O commendador era d'uma actividade zelosa e multiplicada; conferenciava
com a D. Clementina, consultava o advogado, fallava ao juiz, convidava o
Mendes e o Dr. Roberto para membros do conselho de familia.
O Mendes ainda lembrava:
--a conciliação... seria bom concilial-os... aquillo ás vezes era o
diabo.--
--Nada, nada, estava reconhecido que elle era um grande tratante; era
preciso salvar a pobre senhora e a filha! que havia de ser da creança
com aquelles exemplos! não lhe diria!--
--visse na que se mettia! por elle estava prompto a acompanhal-o.--
O Doutor concordava tambem:
--era um triste remedio, mas era infelizmente o unico; ella ficaria
n'uma posição falsa, evidentemente falsa, condemnada pela brutalidade da
lei a um ostracismo perpetuo, inutil para a sociedade, como aquellas
antigas martyres que morriam entaipadas, mas que se lhe havia de fazer?
o indispensavel era poupal-a ao menos ás violencias d'um infame.--
Poucos dias depois ás onze horas da manhã uma carruagem parou á porta do
Alberto...
Sahiram dous homens e uma senhora ficou ainda.
Eram o juiz e um escrivão.
N'aquella manhã o Alberto recolhera tarde de casa d'Annita; o seu
espirito andava irritado com as contrariedades que de toda a parte o
rodeavam, e cheio de um mau humor canalha tinha ainda pouco tempo antes
espancado brutalmente sua mulher.
O juiz encontrou-a ainda com os olhos humidos de lagrimas, as palpebras
inchadas.
O Alberto, quando o magistrado se fez annunciar, sentiu-se invadir d'um
terror cobarde; foi todavia amavel, d'uma amabilidade ironica, quando
teve de dirigir-se a Ermelinda,
--Se ella quer...
Ermelinda chorava, a Rosina chorava por ver chorar a mãe, e nos seus
olhos limpidos, um espanto se desenhava como que adivinhando que alguma
cousa de grave se estava passando.
Ermelinda hesitava; mas depois, como uma onda que se arremeça
precipitadamente na praia:
--Sim, senhor juiz, a fatalidade a isso me obriga; vou,
acompanhal-o-hei, mas hei-de levar a minha filhinha!
--Prepare-se então, minha senhora, a sua filha irá com V. Ex.ª, a lei
authorisa-me essa providencia; o seu deposito provisorio far-se-ha em
casa da D. Clementina.--
O Alberto perdeu a serenidade.
--Eu logo vi que havia de ser esse bandalho.--
--Lembro ao cavalheiro que está diante d'um magistrado,--observou-lhe
severamente o juiz.
Ermelinda sahiu para voltar logo; trajava de preto, um véo descido, as
lagrimas a saltarem silenciosamente dos seus olhos, a filhinha pela mão,
--Então nós vamos embora?--perguntou a Rosina.
--vamos, filha, para nunca mais voltar.--
--quero levar então as minhas bonecas.
O juiz affagou-a:
--A mamã dará outras depois--
e voltando-se para Ermelinda:
--V. Ex.ª não quer mais nada d'esta casa?
--não, senhor juiz, estou prompta.
--n'esse caso partamos.--
A filha do Jorge sentia-se fraca, o espirito abatido diante d'aquelle
momento, que ia cahir, como a louza d'um tumulo, sobre toda a sua
existencia, apagando-a para a felicidade; a Rosina sentia tremer-lhe a
mão e ao ver que a mamã continuava a chorar, os seus olhos d'uma candura
d'anjo mareavam-se de lagrimas tambem.
O juiz esperava, um ar sereno, de gravidade compungida.
Ermelinda fez um esforço; dirigiu-se ao marido, apertou-lhe a mão.
--Adeus, Alberto, sê feliz e perdoa-me!--
--adeus, senhora--respondeu seccamente.
A Rosina perguntou espantada:
--O papá não vem?
--não, filha, dá-lhe um beijo.--
O Alberto levantou a creança, beijou-a nervosamente, uma lagrima de
emoção rolou precipitadamente sobre a sua face.
--Adeus, filhinha!...
O juiz interveio:
--Vamos, senhora, poupe-se a estas scenas dilacerantes.
Desceram a escada; o Alberto viu-os descer, a Ermelinda primeiro com a
filha, depois o juiz, atraz o escrivão.
Uma voz de mulher, que vinha da rua, repercutiu na escada.
--Coragem, menina, estás livre d'esse monstro!--
Era a voz da D. Clementina. A carruagem rodou, n'um murmurio fremente de
calçada.
Passada a emoção de momento, o Alberto passeava phreneticamente no
gabinete.
--Então, ein, não fui comido! Tudo se conspira contra mim com mil
diabos!...
Pensamentos de vingança, d'uma desforra estrondosa, lampejavam no seu
cerebro escandecido; acalmava porém, reflectia:
--E agora era tirar de tudo o melhor proveito! que a levasse o
demonio! lá á pequena tinha-lhe um bocado de amisade, mas adeus, isso
passava.--
Ideias se encadeiavam n'uma associação tumultuosa, e a sua reminescencia
avivava as lembranças do passado, o namoro com ella, o casamento,
que--tinha sido afinal um logro porque tinha menos do que elle pensava--
a sua lua de mel, as primeiras questões, o seu emprego no Banco, a morte
do Jorge, a reconciliação com a Annita.
--eu fui um bocado violento, devemos confessar,--mas com um raio, não
era para me fazer isto!--comparava-a com a Annita, que o tinha aturado
um anno, vivendo na penuria, levando a sua dose, de quando em quando, e
afinal uma mulher de cunho, amando-o sempre, uma escrava dos seus
caprichos,
--e vou-me até lá, trago-a para aqui... e viva a Gatinha parda, com mil
diabos; muito se vae ella rir de toda esta trapalhada!... parece uma
comedia, hei-de lembrar ao Luiz Serra que faça de mim um personagem...--
Fluctuava já indecisa a imagem d'Ermelinda; esbatia-se na sombra diante
da figura arrebicada e _travessa_ da Annita,--que riria muito, e pediria
champagne para festejar a sua liberdade d'elle.--
--Vida airada, e nem se lembrava de tal! já devia ter sido ha mais tempo.--
Não o commovia o isolamento da casa; habituara-se desde muito ao seu
egoismo n'aquelle meio que quasi lhe era estranho; não sentia a
falta dos carinhos da espoza, nem das tranquinadas da filha que o
aborreciam! O que elle queria era dormir, descançar, quando vinha de
fóra,--aquelles seres que se moviam em volta d'elle affiguravam-se-lhe
sombras fluctuantes, como as visões de sonhos incompletos! E agora
parecia-lhe que tudo se havia desfeito, evaporado, abrindo a janella da
sua gelosia, vendo entrar o sol da liberdade n'uma poeira luminosa e
embriagante.
Foi d'ali direito para casa d'Annita; encontrou-a ainda na cama, uns
habitos preguiçosos de _cocotte_, deshonrando-se, se tinha de por-se a
pé antes da uma hora.
Sentou-se na margem do leito.
--Sabes Annoca, estou sem mulher!...
--sem mulher, conta lá isso--e sentou-se, o corpo recostado na almofada,
a camisa de rendas finissimas cahindo n'uma voluptuosidade preguiçosa
por sobre a redondesa dos seios, as espaduas nuas, o collo levantando-se
n'uma linha correcta d'uma côr leitosa e velludinea.--
Narrou-lhe tudo minuciosamente, com todos os incidentes; e no fim a
Annita, muito galhofeira, o corpo rebolando-se no leito, descobrindo-se
n'uma provocação concupiscente.
--Ah, ah, oh, deixa-me rir; com que cara não havias tu de ficar, e
dou-te os meus sentimentos, menino, dou-te os meus sentimentos; eu
tambem estou sem homem!--
Ria muito, umas gargalhadas limpidas, espadanando-se de encontro áquelle
caso tão serio, comparando a situação dos dous,
--nem de proposito, só a nós!...
--mas que graça lhe encontras tu!
--graça, pois não tem!... a modo que ficaste com pena... a Gatinha tem
ciumes, ouviste!...
beijou-o no pescoço, mordendo-o sensualmente, uma provocação
excitando-o, cheia d'umas caricias felinas.
--E estamos livres outra vez, é como d'antes!... agora sim que me agrada
isto!.... Vamos ser um do outro para sempre... valeu?
--Valeu, com mil demonios--e enlaçou-a nos braços, queimando-se na
quente languidez d'aquelle corpo, o olhar esvaecendo-se n'aquella nudez
appetitosa, d'um trigueiro rosado, uma pennugem negra maculando-a.
* * * * *
Alguns dias depois, no tribunal, em audiencia secreta, tinha logar o
julgamento da acção, que separava definitivamente de pessoa e bens os
conjugues Alberto de Sá e Ermelinda Jorge.
Estavam o Commendador, o Mendes, o Dr. Roberto, o Luiz Serra e o
Guilherme, cazado com a Amelinha Bastos, e ainda o Juiz, o escrivão, o
delegado do ministerio publico, os advogados.
Ermelinda estava com a filha a um lado, Alberto a outro, uns bellos ares
contristados d'uma gravidade composta.
Recolhidas as testemunhas o juiz dirigiu aos dous palavras prudentes de
conciliação, d'uma severidade amiga e triste.