III

Vamos porém á historia do casamento da infanta D. Beatriz de Portugal com

Carlos III, duque de Saboya.

São conhecidos os pormenores da viagem da infanta pelo opusculo de Garcia

de Rezende, que anda nas suas obras, intitulado HIDA DA INFANTE D. BEATRIZ

PERA SABOYA; e pelo capitulo LXX, quarta parte, da CHRONICA DE D. MANUEL,

por Damião de Goes.

Já tivemos tambem occasião de referir-nos ao auto de Gil Vicente que tem

por assumpto a viagem de D. Beatriz.

No tomo II das PROVAS DA HISTORIA GENEALOGICA encontra-se a pag. 439 o

_Contrato do casamento_, e a pag. 445 a longa enumeração dos objectos que

constituiam o opulento enxoval da infanta.

Até aqui o que conhecemos dos livros portuguezes.

Agora passemos a soccorrer-nos da MEMORIA do barão Gaudenzio Claretta, a

fim de a divulgarmos em Portugal, por ser realmente muito pouco conhecida

entre nós.

O casamento realisou-se no 1.º de outubro de 1521, na igreja dos

dominicanos de Niza, lançando a benção nupcial o bispo de Vercelli,

Bonifacio Ferrero, que mais tarde se tornou conhecido pelo nome de cardeal

de Ivrea.

Realisaram-se pomposos festejos publicos, primando entre elles, pelo seu

luzimento, o torneio celebrado junto á porta Marina, no qual cavalleiros

hespanhoes, portuguezes e italianos quebraram lanças em honra dos augustos

esposos.

O codice citado por Herculano conta que a infanta, tendo chegado a Villa

Franca pela uma hora da tarde do dia de S. Miguel (29 de setembro), não

queria sahir da nau, o que fizera a instancias do duque de Saboya.

D'ahi inferiu Herculano que a a «má vontade com que ella desembarcou mostra

que este casamento não lhe era demasiadamente grato.»

Vejamos porém o que diz o texto da MEMORIA de Claretta:

«Seguendo ora il racconto del Revelli, narra questo storico che il giorno

29 verso _le tre ore di notte_ sbarcó la principessa a Villafranca, dove

di comandamento del Duca eransi portati per riceverla e complimentarla

Lodovico dei Malingri, Gioanni d'Orliè, il vescovo Geronimo d'Arsagis,

Onorato Cays ed i consoli seguiti dai primi gentiluomini del paese. L'ora

era già avanzata, _ma pur volle l'infante Beatrice_ la sera medesima

recarsi a Nizza traversando il colle di Montalban al chiaror di molte

faci, ed assisa su di una sedia soppannata di velluto e d'armellino,

sostenuta da quattro gentiluomini portoghesi. Giunta la comitiva ai

molini di Riquieri le acclamazioni più vive degli astanti annunziarono

l'incontro del Duca, il quale era giunto quella sera all'abbazia di San

Ponzio e non aveva voluto far l'ingresso nella città prima che fosse

arrivata la sposa.»

Vão grifadas as expressões que contrariam a versão do codice publicado por

Herculano.

Como vimos, Claretta apoia-se na narração de Revelli, e não podêmos suppôr

que Claretta occultasse a verdade, por isso que elle a patenteia com

inteira franqueza em varios lances da sua MEMORIA, especialmente, como

veremos, quando se refere á decadencia da côrte de Carlos III.

O condado de Niza offereceu á duqueza, como brinde de casamento, a somma de

cinco mil florins.

Pier Leone di Cavaglià, conego de Santa Maria della Scala de Milão, recitou

uma oração e um epithalamio, de que existe um exemplar na bibliotheca real,

sendo o opusculo que contém as duas peças litterarias muito raro na Italia.

_Oggidi assai raro_, diz em parenthesis Claretta.

A oração é em latim. Claretta dá alguns extractos, e commenta-os. Por

exemplo:

«... habes uxorem pulcherimam (_ei gli dice_) venustissimamque ut cernere

est virtutis lacte et cura ut scimus nutritam (_e questo era vero_)

fæcundam ut optamus.»

Claretta publíca na integra o epithalamio, tambem latino, que foi recitado

pela menina Veronica Leone, de quatro annos de idade apenas—_giovinetta di

quattro anni_.

N'esse epithalamio são grandemente exaltadas a belleza e castidade da

infanta D. Beatriz.

Claretta ainda cita outras congratulações poeticas que por essa occasião

foram publicadas.

A tres de outubro fizeram os duques de Saboya a sua entrada solemne na

cidade de Niza pela porta _Pairoliera_.

Segundo Revelli, cerca de tres mil portuguezes, ricamente vestidos, tomaram

parte no cortejo. Mas outros muitos, não menos ricamente vestidos,

assistiram como espectadores ao desfilar do prestito.

Agora vem algumas linhas de Claretta, que reproduzimos no texto para que

n'ellas sobresaia a impressão profunda, conservada pela tradição, que

causára em Niza o apparato que os portuguezes exhibiram n'esse acto:

«Soggiunge il citato storico (Revelli) che i Portoghesi sommarono a ben

cinque mila, e che fu cosa ammirabile il vedere tanti ornamenti d'oro,

gemme, selle de cavalli com briglie, staffe, speroni e cose simili tutte

formate di lame e piastre di puro oro, uccelli ed animali peregrini,

quantità incredibile de aromi di specie diversa, in una parola, tutto che

di prezioso dall' Africa e dalle Indie, con l'occasione dell' navigazioni

alle più remote parti, era stato apportato al re di Portogallo.»

Ahi fica mais essa recordação do nosso passado esplendor n'um tempo em que

a riqueza dos cavalleiros igualava a dos arreios dos cavallos, tudo

constellado do ouro e pedrarias, que o descobrimento da India nos permittia

exhibir por entre nuvens de exquisitos perfumes orientaes.

Segundo Claretta, foi no dia 8 de outubro que os noivos partiram de Niza

para o Piemonte.

Esta indicação confere com a do codice publicado no PANORAMA.

É porém durante a jornada que o author do codice se refere a violencias

praticadas contra os portuguezes que acompanharam a infanta.

Claretta cita os nomes dos personagens italianos que fizeram séquito aos

noivos até Vigone, um dos quaes personagens era o governador de Niza, com o

seu logar-tenente. Parece natural que aquelle funccionario e alguns mais

retrocedessem depois de haverem acompanhado os duques por algum tempo.

Accrescenta Claretta que em Vigone se despediu o cortejo, ficando ahi os

noivos, podendo suppôr-se que no gôso da sua lua de mel, livres finalmente

das impertinencias officiaes, que durante oito dias os tinham rodeado.

A 10 de fevereiro de 1522 expedia Carlos III patente de assentamento, a

favor de D. Beatriz, da quantia de nove mil e setecentos florins, com

hypotheca sobre diversos rendimentos publicos, e a 22 de abril passava

quitação ao rei de Portugal da somma de cento e cincoenta mil ducados, com

que a infanta fôra dotada por seu pai.

Os duques demoraram-se em Vigone até ao mez de março, recebendo ahi D.

Beatriz, por parte do estado do Piemonte, um donativo de cincoenta mil

florins, e o duque outro de duzentos mil.

Claretta diz que a entrada dos noivos em Turim fôra saudada pela população,

mas que as festas publicas bem depressa tiveram de ser ensombradas pela

noticia da morte do rei de Portugal, occorrida no mez de dezembro, _e pela

peste que os portuguezes haviam deixado em Niza, cujos habitantes

flagellára por longo tempo_.

A scena da ponte, descripta no codice do PANORAMA, quando uns cem

alabardeiros pozeram as alabardas aos peitos dos portuguezes, que queriam

acompanhar a infanta, teria uma explicação inverosimil pela versão de

Herculano, visto como o duque não havia ainda regulado a situação

financeira de um casamento que tanto lhe convinha e por que tanto instára.

Sendo tamanha, como refere Claretta, a multidão de portuguezes que

assistiram á recepção da infanta D. Beatriz, explica-se facilmente o acto

de violencia praticado pelos alabardeiros como medida prophylatica adoptada

pelo duque contra a invasão de uma epidemia que desde longos annos não

tinha deixado de fazer grande numero de victimas em Portugal. Póde mesmo

ter acontecido que um ou outro caso de peste se houvesse manifestado entre

os cinco mil portuguezes que por occasião das festas do casamento se

encontravam em Niza, incluindo os marinheiros dos dezoito navios que

constituiam a frota portugueza. É porém natural que os portuguezes se

offendessem com essa precaução, e desfigurassem as intenções de Carlos III

tomando-as á conta de descortezes para com a infanta, e de hostis para com

elles.

As condições hygienicas de Portugal eram realmente deploraveis então. A

peste tinha devastado o reino annos antes, e, referindo-se á morte de D.

Manuel, diz Garcia de Rezende na _Miscellania_:

N'este anno se finou

o gran rei D. Manoel,

quantos comsigo levou

a morte triste, cruel?

que rei, que gente matou?

duzentos homens honrados,

em que iam muitos d'estados,

vivos que então se finaram

de modorra, e escaparam

muitos já quasi enterrados.

Historias de Reis e Principes · 第 31 / 74 题