O marquez de Cascaes é que fallou claro a el-rei D. Affonso VI.
Entrou, com uma faca na mão, na camara real, em occasião que o monarcha
dormia profundamente.
Sacudiu-o, accordou-o, e pediu licença para dizer uma grande verdade.
D. Affonso VI, se fosse um rei a valer, teria mandado cortar immediatamente
a cabeça ao ousado fidalgo que o ia accordar no melhor do seu somno, não
para lhe levar um copinho de leite quente, mas para lhe dizer uma grande
verdade muito fria!
Era coisa que um rei podesse soffrer! Nem um vassallo a soffreria de boa
mente, quanto mais um rei! Imaginemo-nos accordados por um crédor,
violentamente, para nos dizer que lhe devemos ainda o capital e os juros. É
lá coisa que possa tolerar-se!
Mas D. Affonso VI, recebendo a faca que o fidalgo trazia na mão, limitou-se
a dizer:
—Lá vem o marquez com alguma das suas!
Ora se tudo isto não basta para caracterisar um rei! Accordam-no de
repente, e não se zanga! mettem-lhe uma faca na mão, e fica com ella!
pedem-lhe licença, ainda por cima, para dizer-lhe uma grande verdade, e o
rei responde bonacheironamente: «Pois diga lá!...»
É preciso não ter... alma!
Vai o marquez, e diz:
—Senhor, vós nascestes tolo.
E o rei continúa ouvindo, pacientemente, de faca na mão!
Podia o marquez ter-se ficado por aqui, que já não era pouco nem mau, mas
carregou na tecla, visto ter achado brando o teclado.
—Sois doente, e cheio de enfermidades, accrescentou.
E o rei, sempre de faca na mão, pediu mais.
Então o marquez queimou o seu ultimo cartucho:
—Nem sois para casado.
Era o mais que se podia dizer! Como havia de servir para rei um homem que
não servia para marido?! Rua com elle: era a traducção.
E o rei, diz o author das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, concordou
com o marquez de Cascaes!
N'esse mesmo dia, 23 de novembro de 1667, D. Affonso VI assignou um termo
de desistencia em favor de seu irmão.
Eis-aqui a synthese de um reinado.
A faca do marquez de Cascaes ha de ficar eternamente na historia portugueza
como symbolo de boa administração: corte-se tudo o que não presta.
Fizesse-se assim sempre, e em tudo, e as coisas iriam melhor...
Sabe a gente estes e outros factos, que testemunhas contemporaneas deixaram
memorados; sem embargo, D. Affonso VI tem uma tradição galante, de
aventuras amorosas... armadas no ar como os castellos de Hespanha.
Eu sei que me corre o dever de ser mais discreto do que a historia. Sei
isso. Não irei revolver as monstruosidades escandalosas da nullidade do
casamento de D. Affonso VI. Nada d'isso. Procurarei apenas, na vida do
successor de D. João IV, o que possa haver de contavel em materia de
galanteria com mulheres.
Supponham que nasceu n'um monturo uma flôr. Tem-se visto. Eu arrancarei
delicadamente a flôr, sem tocar no monturo.
O snr. Andrade Corvo, n'um bello romance historico que eu anteponho, com
muita proeminencia, a varios livros do mesmo genero, á MOCIDADE DE D. JOÃO
V por exemplo, conta as proezas galantes que D. Affonso VI fizera por amor
da _Calcanhares_, uma hespanhola.
Agora, que estão publicadas as MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA,
sabe-se que o facto é inteiramente verdadeiro, porquanto o author d'este
livro, seja frei Alexandre da Paixão ou não seja, escreve com toda a sua
authoridade de contemporaneo:
«Acabado o dia soube a rainha que em uma janella do Paço estivera vendo a
festa uma mulher conhecida tanto pelo nome, como pela vida, celebrada
pela alcunha de _Calcanhares_, sustentada para feitiço de sua magestade.»
A este simples periodo de um manuscripto do seculo XVII foi o snr. Corvo
buscar habilmente todos os magnificos episodios a que, no seu romance, a
_Calcanhares_ serve de pretexto.
Muita gente, sempre de pé atraz com D. Affonso VI, perguntava, depois de
ter lido _Um anno na côrte_: Mas esta _Calcanhares_ existiu ou não existiu?
Ahi fica dada a resposta.
O sr. Corvo foi até excessivamente meticuloso como romancista historico.
Andou procurando nos codices do seculo XVII, escrupulosamente, certas
minucias, que então não estavam ainda divulgadas, como hoje, pela
publicação das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA.
Assim, por exemplo, o rei, referindo-se no romance do snr. Corvo á rainha
D. Maria de Saboya-Nemours, trata-a por _Brichota_, com sem-ceremonia
contraria á etiqueta.
Brichota era synonymo de _estrangeira_.
Pois bem. Lá diz o author do famoso codice: «Respondeu-lhe el-rei que lhe
não desse nada da _Brichota_, que fosse, e estivesse, e se ella
fallasse...» O resto não digo eu ainda que me queimem, mas disse-o el-rei
D. Affonso VI.
Este monarcha não tinha papas na lingua, e por isso não estranhou a
descompostura, núa e crúa, que lhe pregou o marquez de Cascaes.
Eu possuo um livro precioso como subsidio para a historia do reinado de
Affonso VI. Intitula-se VITA DI MARIA FRANCESCA DI SAVOIA-NEMOURS, REGINA
DI PORTOGALLO, PER IL BARONE GAUDENZIO CLARETTA. O meu exemplar, comprado
no espolio do visconde de Borges de Castro, é ricamente encadernado, e tem
uma dedicatoria do proprio author.
Pois ahi, a pag. 100, lê-se esta passagem, referente ao rei:
«_... nan era privo di un tal qual spirito, quantumque non sapesse nè
leggere, nè scrivere ed usasse basse espressioni, come, per esempio: vá
bugiar... etc._»
Fiquemos por aqui.
Os grandes amores romanticos de D. Affonso VI tiveram por palco o convento
de Odivellas.
Calumnia-se D. João V quando se diz que elle desacreditou Odivellas.
Aquillo já vinha de traz.
D. Fernando Corrêa de Lacerda, bispo do Porto, conta que D. Affonso VI «se
deu ao galanteio das religiosas, frequentando diversos mosteiros», e que
«sem reparar no decôro que se devia aos lugares sagrados, fazia abrir as
portas das igrejas, sendo alta noite», «succedendo muitas vezes que quando
em outros conventos se levantavam os religiosos para louvar a Deus, o
estava el-rei offendendo nas grades das suas igrejas.»
Umas d'estas freiras era D. Anna Angelica de Moura, conhecida em Odivellas
pela alcunha galante de _Flôr do Sol_.
«Tomou el-rei amizade illicita com D. Anna de Moura, freira de Odivellas;
fazia-lhe continuas assistencias com grande indecencia, e geral reprovação
de toda a côrte. O dia em que D. Anna de Moura fazia annos, foi el-rei
tourear no pateo de Odivellas: deu uma grande queda, de que esteve
sangrado, fazendo-lhe D. Anna de Moura a fineza de se sangrar tambem, lhe
mandou um grande presente, e quando a tornou a vêr, lhe disse que desejava
fazel-a rainha de Portugal.» (VIDA D'ELREI D. AFFONSO VI, publicada por
Camillo Castello Branco, e attribuida ao duque de Cadaval).
Pensa o leitor que esta dupla sangria foi uma galanteria original? Pois
está enganado.
No auto do MOURO ENCANTADO, do quinhentista Antonio Prestes, vem citado o
exemplo que a freira de Odivellas imitou:
... Foi como o meu,
que sou quem o arremendou
na guerra que a Pirro deu;
sendo o vencimento seu
uma mulher captivou
da qual vindo-se a vencer
por formosa, elle a amava,
cousa brava;
chegou ella a adoecer,
e se ella se sangrava
sangrava-se elle, que fava
de amor póde mais ser?
Decididamente: não ha nada novo n'este mundo. O caso está em saber a gente
onde os outros foram fazer mão baixa.
Ora havia em Odivellas outra freira, que D. Affonso VI deixou para fazer a
côrte a D. Anna de Moura.
Mulher de talento mas com cabellinho na venta, est'outra freira, que se
chamava D. Feliciana de Milão!
Dos seus desbragamentos de linguagem dão ampla noticia Perim no THEATRO
HEROINO e Suppico na COLLECÇÃO DE APOTHEGMAS.
As duas freiras rivaes descompozeram-se em verso... como se valesse a pena!