XV

O commendador era d'uma actividade zelosa e multiplicada; conferenciava

com a D. Clementina, consultava o advogado, fallava ao juiz, convidava o

Mendes e o Dr. Roberto para membros do conselho de familia.

O Mendes ainda lembrava:

--a conciliação... seria bom concilial-os... aquillo ás vezes era o

diabo.--

--Nada, nada, estava reconhecido que elle era um grande tratante; era

preciso salvar a pobre senhora e a filha! que havia de ser da creança

com aquelles exemplos! não lhe diria!--

--visse na que se mettia! por elle estava prompto a acompanhal-o.--

O Doutor concordava tambem:

--era um triste remedio, mas era infelizmente o unico; ella ficaria

n'uma posição falsa, evidentemente falsa, condemnada pela brutalidade da

lei a um ostracismo perpetuo, inutil para a sociedade, como aquellas

antigas martyres que morriam entaipadas, mas que se lhe havia de fazer?

o indispensavel era poupal-a ao menos ás violencias d'um infame.--

Poucos dias depois ás onze horas da manhã uma carruagem parou á porta do

Alberto...

Sahiram dous homens e uma senhora ficou ainda.

Eram o juiz e um escrivão.

N'aquella manhã o Alberto recolhera tarde de casa d'Annita; o seu

espirito andava irritado com as contrariedades que de toda a parte o

rodeavam, e cheio de um mau humor canalha tinha ainda pouco tempo antes

espancado brutalmente sua mulher.

O juiz encontrou-a ainda com os olhos humidos de lagrimas, as palpebras

inchadas.

O Alberto, quando o magistrado se fez annunciar, sentiu-se invadir d'um

terror cobarde; foi todavia amavel, d'uma amabilidade ironica, quando

teve de dirigir-se a Ermelinda,

--Se ella quer...

Ermelinda chorava, a Rosina chorava por ver chorar a mãe, e nos seus

olhos limpidos, um espanto se desenhava como que adivinhando que alguma

cousa de grave se estava passando.

Ermelinda hesitava; mas depois, como uma onda que se arremeça

precipitadamente na praia:

--Sim, senhor juiz, a fatalidade a isso me obriga; vou,

acompanhal-o-hei, mas hei-de levar a minha filhinha!

--Prepare-se então, minha senhora, a sua filha irá com V. Ex.ª, a lei

authorisa-me essa providencia; o seu deposito provisorio far-se-ha em

casa da D. Clementina.--

O Alberto perdeu a serenidade.

--Eu logo vi que havia de ser esse bandalho.--

--Lembro ao cavalheiro que está diante d'um magistrado,--observou-lhe

severamente o juiz.

Ermelinda sahiu para voltar logo; trajava de preto, um véo descido, as

lagrimas a saltarem silenciosamente dos seus olhos, a filhinha pela mão,

--Então nós vamos embora?--perguntou a Rosina.

--vamos, filha, para nunca mais voltar.--

--quero levar então as minhas bonecas.

O juiz affagou-a:

--A mamã dará outras depois--

e voltando-se para Ermelinda:

--V. Ex.ª não quer mais nada d'esta casa?

--não, senhor juiz, estou prompta.

--n'esse caso partamos.--

A filha do Jorge sentia-se fraca, o espirito abatido diante d'aquelle

momento, que ia cahir, como a louza d'um tumulo, sobre toda a sua

existencia, apagando-a para a felicidade; a Rosina sentia tremer-lhe a

mão e ao ver que a mamã continuava a chorar, os seus olhos d'uma candura

d'anjo mareavam-se de lagrimas tambem.

O juiz esperava, um ar sereno, de gravidade compungida.

Ermelinda fez um esforço; dirigiu-se ao marido, apertou-lhe a mão.

--Adeus, Alberto, sê feliz e perdoa-me!--

--adeus, senhora--respondeu seccamente.

A Rosina perguntou espantada:

--O papá não vem?

--não, filha, dá-lhe um beijo.--

O Alberto levantou a creança, beijou-a nervosamente, uma lagrima de

emoção rolou precipitadamente sobre a sua face.

--Adeus, filhinha!...

O juiz interveio:

--Vamos, senhora, poupe-se a estas scenas dilacerantes.

Desceram a escada; o Alberto viu-os descer, a Ermelinda primeiro com a

filha, depois o juiz, atraz o escrivão.

Uma voz de mulher, que vinha da rua, repercutiu na escada.

--Coragem, menina, estás livre d'esse monstro!--

Era a voz da D. Clementina. A carruagem rodou, n'um murmurio fremente de

calçada.

Passada a emoção de momento, o Alberto passeava phreneticamente no

gabinete.

--Então, ein, não fui comido! Tudo se conspira contra mim com mil

diabos!...

Pensamentos de vingança, d'uma desforra estrondosa, lampejavam no seu

cerebro escandecido; acalmava porém, reflectia:

--E agora era tirar de tudo o melhor proveito! que a levasse o

demonio! lá á pequena tinha-lhe um bocado de amisade, mas adeus, isso

passava.--

Ideias se encadeiavam n'uma associação tumultuosa, e a sua reminescencia

avivava as lembranças do passado, o namoro com ella, o casamento,

que--tinha sido afinal um logro porque tinha menos do que elle pensava--

a sua lua de mel, as primeiras questões, o seu emprego no Banco, a morte

do Jorge, a reconciliação com a Annita.

--eu fui um bocado violento, devemos confessar,--mas com um raio, não

era para me fazer isto!--comparava-a com a Annita, que o tinha aturado

um anno, vivendo na penuria, levando a sua dose, de quando em quando, e

afinal uma mulher de cunho, amando-o sempre, uma escrava dos seus

caprichos,

--e vou-me até lá, trago-a para aqui... e viva a Gatinha parda, com mil

diabos; muito se vae ella rir de toda esta trapalhada!... parece uma

comedia, hei-de lembrar ao Luiz Serra que faça de mim um personagem...--

Fluctuava já indecisa a imagem d'Ermelinda; esbatia-se na sombra diante

da figura arrebicada e _travessa_ da Annita,--que riria muito, e pediria

champagne para festejar a sua liberdade d'elle.--

--Vida airada, e nem se lembrava de tal! já devia ter sido ha mais tempo.--

Não o commovia o isolamento da casa; habituara-se desde muito ao seu

egoismo n'aquelle meio que quasi lhe era estranho; não sentia a

falta dos carinhos da espoza, nem das tranquinadas da filha que o

aborreciam! O que elle queria era dormir, descançar, quando vinha de

fóra,--aquelles seres que se moviam em volta d'elle affiguravam-se-lhe

sombras fluctuantes, como as visões de sonhos incompletos! E agora

parecia-lhe que tudo se havia desfeito, evaporado, abrindo a janella da

sua gelosia, vendo entrar o sol da liberdade n'uma poeira luminosa e

embriagante.

Foi d'ali direito para casa d'Annita; encontrou-a ainda na cama, uns

habitos preguiçosos de _cocotte_, deshonrando-se, se tinha de por-se a

pé antes da uma hora.

Sentou-se na margem do leito.

--Sabes Annoca, estou sem mulher!...

--sem mulher, conta lá isso--e sentou-se, o corpo recostado na almofada,

a camisa de rendas finissimas cahindo n'uma voluptuosidade preguiçosa

por sobre a redondesa dos seios, as espaduas nuas, o collo levantando-se

n'uma linha correcta d'uma côr leitosa e velludinea.--

Narrou-lhe tudo minuciosamente, com todos os incidentes; e no fim a

Annita, muito galhofeira, o corpo rebolando-se no leito, descobrindo-se

n'uma provocação concupiscente.

--Ah, ah, oh, deixa-me rir; com que cara não havias tu de ficar, e

dou-te os meus sentimentos, menino, dou-te os meus sentimentos; eu

tambem estou sem homem!--

Ria muito, umas gargalhadas limpidas, espadanando-se de encontro áquelle

caso tão serio, comparando a situação dos dous,

--nem de proposito, só a nós!...

--mas que graça lhe encontras tu!

--graça, pois não tem!... a modo que ficaste com pena... a Gatinha tem

ciumes, ouviste!...

beijou-o no pescoço, mordendo-o sensualmente, uma provocação

excitando-o, cheia d'umas caricias felinas.

--E estamos livres outra vez, é como d'antes!... agora sim que me agrada

isto!.... Vamos ser um do outro para sempre... valeu?

--Valeu, com mil demonios--e enlaçou-a nos braços, queimando-se na

quente languidez d'aquelle corpo, o olhar esvaecendo-se n'aquella nudez

appetitosa, d'um trigueiro rosado, uma pennugem negra maculando-a.

* * * * *

Alguns dias depois, no tribunal, em audiencia secreta, tinha logar o

julgamento da acção, que separava definitivamente de pessoa e bens os

conjugues Alberto de Sá e Ermelinda Jorge.

Estavam o Commendador, o Mendes, o Dr. Roberto, o Luiz Serra e o

Guilherme, cazado com a Amelinha Bastos, e ainda o Juiz, o escrivão, o

delegado do ministerio publico, os advogados.

Ermelinda estava com a filha a um lado, Alberto a outro, uns bellos ares

contristados d'uma gravidade composta.

Recolhidas as testemunhas o juiz dirigiu aos dous palavras prudentes de

conciliação, d'uma severidade amiga e triste.

A Divorciada · 第 58 / 63 题