A carta tinha a data de 3; nós estavamos a 10; havia oito dias que ella
partira para Petropolis e que me esperava.
No dia seguinte embarquei na Prainha e fiz essa viagem da bahia, tão
pittoresca, tão agradavel, e ainda tão pouco apreciada.
Mas então a magestade d'essas montanhas de granito, a poesia d'esse
vasto seio de mar, sempre alisado como um espelho, os grupos de ilhotas
graciosas que bordam a bahia, nada d'isto me preoccupava.
Só tinha uma idéa--chegar; e o vapor caminhava menos rapido do que meu
pensamento.
Durante a viagem pensava n'essa circumstancia que a sua carta me
revelára, e fazia-me por lembrar de todas as ruas por onde costumava
passar, para ver si adivinhava aquella onde ella morava, e d'onde todos
os dias me via sem que eu suspeitasse.
Para um homem como eu, que andava todo o dia desde a manhã até a noite,
á ponto de merecer que a senhora, minha prima, me appellidasse de Judêo
Errante, este trabalho era improficuo.
Quando cheguei á Petropolis eram cinco horas da tarde; estava quasi
noite.
Entrei n'esse hotel suisso, ao qual nunca mais voltei, e emquanto me
serviam um magro jantar, que era o meu almoço, tomei informações.
--Têm subido estes dias muitas familias? perguntei ao criado.
--Não, senhor.
--Mas ha cousa de oito dias não vieram da cidade duas senhoras?
--Não estou certo.
--Pois indague, que preciso saber e já; isto o ajudará á obter
informações.
A physionomia sizuda do criado expandio-se ao tinir da moeda, e a
lingua adquiriu a sua elasticidade natural.
--Talvez o senhor queira fallar de uma senhora já idosa que veio
acompanhada de sua filha.
--É isso mesmo.
--A moça parece doente; nunca a vejo sahir.
--Onde está morando?
--Aqui perto, na rua de...
--Não conheço as ruas de Petropolis; o melhor é acompanhar-me e vir
mostrar-me a casa.
--Sim, senhor.
O criado seguio-me, e tomámos por uma das ruas agrestes da cidade
allemã.