que Garrett reproduziu no terceiro volume do ROMANCEIRO com o titulo de _A
Ama_.
N'esse cantar, á maneira de solau, como o classifica Garrett, encontra-se a
seguinte allusão:
Mas não póde ser, senhora,
Para mal nenhum nascerdes,
Com esse riso gracioso
Que tendes sob _olhos verdes_.
Entre as eclogas de Bernardim Ribeiro encontra-se outro romance, que
Almeida Garrett tambem reproduziu com o titulo de _Cuidado e desejo_, e ahi
depara-se-nos uma outra referencia á côr dos olhos da sua dama:
Seus _olhos verdes rasgados_
De lagrimas carregados, etc.
Conhecemos dois retratos da infanta D. Beatriz de Portugal, duqueza de
Saboya.
Um foi publicado no periodico litterario UNIVERSO PITTORESCO. O artigo que
o acompanha tem a assignatura do fallecido escriptor S. J. Ribeiro de Sá.
O artigo nada adianta, mas o retrato é copia do que se encontra em Turim na
galeria dos retratos dos duques e duquezas de Saboya. Enviou-o para
Portugal o snr. Miguel Martins Dantas, hoje ministro de Portugal em
Londres, e então addido á legação de Sua Magestade Fidelissima em Turim.
O snr. Dantas fez acompanhar a copia d'esse retrato, que deve considerar-se
authentico, das seguintes indicações:
«Rosto claro, _olhos castanhos escuros_, cabellos castanhos claro, bonet
de velludo preto adornado de pedraria, e uma pluma branca; no pescoço um
adresse de pedras roxas engastadas em oiro, acabando com uma perola. Uma
especie de lenço, ao que parece de cambraia, com muito feitio occupa o
espaço do decote—em roda uma bordadura de ouro. O vestido é de fazenda
(não velludo) côr de castanha, atirando para roxo, com tufos brancos nas
mangas, rematados com pedras roxas tambem engastadas em ouro, punhos
brancos de renda, collar de perolas acabando com tres pedras iguaes ás
outras: desde a cintura até ao chão ha um cordão formado de pedras
azuladas engastadas em ouro.»
Pela descripção d'este retrato, existente na galeria de Turim, e que para
todos os effeitos, repetimos, se deve considerar authentico, sabemos que os
olhos da infanta D. Beatriz não eram _verdes_, como os que descreve
Bernardim Ribeiro, mas _castanhos escuros_.
D'aqui, pois, se póde tirar um novo argumento para reforçar a opinião,
aliás hoje dominante, de que não foi a infanta D. Beatriz a mulher amada
pelo poeta das saudades.
Do outro retrato só ha pouco tempo tivemos conhecimento.
No leilão da livraria do fallecido visconde de Juromenha compramos,
unicamente attrahidos pela indicação do respectivo catalogo, um livro
intitulado—NOTIZIE STORICHE INTORNO ALLA VITA ED AI TEMPI DI BEATRICE DI
PORTOGALLO DUCHESSA DI SAVOIA, CON DOCUMENTI PER IL BARONE GAUDENZIO
CLARETTA, MEMBRO DELLA R. DEPUTAZIONE SOVRA GLI STUDI DI STORIA
PATRIA—Torino, 1863, tipografia Eredi Botta, Palazzo Carignano.
Não tinhamos a menor noticia d'este livro, que versava um dos mais
interessantes assumptos da historia de Portugal, não obstante haver sido
publicado em 1863.
E como temos por indispensavel estudar a historia portugueza, para apural-a
com segurança, pelo confronto do que escreveram os nossos historiadores com
os dos paizes que comnosco tiveram relações politicas em determinadas
épocas, fossem essas relações devidas a um casamento, a um tratado, a uma
guerra ou a qualquer outra causa—systema este em que principalmente
baseamos o nosso estudo historico ácerca da Excellente Senhora, _Rainha sem
reino_,—procuramos a todo o custo obter esse livro, para nós desconhecido,
cujo titulo nos aguçára a curiosidade e o interesse de possuil-o.
Mal diriamos n'essa occasião que, tambem pela venda de um espolio,
adquiririamos pouco depois outro livro do mesmo author ácerca de uma época
não menos notavel da historia portugueza.
O barão Gaudenzio Claretta dá n'aquelle seu livro noticia de duas medalhas
que o duque de Saboya Carlos III mandára cunhar para perpetuar a memoria de
sua esposa.
Uma d'ellas tem de um lado a effigie de D. Beatriz com a legenda: _Beatrix
dux Sabavdie_ e do outro os escudos de Saboya e Portugal com esta
inscripção; _Lvsitaniæ regis filia an svæ æt. 36_.
A segunda medalha, que se encontra reproduzida no ante-rosto do livro,
representa a duqueza de Saboya, ricamente vestida, com a legenda: _Beatrix
decvs Portvgallie ducissa Sabavdie_.
Um argumento salta desde já aos bicos da penna.
Se Carlos III tivesse menospresado sua mulher pela revelação do segredo dos
seus amores com um cavalleiro portuguez, como Herculano deprehende do
codice por elle publicado no PANORAMA, não haveria decerto manifestado pela
morte da duqueza um tão profundo sentimento como aquelle que se traduz pelo
facto de haver mandado cunhar não apenas uma só medalha commemorativa—mas
duas.
A effigie de D. Beatriz, gravada na segunda medalha, é claro que nada póde
aproveitar para tirarmos a limpo a côr dos seus olhos. Mas a este respeito
basta o testemunho fidedigno, a que já nos referimos, do snr. Miguel
Martins Dantas. Em todo caso, a medalha é muito interessante, pois que
reproduz, e devemos suppôr que com fidelidade official, as feições da
infanta portugueza e a sua _toilette_.
A medalha representa-a com um toucado de pedras preciosas, que lhe
circumdam os cabellos apartados ao meio e cahidos em madeixas sobre os
hombros. Vestido de decote escanteado. Um pequeno cabeção de recortes com
tres voltas de pedraria. Collar pendente. A meio do peito uma cruz suspensa
da orla do decote.
As feições do retrato enviado pelo snr. Dantas ajustam-se inteiramente ás
da effigie que a medalha representa: Nariz comprido, bocca pequena e
grossa, testa alta, sobrancelhas pouco espessas e arqueadas, pescoço alto e
bem lançado, estatura erecta, porte gentil.