D. Feliciana desembestou com o rei:

Meu monarcha, o vosso amor

e vosso trato amoroso

tanto tem de primoroso

quanto de pai e senhor;

mas, ainda assim, causa dôr

e não com pouca rasão

vêr que esta vossa affeição

muito tem que a desdoura,

pois adorais uma _Moura_,

sendo vós um rei christão!

A _Flôr do Sol_ respondeu:

Com rara desigualdade

vós murchaes, ella florece:

Anna deidade parece,

Feliciana _de idade_.

Deixai pois essa vaidade

porque a todos nos enfada,

pois que sendo só chamada

ser escolhida queiraes,

maiormente quando estaes

affeita a ser engeitada.

Que tolas! tudo isto por que?! Façam favor de lembrar-se da historia da

faca!

O _calembour_ de D. Anna de Moura era, como hoje dizemos, uma _piada_ á

outra, que foi uma grande _calemburista_ do seculo XVII.

Exemplo: D. Anna de Moura tinha um irmão, que se chamava Gil Vaz Lobo.

Um dia as duas freiras travaram outra das suas muitas pegadilhas. D.

Feliciana disse á rival:

—Se vos não aquietaes, dou-vos com vosso irmão pela cara (_Gilvaz_).

O rei pediu a alguem que lhe fizesse versos desconsoladores para D.

Feliciana, e mandou-lh'os. Vai ella, agastada, respondeu:

Mais que louco atrevimento

é disparate cantado

avaliar por cuidado

_o que é só divertimento_.

Tome lá, real senhor! Não foi só o marquez de Cascaes que lhe disse a mesma

coisa.

Sempre a faca!

Historias de Reis e Principes · 第 42 / 74 题