D. Gutierrez de Estrada, presidente da deputação mexicana que foi a Miramar
offerecer a corôa imperial ao archiduque Maximiliano, dissera-lhe:
—Vimos pedir a vossa alteza que se digne subir ao throno do Mexico, aonde
vos chamam os votos de um paiz ha longo tempo dilacerado pela guerra, pois
que possuis o segredo de conquistar os corações e a sciencia difficil de
governar.
O archiduque respondeu:
—Que accedia aos desejos do povo mexicano, ao qual daria um governo liberal
e constitucional, e que mostraria que a liberdade é compativel com o
regimen da ordem.
Em seguida a esta troca de pequenos discursos, houve permutação de
juramentos sobre o Evangelho: o imperador jurou fazer a felicidade do
Mexico; D. Gutierrez, em nome do Mexico, jurou fazer a felicidade do
imperador.
Como são falliveis e fallazes, tantissimas vezes, estes juramentos
solemnes, cuja realisação não depende dos homens, que os fazem, mas apenas
de Deus, que possue o segredo do futuro!
Maximiliano fiou mais de Napoleão III que d'essa mysteriosa força
reguladora dos destinos humanos, que uns chamam Providencia, outros Acaso.
O deus das Tulherias promettia protegel-o, e tanto bastava n'uma época em
que Bismarck não monopolisava ainda a direcção politica da Europa. De mais
a mais, havia ao lado de Maximiliano uma gentil mulher que o amava, e que
se ufanava de que o marido podesse cingir a cabeça com a corôa de um novo
imperio, de que elle viria a ser o creador ostensivo.
A serpente da tentação silvára o perfido hymno, que já tinha sido escutado
por Eva no Eden. E, pondo os olhos nos sonhados deslumbramentos do futuro,
o par ditoso de Miramar começou a esquecer o seu dôce passado desambicioso,
o _chalet_ florido da collina, as salas tranquillas do castello, o mar
azul, que, mais leal do que o povo mexicano e que o imperador dos
francezes, nunca lhe tinha suggerido a idéa de uma aventura perigosa.
O dia da partida chegára, a fragata austriaca _Novara_ e a fragata franceza
_Thémis_ fundearam no porto de Trieste, todo um enxame de archiduques e
archiduquezas concorrêra ao bota-fóra, o burgomestre, em nome dos
habitantes da cidade, significára ao novo imperador a viva saudade que elle
deixava, e Maximiliano, abraçando o burgomestre, sentira os olhos inundados
de lagrimas, e o coração atormentado por um vago presentimento de desgraça.
—Parece-me que não voltarei mais! dissera o imperador.
Mas a salva festiva de cem tiros, no momento em que o imperador embarcava,
viera suffocar as suas palavras. A _Novara_, desfraldando as côres do
Mexico, esperava baloiçando-se. As archiduquezas atiravam, na ponta dos
seus finos dedos patricios, beijos alados que iam, adejando, procurar a
face da imperatriz. Os archiduques acenavam ao imperador com os seus lenços
brancos, que fluctuavam como outras tantas azas de garça. A multidão seguia
com um olhar attento, curiosamente interessado, todo esse extraordinario
movimento de bateis que ondulavam em torno da _Novara_. E no _chalet_ da
collina de Miramar,—o dôce ninho de amor agora solitario—a madresilva
chorava em lagrimas de perfume insinuante o abandono em que a deixavam os
dois ingratos coroados. E o castello, na grandeza lutuosa das suas ameias,
parecia comprehender as lagrimas da madresilva saudosa, e responder-lhe
agoirentamente: «Como é louca a ambição! como é cega a cobiça!»
A _Novara_, seguida da _Thémis_, levantou ancora, e de pé, no tombadilho,
tanto quanto os oculos de longa vista podiam abranger, Maximiliano, immovel
como uma estatua, voltado para Miramar, devorava com os olhos o seu bello
castello solitario.
Com a prôa na Italia, a _Novara_ navegava desfraldando a bandeira do
Mexico.
Maximiliano queria desembarcar em Italia para ir a Roma. Fazer o quê?
Regular questões religiosas do Mexico, disse-se então. Pedir ao Padre Santo
que abençoasse uma empresa aventurosa, porque não? As almas apprehensivas,
como a sua, precisam, nos lances arriscados, procurar na fé um ponto de
apoio, quando a esperança lhes sorri duvidosa.
Mas em Roma um aviso anonymo, affixado nas ruas da cidade santa, devia ter
soado aos ouvidos de Maximiliano como uma prophecia terrivel, que vinha do
seio mysterioso do incognoscivel.
Dizia o aviso que Roma inteira lêra com surpreza:
Maximiliano non ti fidare,
Torna sollecito a Miramare!
Il trono fradicio di Montexuma
È nappo gallico, colmo di spuma.
Il «Timeo Danaos» qui non ricorda
Sotto la clamide trova la corda.
O que, traduzido em portuguez, dirá, pouco mais ou menos:
Maximiliano, a Miramar
Deves solicito voltar,
Que o throno fragil de Mont'zuma
É como a taça cheia d'espuma,
Um laço armado pela França.
Do _Timeo Danaos_ a lembrança
Quem a não pesa e a não recorda
Em vez da purpura acha a corda.
Com que funda e dilacerante angustia não sahiria de Roma o imperador do
Mexico, a cujo encontro affluiam as felicitações festivas e as saudações
lisonjeiras!
O _diario de viagem_ de Maximiliano accusa claramente o desalento intimo da
sua alma. «O mundo, escrevia elle, é pequeno, e todavia como se é baldeado
de uma a outra extremidade da terra! Felizes os que se encontram!»
A _Novara_, sempre seguida pela _Thémis_, passou na ilha da Madeira, onde
Maximiliano havia estado em 1852. Então, doze annos antes, consignára nas
suas MEMORIAS uma impressão deleitosa, de despreoccupada felicidade:
«Surge-me das ondas uma ilha encantada, resplendente dos raios de um sol
tropical. O mar era transparente, ceruleo, o ar impregnado de perfumes
inebriantes. Collinas basalticas, côr de violeta, relevavam d'entre o
arvoredo cuja folhagem, de um verde brilhante, accentuava todas as energias
da primavera. A minha alma, extasiada, inundava-se de alegria. Uma celeste
pureza dominava o quadro...»
Agora, doze annos corridos na existencia placida de Miramar, a impressão
que Maximiliano recebêra na ilha da Madeira fora bem differente. A corôa do
Mexico, que não começára ainda a ser de espinhos, era já, comtudo, um fardo
pesado. Vindo a terra, o imperador visitara os mortos, entrára no cemiterio
do Funchal, e colhêra de uma campa solitaria uma rosa triste, que conservou
toda a sua vida, mais como uma reliquia, do que como uma simples
recordação.
A 28 de maio de 1864 a _Novara_ avistou a costa do Mexico.
Em Miramar deviam florir áquella hora, em toda a pompa da primavera, os
jardins do castello abandonado.
No Mexico uma faxa de areia, arida como um deserto, desenrolava-se ardente,
apesar do fluxo refrigerante das ondas.
Á aridez da terra correspondêra a aridez da recepção. A _Thémis_ tinha-se
adiantado para annunciar a chegada dos imperadores, mas, apesar dos
esforços que o almirante Bosse empregára para salvar as apparencias, o povo
do Mexico conservou uma attitude indifferente, porque não diremos, hostil?
Que contraste entre esta recepção glacial e a despedida affectuosa de
Trieste!
Maximiliano começou a comprehender a terrivel verdade que o pasquim de Roma
lhe annunciára.
A administração franceza, a fim de tranquillisar o espirito sobresaltado do
imperador, comprou talvez a peso de oiro um enthusiasmo postiço, que
tibiamente principiou a manifestar-se desde a estação de Loma Alta, a
ultima do caminho de ferro.
D'ahi por diante os imperadores viajaram n'uma caleche ingleza, que não
seria digna de hospedes menos qualificados. E a sua comitiva pernoitava ao
desabrigo, como uma caravana de bohemios, que apenas podiam contar com uma
hospitalidade desconfiada.
A 12 de junho, os imperadores fizeram a sua entrada solemne na capital.
Todo o apparato d'esse acto official orçou por uma _mise-en-scène_
mediocre. Em nenhuma parte encontrou Maximiliano a franqueza que devia
corresponder ao convite que lhe fôra feito para acceitar a corôa do Mexico.
Á noite houve espectaculo de gala, a que os imperadores assistiram, mas a
maior parte dos camarotes conservou-se fechada.
Um protesto eloquente, posto que tacito, contra a invasão de um soberano
estrangeiro.
A melhor sociedade do Mexico brilhava pela sua ausencia.
O melancolico palacio de Chapultepec, que fôra destinado para residencia
dos imperadores, contrastava dolorosamente não já com a opulencia, senão
tambem com o conforto do castello de Miramar.
E quando os dois esposos coroados quizeram, á volta do theatro,
confidenciar as suas doloridas impressões d'aquella primeira noite do
imperio, acharam-se isolados n'um velho casarão desguarnecido, que tinha
sido residencia dos monarchas astecas e dos vice-reis[7].
Tal era o palacio de Chapultepec, que devia hospedar os fugitivos do
poetico castello de Miramar!