--fosse ella homem e veria se a não fasia já assignar um requerimento ao
juiz!... mas iria ella mesmo a um advogado! Não, que eu fui muito amiga
de tua mãe, isto é,--considerou--ella era um pouco mais velha do que eu.--
--se eu tivesse pae, D. Clementina.--
--mas não tens, acabou-se, d'ahi não vem agora o remedio!... Descansa
que eu ámanhã lá vou a tua casa; boa! eu te direi o que tens a fazer!...
Sentia-se contente do seu papel activo, uma solução rapida a todos os
obstaculos, uma consciencia da sua imprescindibilidade, detalhando
planos com uma volubilidade agitada, communicando-lhe uma excitação de
energia, chicotando a sua mollesa hesitante e irresoluta.--
--Tu verás, tu verás como tudo ha-de correr bem! É preciso pôr termo a
esse martyrio.--
E quando a Ermelinda sahiu, a D. Clementina sentou-se a uma
escrivaninha, fez um pequeno bilhete n'uma calligraphia miuda e
redondinha, e chamando a Pulcheria:
--Toma, vae levar isto ao hotel, ao Snr. commendador.
--Ao Snr. commendador!
--Sim, então, fica-te ahi pasmada se te parece!--
* * * * *
O commendador palitava os dentes, recostado n'uma cadeira de braços,
muito satisfeito da sua digestão regular; o criado veiu:
--que a moça da D. Clementina tinha entregado aquillo.--
--Me não larga a carioca--pensou o brazileiro.
E abriu o bilhete; uma pallidez leve o invadiu, ficou immovel; e logo,
levantando-se, uma resolução tomada...
--que dissesse á criada, que lá ia já.--
Veiu para o quarto, releu de novo; a D. Clementina dizia-lhe:
«Peço-lhe o obsequio de me vir fallar immediatamente; trata-se de
arrancar a pobre Ermelinda a um martyrio cruel.»
--Mas que martyrio será este, ein?...--
--o marido talvez... me recordo agora que o Jorge ao morrer me disia que
ella não era feliz... ha-de ser isto, ha-de... pois cumprirei a minha
palavra... apesar de que a gente metter-se entre casados... veremos,
veremos... a D. Clementina me explicará!... É mulher para revolver meio
mundo.--
E apresentou-se em casa d'esta; atacou-o ex-abrupto.
--Contei comsigo e parece-me ter feito bem...
--Oh, minha senhora!...--
--Eu lhe digo, se eu fôra homem, trabalharia só, assim não me é possivel.--
--Mas estou inteiramente á sua disposição.
--Trata-se de obter o divorcio de Ermelinda.
--Mas isso é negocio tão grave--atalhou o commendador.--
--Por isso mesmo é que precisa ser resolvido e de prompto...
desculpe-me, eu nem lhe roguei que se sentasse, mas tenho as ideias
tão confusas...--
O commendador tomou logar no sophá; o Tótó rosnava roçando-lhe pelas
pernas.
--Oiça, ella esteve aqui ha um instante; é uma martyr, a pobre creatura!
se lhe visse o corpo... tudo são manchas de pancadas, nodoas negras que
o senhor não imagina.--
--Mas isso é uma barbaridade!...
--É, é, e para evitarmos que um dia qualquer aquelle monstro a mate, é
que a auxiliaremos na separação; é capaz de tudo o maldito!... E depois
se fôra só isso!...
--Então ainda ha mais?
--Olhe, vai bebado para casa, altas horas da noite, insulta-a,
injuria-a, tem-lhe dado cabo das joias, aquella casa está pela agua abaixo.
--Me espanta tudo isso que diz; não haverá exagero?!
--Exagero, exagero! Nós as mulheres só nos revoltamos, quando mais não
podemos soffrer; se a visse ha pouco, como eu a vi, está mirrada a pobre
da rapariga; não tem feito senão chorar!
--Me commove o seu estado, creia, D. Clementina!--
--Podera não, só se o commendador não tivesse coração!... E ás vezes
parece não o ter--disse n'uma queixa d'amor não correspondido.--
--Oh, minha senhora.
--E sabe o resto, o que lhe fez aquelle infame!
--Pois mais!...
--Ouça e verá! Outro dia, elle anda para ahi a trote com uma mulher
á tôa, uma Annita, a quem chamam a _Gatinha parda_!--
O commendador compoz os oculos com uma certa precipitação,
ruborisou-se-lhe o rosto n'um carminado subito; abaixou-se para fazer
uma festa ao Tótó, a primeira que lhe fasia em sua vida.
A D. Clementina continuou:
--Pois outro dia teve o descaro de entrar com ella em casa, de lhe dar
de jantar, de faser com que Ermelinda servisse a tal grande senhora.
--Oh, é de mais, é de mais--rompeu o commendador pondo-se em pé...
--Já vê que a pobre martyr não póde continuar a viver com aquelle verdugo.
--Não, não póde continuar, fez bem em me chamar; auxilial-a-hei em tudo
o que possa; cumpro mesmo com um dever; o Jorge tinha-me dito que ella
não era feliz, mas a morte veiu, não teve tempo de se explicar.--
--Pois ahi está tudo explicado.
--Infelizmente!... Mas ainda hoje eu irei fallar a um advogado, ein, e
lhe protesto que ella se libertará d'aquelle despota.
O espirito do commendador nunca se sentira tão agitado, como desde
aquella revelação da D. Clementina; por um lado, no seu coração uma
chamma d'amor relampejava, inflammando na sua labareda todas aquellas
recordações semi-extinctas que o tinham feito pensar em Ermelinda, como
um ideal que se não attinge,
--o baile da casa do Mendes, as noites da sueca, o debruçar do seu corpo
gentil nos braços d'elle, quando o Jorge fallecera, esta scena
sobre tudo, perpassavam-lhe na imaginação com um colorido quente e vivo,
como se ali refervessem ondas tumultuosas de vapor, que não tivessem por
onde se escapar.
E depois a revelação de que a Annita o trahia escandalosamente,
--ella, a quem elle tinha levantado da miseria, a quem dera sêdas e
brilhantes, a quem montara uma casa com todas as commodidades do
luxo,--para outro gozar, afinal--
--ah, era de mais!--protestava--e vingar-se-ia, vingar-se-ia
estrondosamente, despedil-a-ia como quem despede uma escrava, sentindo
apenas que não podesse cortar-lhe as carnes com um bom chicote, como no
Brazil se fazia aos negros! e a elle então tirar-lhe-ia a mulher como
uma boa desforra, desmascarar-lhe-ia aquella refalsada hypocrisia, daria
uma publicidade grande á sua infamia, exhaltando a martyr, e depois quem
sabia--talvez que no coração d'ella brotasse um perfume de gratidão e
amor!... apesar de que a lei condemnava-a brutalmente a um celibatario
perpetuo, uma lei estupida, que a collocava n'uma posição violenta e
falsa, fechando-lhe a felicidade como um pomo vedado,--mas veriamos,
veriamos.--
Foi d'ali ter com um advogado.
--Ella que requeresse, que requeresse, allegasse as violencias, os maus
tratos, as infamias do marido, paragrapho 4.º do art. 1204 do codigo,
elle dava-lhe já a norma, e não arrefecessem, conhecia bem aquelle
patife, um vadio que todos despresavam; se sabia a historia do banco,
--Não, não, ignorava...
--Pois tinha-se querido abotoar a creança, uma falsificação de firma, a
coisa abafara-se em attenção á pobre senhora...
--Ainda mais essa!... se admirava de tanta audacia!...
--É como lhe digo, e não descanse, não descanse. E o melhor será tambem
que ella requeira o deposito, o patife é capaz de acabar com ella.--
Sahindo do escriptorio do advogado o commendador começou a delinear o
melhor plano de se desfaser da Annita; lembrou-se primeiro d'um lance
dramatico
--elle iria, surprehendel-a-ia em flagrante, despedil-a-ia com
violencia, seria inexhoravel, impetuoso como um tufão.--
Mas a prudencia aconselhava:
--que a cousa podia tornar-se escandalosa, com aquellas mulheres tudo
era de esperar, depois um conflicto com elle, nada, nada, o melhor era
dar ao diabo tudo aquillo, despedir-se por uma carta, não querer saber
d'ella para mais cousa nenhuma; faria de conta que tinha perdido
aquelles cobres, não lhe fasiam falta, graças a Deus! e livrava o seu
nome de compromettimentos, era melhor, muito melhor...--
* * * * *
Onze horas da noite, a Annita recostada n'um sophá, o Alberto com a cabeça
poisada nos seus joelhos, o fumo d'um charuto a espreguiçar-se
voluptuosamente, como um thuribulo que a perfumasse, sentiu a criada bater
uma pancadinha na porta do gabinete.
--Que é?--perguntou contrariada.
--uma carta com toda a urgencia.
Levantou-se, o Alberto ficou a vel-a caminhar, um movimento gracil na
linha dos quadris, os braços nús sahindo provocadoramente das mangas
rendilhadas da camisa.--
--Então cartinhas a esta hora e urgentes, ah!... trahe o seu Albertinho,
ora deixe estar.--
--Oh, filho, não me bacoreja coisa boa.
Annita abriu a porta; viu-se a criada a estender uma carta, e fechou
logo, um saltinho de _travesti_ indo poisar n'uma banqueta que estava
aos pés do Alberto.
--Lê tu, filho.--
O Alberto tomou a carta.
--Eu conheço esta lettra com toda a certesa... vejamos a assignatura,
ah, é de S. Ex.ª o commendador--disse ironicamente,
--que não pôde cá vir, oh, que pandega, dormes cá, está dito; vou dizer
á Emilia que traga _sandwichs_ e champagne.--
--Espera lá, espera lá.--E o Alberto ao lêr, sentia-se tomar d'uma
pallidez desesperadora.--
--então!
--ouve:--«Minha Senhora»
--Ora essa, nunca me tratou assim.--
--não me interrompas, com todos os diabos!
--credo, que cara a tua!
--ouve lá:--«Sabendo do seu comportamento indigno a meu respeito,
envio esta carta como uma despedida formal na occasião talvez em que o
seu amante a possa lêr.