido.

Aquelle, cujo aládo atrevimento

Se remonta veloz, e taõ subido;

Porque nelle talvez o mundo veja

Voarem pennas a pesár da inveja.

XIV,

La fez a túba lastimoso effeito

Nos alentos de Pedro, que em suspiros

Os mais dos eccos lhe interpréta o peito

Dobrando mágoas, renovando tiros:

Quando apenas em fim na dôr desfeito

O coraçaõ se pasma, que em retiros

Suffocado talvez da intensa calma,

Se isentou de correr por conta da alma.

XV.

No combáte fatal deste desmayo

(Lastimoso parenthesis da vida!)

Tribûta vivas ao mortal ensayo,

A sentinella da alma já vencida:

Naõ morre Pedro, naõ, que aquelle rayo

Foy lançada de amor, que repetida,

Se pertende matár, a quem suspira,

Menos o mata, se lhe a vida tira.

XVI.

Assi vivendo morre, quando amante;

Assi morrendo vive, quando ausente;

Que se morre, pois pena por distante,

Vive tambem, pois ama, porque sente:

Mas em fim naõ passâra tanto ávante

Nas finesas amor, que fora urgente

Acabar-se na vida, se roubára,

E taõ fino naõ ser, se naõ matára.

XVII.

Mas quem diria agora o que sentiste

Nesta, Pedro, de amor menos ventura,

Dos carinhos ausente, que já viste

Brotar melindres, produsir brandûra?

Oh! que dirias, Pedro, quando abriste

Aquelles dous conceitos da ternûra!

Os olhos digo; mas amor ordena

Parte das queixas interpréte a pena.

XVIII.

Já no pardo capuz, roupas saudosas

Emmudecida a terra se encobria,

E nos hombros das nuvens tenebrosas

Ataúdes de sombra o tempo erguia,

Consagrando com tochas lachrimosas

Mudas exequias ao defuncto dia,

Dando claros sinaes ao Jovem louro

Em torres de Zaphir os signos de ouro.

XIX.

Quando a favor da vida o sentimento

Novos em Pedro reproduz gemidos,

Sendo sumilher da alma o novo alento,

Que lhe corre as cortinas aos sentidos:

Mas já liquida dôr, claro tormento

Se acredita nos olhos advertidos,

Que quem nas penas solitario mora,

Só lhe resiste vivo, em quanto chora.

XX.

Solicita retîros, em que unidas

Se acreditaõ de finas as saudádes,

Que saõ mais primorosas, se sentidas,

Naõ permittem motivos a piedades:

Tributaraõ labéos de mal nascidas;

A naõ passarem móstra de vaidades,

Quando naõ foraõ mais, que eternisadas,

Solitarias, occultas, retiradas.

XXI.

E já nas solidoens entretenido

Interpréta lisonjas aos cuidados,

Pois vay vendo nas flores advertido

Morraes prendas, alinhos mal logrados:

Mas apenas se lembra enternecido

Daquelles Soes agora imaginados,

Quando já vacilante se discorre,

Aqui pasma, allî geme, acolá morre.

XXII.

Qual Girasol gigante, que atrevido

A beber rayos amoroso aspira,

Se bem, que entre zeloso, e presumido

Desdenha ufâno, temoroso gira:

Mas vendo apenas, que o galân querido

Com disfarces de nacar se retira,

Porque se vê das glorias todo ausente,

Languido pasma, cuidadoso sente.

XXIII.

Em fim rompe nas queixas amorosas

Agora Pedro, quando as vê sentidas,

Que naõ pódem livrar-se de penosas,

Quando sabem fugir a ser ouvidas:

E só discretas saõ, se rigorosas,

As que menos se presaõ de entendidas;

Que já por isso Pedro se as pertende,

He só porque a si mesmo naõ se entende.

XXIV.

Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada!

Minha te chamo, quando assi perdida,

Que se naõ tens as veras de lograda,

O desár naõ padeces de esquecida:

Como gloria maltratas, se lembrada?

Como molestas gloria possuida?

Na pósse logras ancias de fallivel,

Na memoria rigores de impossivel.

XXV.

Como soube deixar-me assi frustrado

Este rigor, que gloria se habilita,

Quando me fez mayor, que o mesmo Fado,

Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita?

Quem me disséra então, que este cuidado

Fosse Rosa, que apenas se acredita,

Quando se vê nas maõs da naturesa

Trophéo da dôr, sangria da bellesa.

XXVI.

Ay triste solidaõ! ay pena ingrata!

Quanto menos cruel foras agora,

Se permittindo a magoa, que maltrata,

Naõ roubáras a gloria, que te adóra:

Mas esta dôr naõ fora, que assi mata,

Rigoroso pesár, se assi naõ fora;

Pois naõ se méde o mal de quem suspira,

Pelo que tem, senaõ pelo que tira.

XXVII.

Mas inda mais avante acompanhada

Desta dôr outra pena já me alcança;

Pois na magoa da perda lamentada

Os alivios me rouba da esperança:

Mas como, se naõ fora eternisada,

Maltratára das glorias a mudança?

Que o pesár sem remedio padecido,

Mata porque hade ser, e porque ha sido.

XXVIII.

Nem pódem mitigar esta saudade

Assistencias de amor, porque resiste

Outra nova razaõ da soledade,

Que nas distancias desse amor consiste:

Que como aquelle objecto da vontade

Hoje feito impossivel naõ me assiste,

Sendo vinculo amor entre subjeitos,

Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.

XXIX.

Só deixára de ser eternisada

Esta dor, mas só fora divertida,

Se a memoria da pena imaginada

Naõ passára a ser pena padecida:

Só razão de praser, quando lembrada,

Essa gloria tivera, que he perdida,

Se sendo assi passada na lembrança

Soubéra ser futûra na esperança.

XXX.

Nem queixumes de lagrimas sentidas

Alivios pódem ser nesta saudade,

Que sendo partes da alma desunidas,

Saõ causas naturaes da soledade:

Porque quando nos olhos advertidas,

Procuraõ fugitivas liberdade,

Aquella mesma vida, que me alenta,

Tambem nellas partida se me ausenta.

XXXI.

Oh quem me déra já ser assistido

Dos penhascos talvez, que o monte cria!

Mas quem naõ tem razoens para sentido,

Naõ póde ter nas magoas companhia:

E hum rigor por ausencias padecido,

Com nenhuma presença se alivîa;

Que quem nas ancias, que padece hũ triste,

Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste.

XXXII.

E menos me permitte esta esquivança

Ser de vós assistido, lindas flores,

Pois por gentis emblemas da mudança

Jeroglyphico sois de meus amores:

E se produzis glorias na lembrança,

Mal podeis assistir a meus rigores;

Que naõ faz assistencia nos retiros,

Quem motiva principios aos suspiros.

XXXIII.

Nem já, féras, talvez vossa brutesa

Resta para topar branda piedade;

Mas como póde ser, se a naturesa

As noticias vos néga da saudade?

E no fatal rigor de huma tristesa,

Nos efeitos mortaes da soledade,

Naõ póde ser a dor compadecida,

Sem que seja na causa conhecida.

XXXIV.

Nem sereis, avesinhas, no saudôso

Companheiras gentîs a meus retiros,

Que diversos sujeitos no penoso,

Tem diversas as magoas nos suspiros:

E bem se vê, que o mal todo invejoso

Mais a mim, do que a vós fulmina os tiros;

Pois nûm rigôr fatal hum, damno esquivo,

Mais mata o racional, que o sensitivo.

XXXV.

E menos podeis ser a meus sentidos

Deleitoso carinho na saudade,

Lisonjeiros arroyos, que atrevidos

Solicitaes dos olhos a vaidade:

Mas como? se a meus ays, e a meus gemidos

Multiplicaes melhor a soledáde;

Pois em vós retratado, e descontente,

De mim mesmo me vejo estar ausente.

XXXVI.

Mas ainda assi paray, que se melhora

Nestas lagrimas minhas vosso augmento:

Se professais correntes, como agora

Sabeis livres fugir ao sentimento?

Paray, naõ murmureis, que nisso fora

Muito mais conhecido vosso alento;

Olhay que se condena, ou se aventûra,

A naõ fazer remansos quem murmûra.

XXXVII.

E vós paray nas queixas amorosas,

Galantes cortesans da soledade,

Que naõ fazeis os pontos de queixosas

Quando dais tantas falsas na saudade:

Paray, digo, a meus ays, paray piedosas,

Paray nos quebros, tende a liberdade,

Aprendereis a ser nestes retiros

Hum Féniz cada qual de meus suspiros.

XXXVIII.

Paray gentîs emblemas da vaidade,

Flores, digo, paray, paray saudosas,

Naõ bebais presunçoens, que a pouca idade

Sereis de meus incendios mariposas:

Aprendey dos alinhos da beldade,

De vossa vida, digo, a ser piedosas;

Que sempre foy nas regras da ternûra

Muy capaz de liçoens a formosura.

XXXIX.

Paray féras tambem nesses ruidos,

Guardas do monte, archeiros da ferêsa,

Fazey caso das penas, que os bramîdos

Argumentos parecem da brutêsa:

Isto basta, paray, que os entendidos

Pódem talvez notar vossa estranhesa:

Minhas queixas ouvi, que alivio fora,

Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.

XL.

Paray broncos penhascos, que o Céo cria

Para pardos Atlantes dos retiros,

Se vos vence huma liquida porfia,

Como já resistis a meus suspiros?

Mas oh! que digo! páre a covardia,

Exhále o peyto, multiplique os tiros,

Duplîque amor, e dobre o sentimento,

Agoa nos olhos, nos suspiros vento.

XLI.

Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo

Undósa parte, derretido alento,

Se liquida sangrîa ao desaffogo,

Lisonjeira lancêta ao sentimento:

Se excessivo queixúme, ardente rogo,

Se verte em nuvem, se distille em vento,

Naõ fique planta, que a pesár do espanto,

Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.

XLII.

Sejaõ linguas dos olhos mudas agoas,

Intérpretes da dor tristes retiros,

Eloquencias do peito vivas fragoas,

Razoens do coraçaõ ternos suspiros,

Rhetóricas da pena ardentes magoas,

Elegancias de amor dobrados tiros:

Emmudeça a razaõ, que só parece,

Sabe tambem sentir, quando emmudece.

XLIII.

Distille o coraçaõ, duplique o vento

Ethnas a seu pesár, agoas ao rogo;

Morra por glorias de seu mesmo alento

Troya nas ondas, e Narciso em fogo:

Incendios solicîte ao sentimento,

Diluvios multiplìque ao desafogo,

Sendo de seu rigor o mesmo ensayo,

Nas causas nuvem, nos effeitos rayo.

XLIV.

Naõ cresça lirio, que naõ sinta os tiros,

Clavél naõ gire, que naõ pasme em fragoas;

O que Féniz naõ for entre os suspiros,

Morra já Faetonte sobre as agoas:

Sejaõ vozes as magoas nos reriros,

Que melhor nos retiros se ouvem magoas,

Se se póde na dor, que amor ordena,

Ouvir a magoa sem sentir a pena.

XLV.

Naõ reste planta, que se atreva a tãto,

Que naõ murche dos ays enternecidos,

Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto,

Se naõ séque ludibrio dos gemidos:

Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto

Lastimosos naufragios dos sentidos;

Seja neste pesár, nesta esquivança

Charybdes da alma o Cabo da esperança.

XLVI.

Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade,

Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento,

A naõ serem Jasmins na brevidade,

Naõ seriaõ Perpetuas no tormento:

Só tu terrivel ancia da saudade

Eternizas agora o sentimento;

Porque quando matar-me amor ordena,

Me deixas vida, com que o corpo pena.

XLVII.

Quem soubéra cuidar, que a mais crescida

Tyrannîa cruel da dor mais forte

Fosse, quando nas perdas de huma vida

Impossiveis sentisse de huma morte:

Mas he rigor da magoa repetida

Por industria fatal da iniqua sorte;

Porque quando talvez matar-me trata,

Por topar-me sem vida, naõ me mata.

XLVIII.

E se fora da vida roubadora

Esta sorte fatal, tormento esquivo,

Tivera só por pena matadora

Qualidades de grande no intensivo:

Mas naõ, que como amor pertende agora

Cumulár intensoens ao sensitivo,

Naõ quer, que amor me mate, pois durára

Muito menos a pena, se matára.

IL.

Agora alcançarás, prenda querida,

Os rigores de amor na minha sorte,

Pois agora me quer roubar a vida,

Só por ma naõ tirar primeyro a morte:

Mas ay! que a pena se duplîca unida:

Mas ay! que a magoa se eternisa forte;

Pois que vejo na dor do mal esquivo,

Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.

L.

Mas agora na pena, que me entrega,

Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira,

Que padeça na morte, que o mal nega,

E que pene na vida, que amor tira:

Aqui verás, Ignez, a quanto chega

Esta pena de amor, que amor, conspira;

Pois agora naõ sey, no que discorro,

Se vivo ausente, nem se ausente morro.

LI.

Mas em fim: que me queixo dos rigores,

Com que talvez amor me tyrannisa,

Quando mais martyrisaõ seus favores,

Onde qualquer lembrança os eternisa:

Pois quando apenas se alentaraõ flores,

Passaraõ quasi flor, que se agonìa;

Por isso a minha queixa mais se ordena

A sentir seu desdem, que a minha pena.

LII.

Oh duro amor! oh fragoa dos gemidos,

Prisaõ da vida, Argel da liberdade,

Martyrio da alma, guerra dos sentidos,

Encanto doce da melhor vontade!

Teus favores só foraõ conhecidos

Por gentîs prendas da mais tenra idade,

A naõ serem primeyro teus favores

Seccas espinhas, que animadas flores.

LIII.

Que cuidados naõ causas Jovem cego?

Que rigores naõ dás ao pensamento?

Que delicias naõ roubas ao socego?

Que lisonjas naõ finges ao tormento?

A que peitos naõ dás custoso emprego?

A que vida naõ tiras doce alento?

De que genios naõ reinas? de que idades?

De que prendas gentìs? de que beldades?

LIV.

Quem me disséra, quando Ignez lograva

Nos carinhos gentîs de seus favores,

Quando nelles amor idolatrava,

Para poder talvez morrer de amores!

Quem me dissera, logo, que aspirava

Hum cadúco praser a taes rigores!

Quem me disséra então, que da ventura

Era mortal delicto a formosura!

LV.

Quem disséra, que os laços de alvedrios,

Gentîs madeixas, onde a naturesa

Repartio liberal por tantos fios

Os melhores extremos da bellesa,

Esses agora, que acabarão brios,

Se arrastão já bandeiras da tristesa?

Mas que muito, se nunca em seus ensayos

Nenhum por Louro se isentou de rayos.

LVI.

Oh bem, que pouco duras possuido!

Só logras algum ser, quando esperado;

Nos molestos receyos de perdido

Tyrannizas o gosto de alcançado;

Oh sonhada lisonja do sentido!

Oh mais terrivel ancia do cuidado!

Flor, que apenas se vê, quando se chora

Enteada do Sol, filha da Aurora.

LVII.

Aquelles olhos donde o Sol furtava

Os melhores thesouros da vaidade,

E em lusidas capellas consagrava

Dous altares Amor a huma beldade:

Aquelles, cuja luz interpretava

Os occultos archivos da vontade,

Estes mesmos erarios da bellesa

Deixa a perder de vista huma feresa.

LVIII.

Oh debil gloria lisonjeiro ensayo!

Babél da vida, lingua do escarmento,

Desfeita sombra do mais breve rayo,

Quebrado vidro da mais tibio vento:

Jasmim, que pasma de qualquer desmayo,

Cravo, que morres de teu mesmo alento!

Oh gloria humana! em fim gloria sonhada,

Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada.

LIX.

Aquella bocca, donde a mais lustrosa

Se divisava purpura incendida,

Em quem se vio nascendo a bella Rosa

Com menos folhas, quando mais partida

Agora só se occulta lastimosa

Em desmayos de neve amortecida;

Mas que prenda não tem que formosura,

Muito menor a vida que a ventura!

LX.

La pretende nascer Cravo lusido,

Mas em casa gentil botão fechado;

Porque aquella manhaã, que o vê nascido,

O chorasse primeyro amortalhado:

Quem, ô purpurea flor, taõ presumido?

Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado?

Que lhe chegue a tecer a naturesa

A mortalha primeyro, que a bellesa.

LXI.

Aquelle brando afleyo da ternûra,

Aquelle doce Argél da liberdade,

Aquelle emblema só da formosura,

Aquelle bello encanto da vontade,

Aquelle gentil pasmo da ventura,

Aquelle rico erario da vaidade,

Nos alinhos se vê já confundida,

Troféo da morte, lastima da vida.

LXII.

Que pouca duraçaõ, que mal segura,

Tem nas prendas da vida huma bellesa!

Só vive em quanto nasce a formosura,

Espira, em quanto vive a gentilesa:

Em fim, mais morre, quãto em fim mais dura,

Mortalidades traz por naturesa;

Quanto mais alentada, e mais lusida,

Mais accidentes logra, e menos vida.

LXIII.

Mas se saõ melindrosa enfermidade

Prendas de amor, e dotes de huma vida,

Que muito, bella Ignez, que essa beldade

Fosse de teus alentos homicida:

Comtigo a morte foy no Abril da idade,

Menos ambiciosa, que atrevida,

Sem reparar, Ignez, que teus rigores

Perdessem fructos por cortarem flores.

LXIV.

Mas viveràs, Ignes, que amor ordena

Nestas memorias, donde a tyrannia

Por naõ lograr-se mal a minha pena,

Debuxàra melhor tua galhardia:

Aqui veràs, Ignes, se me condena

Amor, que por tyranno se avalia,

A fazer impossiveis, pois discorro

Viver lembrado, quando auzente morro.

LXV.

Morra no ramalhete flor cobarde

A que Rosa nasceo mais alentada,

Vomitando rubins pague na tarde

Quantas perolas bebeu na madrugada:

Seja bruto fiscal de tanto alarde

O mesmo dia, que a chorou cortada,

Que nenhuma manhãa, nem tarde temo

As contas tomar possa a tanto extremo.

LXVI.

Aqui passo tal vez a mais quererte,

Onde chego mais fino a mais lembrarme,

Porque foraõ distancias de naõ verte

Incentivos quiçà para olvidarme:

Mas nem topo motivos de perderte

Nesses teus infalliveis de deixarme,

Que, sendo vida minha, sò pudera

Por perdida julgarte, se eu morrera.

LXVII.

Assim se queixa Pedro, quando ausente

Daquellas prendas nunca esquecidas,

Pois amor, que lembradas as consente,

As pintou bellas, quando as vio perdidas;

Quando nas pennas, que dobradas sente,

Quando nas queixas, que repete unidas,

Jà desmayando pasma, porque ordena

A mesma queixa, que se calle a penna.

LXVIII.

Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde,

Quando fragoas se alenta, incendios gyra,

Funesta tumba de seu mesmo alarde,

Bebendo rayos, abrazado espira:

O que roxo matìz a pennas arde,

Parda nuvem murchando se retira,

Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo

Lhe corre galas para novo ensayo.

LXIX.

Assim Pedro se pasma, e naõ consente

Os sentidos queyxumes, que derrama,

Que se vive queixoso quem mais sente;

Poem limite nas queixas quẽ mais ama;

Mas aqui lhe concede amor presente

Aquellas prendas, com que mais o inflãma,

Que saõ talvez motivos do socego

As memorias gentis do doce emprego.

LXX.

Agora, humanas prendas, se entendidas

O desdem desprezais da infausta sorte,

Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas,

Que naõ saibaõ passar àlem da morte:

Attentay, se notardes advertidas,

Que naquelle de amor rigor mais forte

Aconteceo da misera, e mesquinha,

Que depois de ser morta foy Rainha.

~FIM~

_Da segunda parte_.

[Ilustração]

PARTE UNICA,

OU

TERCEIRA

DAS

SAUDADES,

E

SENTIMENTOS

DE

D. MARIA

DE LARA.

[Ilustração: _No grande sentimento, que teve da prizão se seu

esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas

lagrymas._]

_Choray, sem descançar, olhos cançados._

GLOZA I.

Pois fostes olhos meus por quẽ mereço

Da culpa o perdaõ que busco, e quero,

Instrumento do mal que hoje padeço,

Tambem o podeis ser do bem que espero:

Jà de meus altos pensamentos desço,

A vil estado humilde, duro, e fero,

E jà que os males meus por vos saõ dados

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

II.

Mortiferos enganos procurastes,

Dos quaes muy graves damnos padeceis,

E pois de ver o mal nunca cansastes

De chorar pelo bem nunca canseis:

E já que os grandes bens que eniquilastes,

Por quem vòs suspirais, por quem gemeis,

Chorando poderaõ ser renovados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

III.

Das agoas que de vós estaõ manando

Fazey hum rio claro, hum rio manso,

Que eu folgo de vos ver cançar chorando

Pois chorando ganhais vosso descanço;

Nas cousas em que vos hides cansando

Nessas me alegro, e eu nessas descanço,

E pois nos faz o choro descançados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

IV.

Choray naõ descanceis, pois que ganhais

Chorando quantos bens aqui perdestes;

Póde ser, que nas agoas, que chorais,

Laveis as nodoas grandes, que fizestes:

Choray as grandes magoas, que me dais,

Pelo gosto, que vós sem mim tivestes:

Choray males presentes, e passados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

V.

Tantas agoas de vós sejaõ lançadas,

Que affoguem vossos torpes desvarîos:

E posto que estas agoas saõ salgadas

Por ellas se navéga a doces Rios:

Soffrey, por ver-des culpas affogadas,

Tempestades crueis, calmas, e frios;

Choray, se dezejais ser perdoados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

VI.

Acîma desta terra tem subido

As agoas do diluvio taõ sómente;

Porém as vossas poucas tem-se erguîdo

Encima deste Céo mais eminente:

E lá movendo estaõ com seu ruido

A Deos, Senhor Supremo, Omnipotente;

E se delle quereis ser muito amados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

VII.

Produzem temporal, terrestre fruto,

As agoas, que os Céos daõ no duro inverno;

Porém o vosso choro, sem ser muito,

Produz fruto celeste, e sempiterno:

Nunca de vós o campo esteja enxuto

Chorando o mal antigo, e o mal moderno;

Choray, seráõ os males desterrados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

VIII.

As agoas, que vós vedes ir correndo,

Que parece que vaõ de vós fugindo,

Por natureza vaõ ao mar descendo,

As vossas por virtude a Deos subindo,

Humas chegando ao mar, vaõ-se perdendo

As outras ante Deos ficaõ assistindo:

E se quereis de Deos ser estimados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

IX.

As agoas que das fontes vaõ manando,

Fazem na terra vil vozes terréstes;

Porém estas, que vós ides chorando

No Céo Empyreo saõ vozes celestes:

Chovey, olhos, chovey, iraõ brotando

Os bens, que cõ a secura aqui perdestes;

Os quaes se desejais ver restaurados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

X.

Com muitas agoas cá vay-se apurando

Qualquer pequeno vaso estando immundo;

Mas vós com bem pouca agoa estais lavando

Immunda culpa, mór que o mesmo mũdo:

Por isso naõ canceis de estar chorando,

De lagrimas fazendo hum mar profundo;

E pois por ellas sois galardoados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

XI.

As agoas cá vaõ só satisfazendo

A sede aos animaes, que as vaõ gostando;

Mas estas, que de vós estaõ nascendo

A vosso Deos a sede estaõ matando:

Sempre estejaõ de vós agoas correndo,

Pois por ellas o bem vem navegando;

Do qual se quereis ser certificados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

XII.

Ninguem se afogarà se naõ lançado

Em agoas que o possaõ estar molhando,

Mas vòs sem que molheis vosso peccado,

O afogais nesta agoa que ies chorando:

E pois tendes o mal jà desterrado,

E os bens por vossas agoas vaõ entrando

Atè que os possais ver desembarcados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

XIII.

Choray os annos uteis que gastastes,

Choray o rico tempo que perdestes,

Choray os bens divinos que deixastes,

Choray males crueis que cometestes:

Choray enganos vãos que tanto amastes,

Choray conselhos bons que aborrecestes,

Choray olhos no bem jà melhorados,

_Choray, sem descançar, olhos cançados_.

OITAVAS CONSOLATORIAS

_Sobre o mesmo pezar_.

I.

Ainda que a dor da razão priva,

Quãdo a causa della he muito amada,

Ainda que a paixaõ prende, e cativa,

Os discursos de huma alma atormentada.

A fé que sobre a mente he bem que viva,

Pois anda sobre os Ceos alevantada,

Dos males que sentis, e dos que vedes,

Vos consola com os bens, que por fé crédes.

II.

O Deos, centro das almas, guia, e norte,

Por quem cada qual dellas he regidas,

Fez que esta nossa vida fosse morte,

Depois que sua morte fez a vida:

Assim quem vive mais tem peor sorte,

Pois que padece morte mais comprida,

Porq̃ naõ logra mais quem tem mais annos,

Mas quem mais annos tẽ, sofre mais dãnos.

III.

Saudades de D. Ignez de Castro · 第 1 / 3 段