A installação do imperio devia fazer prever a sua existencia ephemera e o
seu fim desastroso.
O Mexico não poderia ser regenerado por um só homem, por maiores que fossem
a energia e a dedicação d'esse homem. Paiz devastado pelas guerras civis,
estava atrophiado, desorganisado, inculto. Não havia escólas, estradas,
agricultura. Maximiliano teve occasião de o reconhecer quando emprehendeu,
arrostando com grandes perigos e incommodos, uma viagem através do seu novo
imperio.
O roubo parecia guindado á altura de uma instituição nacional. E não eram
só os _leperos_, especie de _lazzaroni_ do Mexico, que roubavam; do palacio
imperial desappareceram por vezes objectos preciosos.
Maximiliano, recolhendo á capital, projectou estradas, fundou escólas,
concedeu caminhos de ferro. Creou uma academia de sciencias e bellas-artes,
e traçou o plano da construcção, sobre o golfo do Mexico, de uma grande
cidade industrial e commercial, a que daria o nome de Miramar.
N'este fervoroso trabalho era auxiliado corajosamente pela imperatriz, que
passava os dias escrevendo a correspondencia politica do imperio, destinada
ás côrtes da Europa.
Entretanto, os perigos que rodeiavam Maximiliano cresciam como uma onda
temerosa. O partido juarista engrossava, as guerrilhas augmentavam, os
bandoleiros faziam audaciosas incursões até ás portas da capital. Bazaine
casára com uma senhora mexicana; creára, portanto, ligações e interesses no
Mexico, a sua sinceridade devia tornar-se suspeita a Maximiliano que, para
conservar-se no throno, não tinha outro ponto de apoio senão a França.
Fôra Bazaine que aconselhára o imperador a decretar uma lei severa contra
todos os bandos armados que infestavam o Mexico.
Era o rastilho que devia incendiar, contra Maximiliano, o espirito
nacional. Mas o imperador dependia exclusivamente de Bazaine, e fez-lhe a
vontade.
Foi leal o conselho de Bazaine? Tudo faz acreditar que não foi. Elle
contava com o effeito seguro d'essa lei sanguinolenta. De facto, no 1.º de
setembro de 1865, descobriu-se uma conspiração contra Maximiliano. Um dos
cabeças da conspiração era o general Uraga, ajudante do imperador.
Quinhentas pessoas foram presas, o corpo de _dragões da imperatriz_
dissolvido, e Bazaine convidado a occupar militarmente o palacio imperial.
Que triste realeza a de Maximiliano, rodeiado de bayonetas no seu proprio
palacio!
Coincidiu com este deploravel estado de coisas o termo da occupação
franceza. Tres annos haviam passado. Napoleão III, que principiára a medir
todo o alcance d'essa louca aventura do Mexico, procurava um pretexto
desleal para mandar retirar a expedição franceza. Os Estados-Unidos
deram-lhe o pretexto. E Maximiliano, vendo-se perdido, enviou á Europa, a
implorar a protecção de Napoleão III, a imperatriz Carlota.
Foi em agosto de 1866 que a desventurosa imperatriz chegou a Saint-Cloud.
Os imperadores vieram recebel-a ao fundo da escada, com esse requinte de
cortezia palaciana cuja intenção nem sempre é sincera. Feitos rapidamente
os cumprimentos do estylo, o imperador e as duas imperatrizes encerraram-se
em conferencia n'um gabinete particular.
Oiçamos agora o testemunho insuspeito de madame Carette:
«A imperatriz do Mexico, que contava então apenas vinte e seis annos,
denunciava longas angustias, profundas inquietações. Alta, de um porte
elegante e nobre, o rosto redondo, os olhos negros e salientes, as
feições graciosas, a imperatriz trajava um longo vestido de sêda preta,
ainda vincado das dobras da mala em que fôra acondicionado durante a
viagem e de que fôra tirado á pressa, sem ter havido tempo de o arejar;
um mantelete de rendas pretas, e um chapeu branco muito enfeitado, que
tinha sido comprado n'essa manhã em casa de uma das primeiras modistas. O
calor era n'esse dia asphyxiante, e fôsse por effeito do longo trajecto
em carruagem, ao sol, desde Paris a Saint-Cloud ou por effeito das
commoções que a agitavam, as faces da imperatriz estávam vivamente
rosadas.
«Acompanhavam-n'a duas damas de honor, mexicanas, muito feias, morenas,
pequenas e desgraciosas, que fallavam o francez com difficuldade. Ao
passo que os soberanos conferenciavam largamente e sem testemunhas,
esforçavamo-nos por entreter estas duas estrangeiras, que pareciam muito
perturbadas. Eu consegui trocar algumas phrases com uma d'ellas, e, para
matar o tempo, offerecemos-lhes alguns refrescos.
«A dama mexicana pediu-me que mandasse uma laranjada á imperatriz
Carlota, que, segundo me disse, costumava, áquella hora, tomar esse
refresco. Dei immediatamente ordem na ucharia para que servissem a
laranjada. A imperatriz Eugenia, contrariada com a entrada do criado,
perguntou quem lhe tinha dado a ordem. Respondeu que fôra eu, e foi a
propria imperatriz Eugenia que serviu a laranjada á imperatriz Carlota,
tendo que insistir para que a tomasse, porque a imperatriz do Mexico
parecia hesitar.»
Duas horas durou essa entrevista dos tres personagens. Não valeram razões,
supplicas, rogos. O imperador Napoleão fôra de pedra, elle, o inventor do
imperio do Mexico, elle, a serpente que tentára Maximiliano!
Carlota sahiu de Saint-Cloud pedindo á imperatriz que ao menos interpozesse
o seu valimento para demover Maximiliano a sahir do Mexico.
Foi chorando copiosamente que a imperatriz Carlota deixára Saint-Cloud.
Pobre coração de mulher, que uma dôr incomportavel dilacerava! Entrára em
Saint-Cloud uma imperatriz; sahira uma louca.
De Paris, essa desgraçada senhora fôra para Roma, implorar o auxilio do
chefe da igreja catholica. Receiosa de que a quizessem envenar, depois que
lhe serviram a laranjada em Saint-Cloud, apenas se alimentava de fructas.
Entrou no Vaticano no momento em que Pio IX almoçava. Arrancando da mão do
Papa uma chavena de chocolate, tomou-o soffregamente exclamando:
—Ao menos este não estará envenenado!
Sempre receiando uma cilada, não quiz recolher-se ao _hotel_. Foi preciso
consentir em que pernoitasse no Vaticano, n'uma camara visinha á de Pio IX.
A loucura era completa, manifesta. Maximiliano estava perdido. Fôra esse
crudelissimo desengano que esmagára a razão da pobre imperatriz.
Conduziram-n'a a Miramar, na esperança de que o aspecto de lugares
conhecidos e queridos lhe restituisse a razão. O povo de Trieste,
supersticioso como todo o povo, começou a consideral-a uma santa. Sim,
santa de martyrio, santa de soffrimento. Mas louca para toda a vida. A dôr
santificára-se n'ella em loucura. Deus fôra mais piedoso do que os homens
creados á sua imagem e semelhança.
Bazaine, sahindo do Mexico, abandonára o imperador ás represalias dos
juaristas. Antes de sahir, fizera lançar ao rio Sequia e ao lago Texcoco
todas as suas munições. Que refinada perversidade a d'esse homem, que a
Providencia castigou tão justa e sabiamente! Diz-se até que Bazaine tinha
proposto a Juarez entregar-lhe Maximiliano por 50:000 dollars.
Naturalmente, Juarez, visto que Maximiliano ficava indefeso, achou caro.
Podia tel-o de graça logo que o exercito francez retirasse. E assim foi.
Juarez era mais esperto do que Bazaine, mas não menos ambicioso.
O que fazia entretanto o imperador Napoleão? Nada. Pedia a Maximiliano que
fugisse. Maximiliano respondia nobremente que um Habsburgo não sabia fugir
como um cobarde. Apenas consentiria em sahir como um imperador, renunciando
á corôa.
Foi n'este proposito que Maximiliano partiu para Vera Cruz, onde a corveta
_Dandolo_ o esperava. Mas ahi, quando pensava em restituir ao povo mexicano
a menos invejavel das realezas, o partido conservador fizera-lhe promessas
de homens e dinheiro. Maximiliano acreditou, com essa estranha credulidade
dos espiritos combatidos pelas grandes dôres. A esse tempo já tinha
recebido a noticia da loucura da imperatriz. Naufrago desesperado,
agarrou-se á primeira taboa de salvação, embora fragil, e talvez perfida,
que lhe offereciam.
A Providencia, sempre justa, preparava para Napoleão a derrota de Sedan, e
o exilio; para Bazaine o carcere, a infamia, o homizio. Poucas vezes a
historia nos assignala um ajuste de contas tão rapido e completo; uma
liquidação de responsabilidades que tanto satisfaça a consciencia humana.