_D. Pedro, Ignez, e D. Sancho._
_Sanc._ ................... Senhor: ah! corre,
Vem esperar teu Pai.
_Ign._ .............. Oh Ceos!
_Ped._ ...................... Que dizes?
_Sanc._ Dirigido a Coimbra em veloz marcha
Partio da Corte Affonso, aqui não tarda.
_Ign._(7) Agora sim, minha desgraça he certa.
(7) _Fallando comsigo mesma._
_Ped._ (8) Meu Pai? oh Ceos!.. meo Pai?
(8) _Pensativo, e admirado._
_Sanc._ ........................ Coelho, e Pacheco,
Seus crueis Conselheiros, o acompanhão:
Toda a Corte, Senhor, em sobresalto
Ficou co'esta partida inesperada:
Mendonça que ligeiro vem trazer-te
A importante noticia, assim o affirma:
Murmura o Povo já de recusares
As nupcias de Beatriz, que applaudem todos.
_Ped._ Murmure muito embora, embora venha
Armado de poder, ardendo em raiva,
Da vingança, e das furias escoltado,
Esse a quem por meu mal devo a existencia;
Que, se intentar comigo ser tyranno,
Ha de em seu filho achar hum inimigo
Capaz dos mais tremendos attentados;
Que em casos taes os crimes não são crimes,
São forçoso dever das almas grandes.
Espera-lo não vou.
_Sanc._ ........... Senhor, que fazes?
_Ped._ O que me apraz fazer.
_Ign._ .................... Oh Ceos! Nem posso
Das tuas expressões horrorizada,
Soltar do coração tremulas vozes:
Fallem por mim as lagrimas que choro...
Não me consternes mais. Ah! vai, não tardes;
Vôa a encontrar teu Pai, se ver não queres
Estalar de afflicção a tua Esposa.
_Ped._ (9) Eu vou satisfazer-te, sim eu parto;
Vou rasgar do segredo a cauta venda:
Saiba, sim, saiba Affonso antes que chegue
Estes sitios a entrar, que Ignez habita,
Que a deve respeitar como Princeza;
Que inquebravel prizão a Ignez me liga.(10)
(9) _Depois de ficar hum pouco pensativo, diz resoluto._
(10) _Em acção de partir, e D. Sancho retendo-o._
_Sanc._ Oh Ceos! Não faças tal, melhor discorre;
Para lhe revelar hum tal segredo
Occasião mais opportuna espera:
A cólera azedar não vás de Affonso;
No transporte cruel das suas iras,
Bem sabes que he capaz...
_Ped._ ................... De que? De nada:
Mais de mim, do que eu delle, tremer deve...
Se ousasse contra Ignez... Ah! nem pensa-lo.
Para vingar o seu menor insulto
Seria pouco todo o sangue humano.
_Ign._ Bem me dizia o coração presago...
Meu mal he sem remedio; o proprio Esposo
He quem vai despenhar-me no sepulchro.
Meus crueis inimigos não me assustão:
O popular tumulto, hum Rei severo
Nada temo, ai de mim! a ti só temo.
Ah! Lembra-te, Senhor, do que juraste
Antes de conduzir-me ás sacras Aras,
Onde eu te não seguira, se primeiro
Tu me não prometesses guardar sempre
O devido respeito ao teu Monarcha,
E a paz não perturbar dos seus Dominios:
Tu não has de faltar, o tempo he este,
Que eu já prevía então: oh caro Esposo!
Lança do coração fataes transportes;
Não percas tempo, vai, corre a prostrar-te
Aos pés do grande Affonso; mas submisso,
Ao beijar de teu Pai a mão augusta,
Sobre ella de teus olhos chova o pranto.
Pondera que te perdes, que me perdes,
Se com elle furioso praticares;
Só nos pode salvar docil brandura:
Se não queres matar-me, sê submisso.
_Ped._ O temor de affligir-te pode tudo.
Respeitoso serei, terei brandura,
Se elle brandura igual usar comigo.
Nada temas, Princeza: Adeos. Eu juro
Pelos Ceos outra vez, e por ti mesma,
Que inda que o Mundo inteiro se me opponha,
Castro ha de ser de Portugal Rainha.(11)
(11) _Parte._
_Ign._ Não te apartes, D. Sancho, do seu lado:
Moderem teus conselhos seus transportes.
_Sanc._ Dai forças, justos Ceos, ás minhas vozes,
Lançai a Portugal piedosas vistas.