A noite estava escura.
Era uma d'essas noites de Petropolis, envoltas de nevoeiro e cerração.
Caminhavamos mais pelo tacto do que pela vista, difficilmente
distinguiamos os objectos á uma pequena distancia; e muitas vezes,
quando o meu guia se apressava, o seu vulto perdia-se nas trevas.
Em alguns minutos chegámos em face de um pequeno edificio construido á
alguns passos do alinhamento, e cujas janellas estavam esclarecidas por
uma luz interior.
--É alli.
--Obrigado.
O criado voltou, e eu fiquei junto d'essa casa, sem saber o que ia
fazer.
A idéa de que estava perto d'ella, que via a luz que a esclarecia, que
tocava a relva que ella pisára, fazia-me feliz.
É cousa singular, minha prima! O amor, que é insaciavel e exigente,
e não se satisfaz com tudo quanto uma mulher póde dar, que deseja o
impossivel, ás vezes contenta-se com um simples gozo d'alma, com uma
d'essas emoções delicadas, com um d'esses _nadas_, dos quaes o coração
faz um mundo novo e desconhecido.
Não pense, porém, que eu fui á Petropolis só para contemplar com enlevo
as janellas de um _chalet_; não: ao passo que sentia esse prazer,
reflectia no meio de vêl-a e de fallar-lhe.
Mas como?...
Si soubesse todos os expedientes, cada qual mais extravagante, que
inventou a minha imaginação! Si visse a elaboração tenaz á que se
entregava o meu espirito para descobrir um meio de dizer-lhe que eu
estava alli e a esperava!
Por fim achei um; si não era o melhor, era o mais prompto.
Desde que chegára, tinha ouvido uns preludios de piano, mas tão debeis
que pareciam antes tirados por uma mão distrahida que roçava o teclado
do que por uma pessoa que tocasse.
Isto me fez lembrar que ao meu amor se prendia a recordação de uma
bella musica de Verdi; e foi quanto bastou.
Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquella linda _romanza_;
os que me ouvissem tomar-me-hiam por algum furioso; mas ella me
comprehenderia.
E de facto, quando eu acabei de estropeiar esse trecho magnifico de
harmonia e sentimento, o piano, que havia emmudecido, soltou um trilho
brilhante e sonoro, que acordou os echos adormecidos no silencio da
noite.
Depois d'aquella cascata de sons magestosos, que se precipitavam
em ondas de harmonia, do seio d'aquelle turbilhão de notas, que se
cruzavam, deslisou plangente, suave e melancolica, uma voz que sentia
e palpitava, exprimindo todo o amor que respira a melodia sublime de
Verdi.
Era ella quem cantava!
Oh! não posso pintar-lhe, minha prima, a expressão profundamente
triste, a angustia de que ella repassou aquella phrase de despedida:
Non ti scordar di me
Addio!...
Partia-me a alma.
Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se uma sombra em uma das janellas;
saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permittiram
ver o que se passava na sala.
Sentei-me sobre uma pedra e esperei.
Não se ria, D***; estava resolvido á passar alli a noite ao relento,
olhando para aquella casa, e alimentando a esperança de que ella viria
ao menos com uma palavra compensar o meu sacrificio.
Não me enganei.
Havia meia hora que a luz da sala tinha desapparecido e que toda a casa
parecia dormir, quando abrio-se uma das portas do jardim, e eu vi ou
antes presenti a sua sombra na sala.
Recebeu-me sem sorpresa, sem temor; naturalmente e como si eu fosse seu
irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e
bastante confiança para dispensar o falso pejo, o pudor de convenção de
que ás vezes costumam cercal-o.
--Eu sabia que sempre havia de vir, disse-me ella.
--Oh! não me culpe! si soubesse!
--Eu culpal-o? Quando mesmo não viesse, não tinha direito de queixar-me.
--Porque não me ama!
--Pensa isto? disse-me com uma voz cheia de lagrimas.
--Não! não!... Perdôe!
--Perdôo-lhe, meu amigo, como já lhe perdoei uma vez; julga que lhe
fujo, que me occulto, porque não o amo, e entretanto não sabe que a
maior felicidade para mim seria poder dar-lhe a minha vida.
--Mas então porque esse mysterio?
--Esse mysterio, bem sabe, não é uma cousa creada por mim, e sim pelo
acaso; si o conservo é porque, meu amigo... não deve amar.
--Não a devo amar! Mas eu amo-a!...
Recostou a cabeça no meu hombro, e eu senti uma lagrima cahir sobre meu
seio.
Estava tão perturbado, tão commovido d'essa situação incomprehensivel,
que senti-me vacilar, e deixei-me cahir sobre o sofá.
Ella sentou-se junto de mim; e, tomando-me as duas mãos, disse-me um
pouco mais calma:
--Diz que me ama!
--Juro-lhe!
--Não se illude talvez?
--Si a vida não é uma illusão, respondi, penso que não, porque a minha
vida agora é você, ou antes a sua sombra.
--Muitas vezes toma-se um capricho por amor; não conhece de mim, como
diz, sinão a minha sombra!...
--Que me importa?...
--E si eu fosse feia? disse ella rindo.
--É bella como um anjo! Tenho toda a certeza.
--Quem sabe?
--Pois bem; convença-me, disse eu passando-lhe o braço pela cintura e
procurando leval-a para uma sala vizinha, d'onde filtravam os raios de
uma luz.
Desprehendeu-se do meu braço.
A sua voz tornou-se grave e triste.
--Escute, meu amigo; fallemos seriamente. Diz que me ama; eu o creio,
eu o sabia antes mesmo que me dissesse. As almas como as nossas quando
se encontram se reconhecem e se comprehendem. Mas ainda é tempo; não
julga que mais vale conservar uma recordação do que entregar-se á um
amor sem esperança e sem futuro?...
--Não, mil vezes não! Não entendo o que quer dizer; o meu amor, o meu,
não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá
sempre!...
--Eis o que eu temia; e entretanto eu sabia que assim havia de
acontecer; quando se tem a sua alma ama-se de uma só vez.
--Então porque exige de mim um sacrificio que sabe ser impossivel?
--Porque, disse ella com exaltação, porque, si ha uma felicidade
indefinivel em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma
existencia, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a
flôr da idade até a velhice caminham juntas para o mesmo horizonte,
partilhando os seus prazeres e as suas magoas, revendo-se uma na
outra até o momento em que batem as azas e vão abrigar-se no seio de
Deos; deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo-se apenas
encontrado, uma d'essas duas almas irmãs fugir d'este mundo, e a outra,
viuva e triste, fôr condemnada á levar sempre no seu seio uma idéa de
morte; á trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá
a sua bella mocidade; á fazer do seu coração, cheio de vida e de amor,
um tumulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrivel!...
A exaltação com que fallava tinha-se tornado uma especie de delirio;
sua voz, sempre tão doce e avelludada, parecia alquebrada pelo cansaço
da respiração.
Ella cahio sobre o meu seio, agitando-se convulsivamente em um accesso
de tosse.
V
Assim ficámos muito tempo immoveis, ella com a fronte apoiada sobre meu
peito, eu sob a impressão triste de suas palavras.
Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando a serenidade, disse-me em tom
doce e melancolico:
--Não pensa que melhor é esquecer do que amar assim?
--Não! Amar, sentir-se amado, é sempre um gozo immenso e um grande
consolo para a desgraça. O que é triste, o que é cruel, não é essa
viuvez da alma separada de sua irmã, não; ahi ha um sentimento que
vive, apezar da morte, apezar do tempo. É sim esse vacuo do coração que
não tem uma affeição no mundo, e que passa como um estranho por entre
os prazeres que o cercam.
--Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada!...
--E me pedia que a esquecesse!...
--Não! não! Ama-me: quero que me ame. Ao menos...
--Não me fugirá mais?
--Não.
--E me deixará ver aquella que eu amo, e que não conheço? perguntei
sorrindo.
--Deseja?
--Supplico-lhe!
--Não sou eu sua?...
Lancei-me para a saleta onde havia luz, e colloquei o lampião sobre a
mesa do gabinete em que estavamos.
Para mim, minha prima, era um momento solemne; toda essa paixão
violenta, incomprehensivel, todo esse amor ardente por um vulto de
mulher, ia depender talvez de um olhar.
E tinha medo de ver esvaecer-se, como um fantasma em face da realidade,
essa visão poetica de minha imaginação, essa creação que resumia todos
os typos.
Foi, portanto, com uma emoção extraordinaria que, depois de collocar a
luz, voltei-me.
Ah!...
Eu sabia que era bella; mas a minha imaginação apenas tinha esboçado o
que Deos creára.
Ella olhava-me e sorria.
Era um ligeiro sorriso, uma flôr que desfolhava-se nos seus labios, um
reflexo que illuminava o seu lindo rosto.
Seus grandes olhos negros fitavam em mim um d'esses olhares languidos e
avelludados que afagam os seios d'alma.
Um annel de cabellos negros brincava-lhe sobre o hombro, fazendo
sobresahir a alvura de seu collo gracioso.
Tudo quanto a arte tem sonhado de bello e de voluptuoso desenhava-se
n'aquellas formas soberbas, n'aquelles contornos harmoniosos que se
destacavam entre as ondas de cambraia de seu ropão branco.
Vi tudo isto de um só olhar, rapido, ardente e fascinado; depois fui
ajoelhar-me diante d'ella, e esqueci-me á contemplal-a.
Ella me sorria sempre, e se deixava admirar.
Por fim tomou-me a cabeça entre as mãos, e seus labios fecháram-me os
olhos com um beijo.
--Ama-me, disse.
O sonho esvaeceu-se.
A porta da sala fechou-se sobre ella; tinha-me fugido.
Voltei ao hotel.
Abri a minha janella, e sentei-me ao relento.
A brisa da noite trazia-me de vez em quando um aroma de plantas
agrestes que me causava intimo prazer.
Fazia-me lembrar da vida campestre, d'essa existencia doce e tranquilla
que se passa longe das cidades, quasi no seio da natureza.
Pensava como seria feliz vivendo com ella em algum canto isolado, onde
pudessemos abrigar o nosso amor em um leito de flôres e de relva.
Fazia na imaginação um idyllio encantador, e sentia-me tão feliz que
não trocaria a minha cabana pelo mais rico palacio da terra.
Ella me amava.
Essa só idéa embellezava tudo para mim; a noite escura de Petropolis
parecia-me poetica e o murmurejar triste das aguas do canal
tornava-se-me agradavel.
Uma cousa, porém, perturbava essa felicidade; era um ponto negro, uma
nuvem escura que toldava o céo da minha noite de amor.
Lembrava-me d'aquellas palavras tão cheias de angustia e tão sentidas,
que pareciam explicar a causa de sua reserva para commigo: havia n'isto
um quer que seja que eu não comprehendia.
Mas esta lembrança desapparecia logo sob a impressão de seu sorriso,
que eu tinha em minh'alma, de seu olhar, que eu guardava no coração, e
de seos labios, cujo contacto ainda sentia.
Dormi embalado por estes sonhos e só acordei quando um raio do sol,
alegre e travesso, veio bater-me nas palpebras e dar-me o _bom dia_.
O meu primeiro pensamento foi ir saudar a minha casinha; estava ainda
fechada.
Eram oito horas.
Resolvi dar um passeio para disfarçar a minha impaciencia; voltando ao
hotel, o criado disse-me terem trazido um objecto que recommendáram me
fosse entregue logo.
Em Petropolis não conhecia ninguem; devia ser d'ella.
Corri ao meu quarto, e achei sobre a mesa uma caixinha de páo setim; na
tampa havia duas lettras de tartaruga incrustada:--C. L.
A chave estava fechada em uma sobrecarta com endereço á mim: dispuz-me
á abrir a caixa com a mão tremula e tomado por um triste presentimento.
Parecia-me que n'aquelle cofre perfumado estava encerrada a minha vida,
o meu amor, toda a minha felicidade.
Abri.
Continha o seu retrato, alguns fios de cabello e duas folhas de papel
escriptas por ella e que li de sorpresa em sorpresa.