XIV

Por um d'esses phenomenos emotivos, de que só o capricho parece poder

dar razão, quando se trata d'uma mulher, Annita, regalada na sua

vida feliz, as ambições saciadas pela profusão aurea do commendador,

principiou a sentir em si um grande tédio nostalgico, desde aquella

noute, em que no S. João tinha visto o Alberto, o binoculo fito na sua

frisa, curvando-se depois para segredar com Ermelinda.

Vinham-lhe as recordações alegres do seu passado, buliçosas de vida e de

enthusiasmo, dominando na fluencia da sua luz as manchas escuras, que

lhe tinham feito conhecer o travor de tantas lagrimas.

Ao ver o Alberto com aquella mulher, que lhe chamava seu, experimentava

um pequeno ciume, uma como que irritação da sua vaidade, um obstaculo

que se levantava á exigencia d'um seu capricho.

--Quizesse eu e veriamos--dizia para se consolar, uma grande confiança

no seu poder de seducção, os labios contorcendo-se desdenhosamente.

--mas não, não queria--argumentava, buscando na sonoridade das negativas

um ponto de apoio em que firmasse a sua vontade, que se ia quebrantando..--

--era o que lhe faltava! agora que estava como n'agua!...

Scismava um pouco,

--mas tambem o commendador era tão aborrecido!... Ás vezes dava-lhe

vontade de o enviar ao diabo para que o aturasse--... e era galante, uma

pequena perfidiasinha...,--

O Alberto principiou a perseguil-a; offerecia-se com um grande cynismo

indigno, apparecia-lhe em toda a parte, passava vagarosamente

recostado n'uma _victoria_ de praça por debaixo da sua janella.

Resistira-lhe muito tempo, mas--elle era teimoso, ella não o ignorava--e

pouco a pouco amollecia n'aquella resistencia de vingança.

--Alem d'isso escrevia-lhe, protestava-lhe que não era feliz, que nunca

mais tivera um momento de santa alegria desde que rompera as relações

com ella...

--já o tinha desesperado bastante, o pobre rapaz,

sentia uma necessidade d'aquellas convivencias estroinas, que o

commendador condemnava, com o seu ar pacato, o bom conselho d'uma

prudencia moderada,--de que os excessos prejudicavam a saude--e além

d'isso mordia-a a curiosidade de saber d'Alberto as intimidades da sua

vida, das suas relações com aquella outra, por quem elle a havia

trocado, que lhe chamava seu com tanta segurança.--

E quando á tarde o Alberto passou recostado nas almofadas da _victoria_

um sorriso lhe escapou dos labios, fugitivo como uma promessa de perdão,

suave como uma esperança de paz.

Tiveram em seguida todas as palpitações quentes do romance; o Alberto

vinha quando o commendador não estava, sahiam disfarçados para o campo,

tinham as suas ceias no gabinete azul de mobilia estofada, quando a

_criada_ despedia o brazileiro sob o pretexto d'um grande encommodo de

cabeça, de que a menina fôra acommettida.

Annita achava tudo aquillo muito natural; partilhava o seu corpo entre

os dous com uma rectidão segura de consciencia, como quem cumpre um

dever de mercenaria e uma imposição do coração, espreguiçando a alma

n'esta bonhomia deleitosa, contente por se ver rodeada d'um conforto,

que tanto desejara.

O Alberto porém indignava-o aquella sociedade ignobil com o ouro do

commendador; parecia-lhe pouco decente servir-se d'uma mulher que outrem

sustentava, não porque elle achasse o facto indigno como um attentado

contra um principio de honra, mas porque era realmente reles não poder

sósinho sustentar todo aquelle luxo d'uma amante, ter de privar-se de

certas liberdades, occultar-se timidamente como um estudante de dezoito

annos.--

Meditava por isso um golpe de mestre; mordia-o a vileza das ambições de

fortuna, e desejava ser rico dentro de pouco tempo, custasse o que

custasse.--

Achava-se abjecto diante d'aquella secretaria, onde escrevia, quando no

gabinete da thesouraria do Banco negociantes entravam e sahiam,

ouvindo-se dentro o tilintar sonoro do ouro, os algarismos

precipitando-se em accumulações estonteadoras.

--Tentou as falsificações d'umas lettras de cambio; a fortuna

protegeu-o, ninguem deu por tal; a felicidade deu-lhe azas á audacia,

procurou fazer a imitação d'uma firma que assignava uma lettra no valor

d'alguns contos de reis.

Mas a direcção apercebeu-se a tempo; chamou-o ao gabinete.

--Estava despedido e não o mettiam n'uma cadeia por consideração para

com a pobre senhora filha d'um collega.--

Empallideu. Nem podia dizer se era de raiva, se era de dor;--aquella

despedida desbaratava todos os seus castellos doirados, sentia-se

pusillanime diante da perspectiva da vida de tribulações que se abria na

sua frente.

E quando chegou a casa, um forte abatimento o prostrava, quebrando-lhe

toda a energia; annunciou a sua despedida ainda com um ar de ironia...

--Sabes, Lili, aquelles senhores do Banco, uns figurões _honrados_,

despediram-me.--

--A ti!... perguntou surprehendida,--

--Sim, a mim, não lhes fazia lá conta; achavam-me demasiado tolo para

comprehender as suas gentilezas...--

Ermelinda teve a boa coragem consoladora das mulheres dignas;

parecia-lhe até que d'ora em diante o amaria mais, achar-se-ia com mais

força para se sacrificar por elle e levantava-o na ara do seu coração

por ter sido um homem honrado, que não quizera compartilhar as

indignidades d'uns ladrões engravatados.

--Ora não te afflijas, seremos um pouco mais economicos, emquanto te não

empregares de novo,--

Um enternecimento brando lhe dilatava a alma, acarinhando-o muito,

beijando-o affectuosamente na fronte, a sua mão cofiando-lhe o cabello

negro como que a excital-o corajosamente para as novas luctas, a

palavra derramando-se untuosa como um balsamo por sobre aquelle golpe da

adversidade.

Adormentava-o na dor, communicando-lhe a grande força da sua fé, conscia

de que praticava formosamente um dever, o coração sentindo-se

transbordar de sentimentos meigos e carinhosos, com que desejaria

n'aquelle momento alastrar o chão da sua existencia, tornando-lh'a suave

como um velludo.

Mas o Alberto achava-se ridiculo n'aquella posição; mordia-o cada vez

mais a inveja de fortuna, tinha sêde d'uma vingança estrondosa, em que

podesse abater o orgulho dos ricos que agora se affastavam d'elle;

queria sobre tudo humilhar--aquelles pulhas do Banco.

Quasi o importunavam os extremos de carinho que sua mulher lhe

dispensava, e na sua imaginação excitada por aquelle insuccesso

levantavam-se novos castellos de Hespanha, jogaria forte, o ouro viria

como uma grande torrente que o innundasse:

--faria um partida valente aos honrados burguezes, o commendador seria a

primeira victima, tirar-lhe-ia definitivamente a Annita, installando-a

n'um luxo de bom gosto, pompeando com a formosura d'ella por sobre a

gula concupiscente dos pelintras, que adornavam a porta do Suisso.--

Á falta d'uma occupação que lhe gastasse o tempo pavoneava-se pelas

mezas dos cafés, pelas esquinas das tabacarias, n'uma grande

ociosidade vadia, commentando as pequenas intrigas de theatro, o

escandalo ultimo, a marcha politica dos acontecimentos. E á noute a

baeta verde chamava-o com fascinações irresistiveis; recolhia tarde,

quasi sempre de madrugada, quando os lampeões principiavam a apagar-se,

e que o movimento dos operarios começava ruidoso, o silvo agudo das

fabricas vibrando atravez da neblina esfumada da manhã.--

Ermelinda esperava-o com mansa resignação,

--que lhe faziam mal aquellas noitadas, se não tinha pena d'ella que

ficava tão sósinha,--que a Rosina tinha despertado duas vezes e

perguntado pelo papá.--

Respondia-lhe com azedume, uma nortada rija,

--que o deixasse, não estava para a aturar.--

Cahiam-lhe no espirito aquellas palavras mansas e cordatas, queimando-o

como um cauterio de dever, preferindo que ella tivesse aquellas

resistencias asperas, aquelle tom acrimonioso das questões d'outr'ora.

Julgava esta mansidão uma hypocrisia, um egoismo refalsado:

--Como não tinha o paesinho que lhe aquecesse as costas, era aquillo,

tudo palavrinhas doces.--

E deitava-se brutamente fatigado, indifferente áquellas caricias que o

provocavam, aos affagos da pequerrucha que vinha muitas vezes beijal-o

com a alegria infantil das creanças, que despertam cedo.

Mas o jogo ia levando as economias de Ermelinda, o dinheiro escasseava,

recorria-se um pouco ao credito; o Alberto protestava ressarcil-a

de todas as perdas da occasião e pedia-lhe as joias com uma

suavidade lamuriosa,--

--que tinha entrado n'umas transacções que lhe dariam um lucro certo,

esperava obter um emprego com aquelle dinheirito--fazia muitos planos,

um futuro delicioso em que ella e a filha tomavam a maior parte.

--Levasse-as, levasse-as, oxalá déssem o resultado que elle desejava.--

Mas as joias entravam logo n'uma caixa penhorista; o Alberto jogava o

dinheiro, pagava ceias, levava vida folgada emquanto durava o producto

da venda.

Uma madrugada em que de vespera tinha empenhado uma d'essas joias,

entrou em casa ébrio, cambaleando, uma phraseologia de bordel

cumprimentando Ermelinda.

Foi preciso que a creada, juntamente com ella, o viessem auxiliar ao

subir da escada. Mas elle protestava--

--que não estava bebedo, apenas um poucochinho entrado--e pedia um beijo

á criada, uma trigueira que parecia descender directamente do chimpanzé,

de feições largas, rindo maliciosamente d'aquelle pittoresco Noemico.

E já no quarto, a palavra balbuciante, pedia a Ermelinda:

--que se lhe sentasse nos joelhos, haviam de fazer uma pirraça ao

commendador, os dois estariam abraçados quando elle chegasse. Uma grande

risada, estendia os braços tremulamente para a alcançar, fallando-lhe

com uma alegria inconsciente.

--Sempre o mesmo demonio, esta _gatinha parda_, que viesse!... então...

e a nossa filhinha, coitadinha da pequerrucha... que morreu--

e desatou a chorar, a embriaguez cahindo rapidamente n'um periodo

comatoso, a palavra rareando, as phrases tartamudeadas.

Ermelinda sentiu uma pallidez branca invadir-lhe a face; revoltava-se de

nojo perante aquelle homem, que via ébrio, patenteando na sua

inconsciencia a alma lodacenta, que ella porfiava em regenerar, em

attrahir para si.

--Oh, não, não era possivel, tudo estava acabado para ella.--

Mas ao mesmo tempo que se revoltava, sentia uma grande commiseração por

aquelle desgraçado, uma vontade de se sacrificar para poder salval-o, um

desejo sincero de perdoar, amando-o muito.

--Quem sabe, ás vezes qualquer cousa lhe podia fazer mal. Esgotemos o

calix até ás fézes, tratemol-o bem, tem-se visto tantos exemplos...--

Armava-se com raciocinios pacientes, encadeando-os logicamente, tirando

do seu coração de mulher energias com que resistir e vencer aquelle

estado, que se lhe affigurava anormalmente transitorio.

O Alberto porém ia perdendo o respeito pela casa; repetia a miudo

aquellas scenas de embriaguez, principiava a ser grosseiro, d'uma

grosseria enodoada de taberna.

A sua paciencia de mulher esgotou-se, recalcitrou fortemente, impugnou-o

com azedume.

--Até que emfim a _santinha_ arremessava a capa--respondeu-lhe com ironia.

--que não era santa, estava bem longe de o ser, mas que a paciencia

tinha limites, um grosseiro, isto fazia desesperar,--

--que repetisse, que repetisse,--e crescia para ella, a face affogueada

na congestão do alcool.

--Não era elle que fallava, tinha desculpa.--

--Ah, não, não era elle, pois tomasse lá--e esbofeteou-a

precipitadamente, arremessando-a contra um movel, animalmente feroz, a

colera faiscando no seu olhar injectado, toda a serenidade perdida.

--Era um inferno aquelle viver assim, infame!--

--Não o irritasse mais, se queria os ossos direitos.

--Não, aquillo assim não podia continuar.

--Quando quizesse, até lhe fazia um grande favor.

--Se o meu papá fosse vivo!...

--Assobia-lhe agora, dize-lhe que te venha ca valer.--

Ermelinda empallideceu; e logo uma onda de sangue a escaldou, uma

indignação que a suffocava.--

--Demais a mais cobarde, a insultar um morto que lhe tinha feito bem;

era revoltante!--os seus pensamentos atropellavam-se, como creanças

inscientes de um perigo, que se acotovellam sobre a aresta d'um

precipicio. Debruçava-se sobre a sua dôr intima e uma grande escuridão

sombria, onde apenas lucillava humilde a estrella do seu amor de

mãe, se estendia diante dos seus olhos.

--Era preferivel matar-se!--dizia.

Mas a imagem de Rosina levantava-se, como uma margarida branca a

indicar-lhe a grande lucta da vida; e foi d'ali abraçar-se n'ella

demoradamente, os olhos copiosos de lagrimas:

--Minha filha, minha pobre filha.--

* * * * *

Estas scenas continuavam; viviam mal, o Alberto, perdido uma vez o

respeito por ella, usava d'uma violencia brutal pela mais leve

questiuncula. Não queria que lhe exprobrassem o seu procedimento, e

Ermelinda tinha muitas vezes de fechar-se no quarto com a filha para

escapar á irritação da sua colera, do seu _mau vinho_. Um dia porém

levou o insulto mais longe; foi o cumulo dos opprobrios para ella;

trouxe-lhe a Annita, offereceu-lhe de jantar, fez com que Ermelinda a

servisse, obrigando-a pela ameaça da força.

--Oh, era de mais, era de mais tambem--dizia amargurando-se, imbelle

para romper com elle, para fazer valer os seus direitos, para se fazer

ao menos respeitar dignamente.

--que lhe batésse, perdoava-lh'o já, mas apresentar-lhe aquella mulher

em casa, obrigal-a a ser sua escrava, ver sobre o pescoço d'ella uma

joia que fôra de sua mãe,--não, não podia resistir--

mas quebrava nas lagrimas a sua reacção corajosa, não sabia mesmo o que

havia de fazer, causava-lhe medo o ver-se depois isolada, sem

forças para luctar, sentindo-se fraca e impotente diante do mundo que

ainda talvez a condemnasse.--

Emmagrecia rapidamente, a sua formosura emmurchecida pelos dissabores e

soffrimentos physicos, umas olheiras roxas occupando metade da face.

--Sahiria, iria tomar conselho com alguem, queria desabafar, não podia

mais!--

E procurou a D. Clementina; encontrou-a a brincar com o Tótó, muito

folgada na sua vida de solteirona, as carnes cada vez mais dilatadas

n'um contentamento de nutrição feliz.

--Oh, mulher, tu parece que vens do Repouso!

--Antes lá estivera, que não seria tão infeliz!

--Desabafa, menina, desabafa.--

--Oh, Pulcheria--chamou para a criada--leve a menina e dê-lhe

biscoutos--era preciso ter cautella em fallar diante de creanças--dizia

prudentemente.

--E então a Rosina que era tão viva.--

--Pois por isso mesmo; então menina, conta lá.--

Fez-lhe uma confidencia completa; narrou-lhe dolorosamente a inutilidade

dos seus enthusiasmos em o regenerar, as suas noites perdidas, as

violencias de que era victima

--que visse,--e mostrava-lhe os braços com largas echymoses, como nodoas

de tinta postas na tez assetinada.--

--Mas isso é um horror, filha, tu não pódes continuar a viver com esse

monstro.

--E ainda aquillo não era nada, que fosse vendo, que fosse

vendo--descobria-lhe o corpo, n'um impudor precipitado, nodoas roxas

apparecendo a macular a brancura da pelle.

--Mas eu tudo lhe perdoaria, tudo! a ultima, porém, que elle me fez, a

de me levar a casa aquella maldita mulher, obrigar-me a servil-a, oh! D.

Clementina, eu na presença d'ella não chorava, não lhe queria dar esse

prazer; mas depois, quando estive só, as lagrimas eram como punhos,

queimavam-me.

A D. Clementina enternecia-se, consolava-a com brandura, tinha para

suavisar-lhe aquellas dôres palavras dôces, d'uma ternura lacrimosa,

chorando tambem.--

--Mas nem mais um dia com esse homem! é tratar da separação, e isto já,

antes que elle te dê cabo do que é teu e da tua filha; ainda que não

fosse senão por causa da pequena, que está a ser escandalosamente

roubada, e depois que exemplo!... bradava ao ceu.--

Ermelinda tinha objecções fracas, adversativas hesitantes...

--mas que diria o mundo...

--o mundo, ora não faltava mais nada; estar uma victima ali debaixo do

jugo do carrasco e ainda por cima havia de fallar! que lhe importava a

ella! Com elle escusava tentar a felicidade, era remar contra a maré.--

--sabia isso, mas tão só, que vergonha!... e depois que posição a sua!

Nem solteira, nem casada!... Uma cousa assim!--

A Divorciada · 第 55 / 63 题