_D. Pedro, e Ignez._
_Ped._ Quanto são vagarosos, cara Esposa,
Os poucos melancolicos momentos,
Que distante de ti saudoso passo?
Só ao teu lado, Ignez, socêgo encontro,
Não existo senão quando te vejo.
_Ign._ Quanto me adoras sei, Principe amado;
Mais terno cada vez, mais extremoso,
As tuas expressões meu pranto excitão;
Porém d'amor agora não tratemos:
Bradando estão deveres mais sagrados
Que preencher te cumpre: antes de tudo
Tenho, Esposo, hum favor que supplicar-te:
Negar-mo-has tu, Senhor?
_Ped._ ................ Ignez, que dizes?
Tu, que tens na minha alma todo o imperio,
Ah! Podes duvidar que eu te obedeça?
_Ign._ Pois bem, Senhor, attende á tua Esposa,
Ouve meus rogos, e a meus rogos céde:
Se tu só junto a mim socêgo encontras,
Tambem só junto a ti socêgo eu tenho;
Porém quer o destino, o dever manda,
Que te apartes de mim por algum tempo.
_Ped._ Apartar-me de ti? Oh Ceos! Que escuto!
Apartar-me de ti? Castro he quem falla?
_Ign._ He Castro, sim, Senhor, aquella mesma,
Que preza mais que tudo a tua gloria;
Aquella, cujo brio não tolera,
Que seja o terno amor, que lhe consagras,
Motivo de infringires teus deveres.
Bem o sabes, Senhor, em nenhum tempo
Procurei ardilosa fascinante:
Cedi ao teu amor, porque te amava,
Porque em ti divisei huma alma terna,
Alma que o Ceo formou para encantar-me,
De todas as virtudes adornada.
Agora pois te cumpre conserva-las,
E a mim não consentir que as abandones:
Eu de mim propria assaz me horrorizára
Se visse que as perdias por amar-me.
Não, Principe querido, eu te supplico
Por este mesmo amor que a ti me prende,
Que á Corte sem demora te dirijas,
Onde teu Pai, talvez já fatigado
De te chamar em vão, te espera ancioso.
Obedecer aos Paternaes preceitos
He lei da Natureza, he lei sagrada;
Cumpri-la deves: vai...
_Ped._ ............... Basta: Eu conheço
Quaes meus deveres são, e sei cumpri-los;
Sei que he devida aos Pais a obediencia;
Mas igualmente sei que tem limites
A Paternal, sagráda authoridade.
Tenho pensado bem no que obrar devo:
Justos motivos, que não sabes inda,
Exigem que eu não cumpra as Regias ordens.
Obedecêra a hum Pai, se Pai tivera...
Mas eu não vejo mais do que hum tyranno
Nesse que o ser me dêo...
_Ign._ ................. Senhor, suspende:
He teu Pai; muito embora cruel seja;
Tu deves respeita-lo, e obedecer-lhe.
_Ped._ Se quer que lhe obedeça, e que o respeite,
Não me imponha preceitos deshumanos.
_Ign._ Não prometeste ha pouco á tua Esposa
Conceder-lhe o favor que te pedisse?
_Ped._ Vê pois quando não posso comprazer-te,
Se terei razões justas que me estorvem
De obedecer a hum Pai!
_Ign._ .............. Não póde have-las.
_Ped._ Tyrannos... que nos julgão seus escravos!(6)
Para nos flagellar o ser nos derão!
(6) _Sem attender a Ignez, transportado._
_Ign._ Tu me fazes tremer.
_Ped._ .................. Sabe em fim tudo.
Affonso, e o Monarcha de Castella
Acabão de firmar a nova alliança,
Em que sem meu consenso contratárão,
Qu'eu daria a Beatriz a mão de Esposo:
Para este fim á Corte sou chamado.
Affonso, não contente da violencia
Que ao meu coração fez, quando forçado
De rôjo me levou ante os altares
Para unir-me a Constança em laço eterno,
Pezado laço, que rompeo a morte;
Não contente de haver sido o motivo
De... Mas que digo? Não, ah! não foi elle;
Eu em lhe obedecer fui o culpado:
Que desenfrêe agora as suas iras;
Que rogue, que ameace; mesmo quando
Em secreto Hymenêo não estivessem
Ligadas para sempre nossas almas,
Debalde intentaria submetter-me
A hum jugo que a vontade recuzasse,
Reconheço porém que a pertinacia,
O despotico orgulho de seu genio,
Sem que attenda senão ao seu Tractado,
Quererá que por força o desempenhe.
Não convém descobrir nosso consorcio;
E outra escusa qualquer que eu fosse dar-lhe
D'irrita-lo inda mais só serviria.
Agora julga pois se partir devo.
Se me devo ir expôr, talvez... quem sabe!
A faltar-lhe ao respeito inteiramente...
Mas tu choras?.. Que vejo!.. Acaso temes?...
_Ign._ Nada temo por mim, por ti só temo:
Sim, quando vejo sobranceiros males,
Por desditoso amor originados;
Quando vejo engrossar a tempestade,
Que me denota proxima ruina;
Nem por isso me assusto: o que me afflige,
He vêr hum Pai, hum Reino, e o proprio Esposo,
Tudo por meu respeito alvorotado.
Em situação tão ardua, e tão penosa,
Té chego a desejar... (infeliz Castro!)
Que o sacrosanto nó que a mim te prende,
Este laço tão doce, e desejado,
Dos bens o maior bem que Ignez possue,
A ser possivel, hoje se rompesse,
Só porque tu podesses livremente
Obedecer a hum Pai, fazer ditosos
Por hum feliz consorcio dois Imperios.
Muito embora Beatriz te possuisse...
Mas que digo? Ai de mim! Nos braços d'outra!..
Nos braços d'outra vêr o amado Esposo!
Ah! não... não posso tanto, antes a morte.
_Ped._ He teu meu coração, será teu sempre.
Os laços de Hymenêo são as mais debeis
Prizões que a ti me ligão. Quando amamos,
Desnecessarios são ritos, promessas:
Mais força tem amor que os juramentos.
Inda que ante os altares sacros votos
De permanente fé, de amar-te sempre
Não tivesse a teu lado proferido,
Seria sempre teu, sempre te amára;
Sem que jámais podesse força humana
Separar corações, que amor uníra.
_Ign._ Mas que, talvez em breve sopeados,
Aos golpes da politica succumbão.
_Ped._ Para lhe resistir basta o meu braço.
_Ign._ O teu braço, Senhor, só deve armar-se
Para emprezas mais dignas do teu nome:
No lance melindroso em que nos vemos
Convém, mais que os furores, a brandura;
E apezar das razões que ponderaste,
Julgo que deves dirigir-te á Corte;
Pois talvez, se não corres a embarga-los,
Teu Pai avance os começados passos
Para as nupcias da Infanta de Castella,
Na esperança de ser obedecido,
E a ponto chegue que depois não possa...
_Ped._ Sem lhe dizer porque, já fiz saber-lhe,
Que taes nupcias jámais celebraria.
_Ign._ Mas não fôra melhor...