Por um d'esses phenomenos emotivos, de que só o capricho parece poder
dar razão, quando se trata d'uma mulher, Annita, regalada na sua
vida feliz, as ambições saciadas pela profusão aurea do commendador,
principiou a sentir em si um grande tédio nostalgico, desde aquella
noute, em que no S. João tinha visto o Alberto, o binoculo fito na sua
frisa, curvando-se depois para segredar com Ermelinda.
Vinham-lhe as recordações alegres do seu passado, buliçosas de vida e de
enthusiasmo, dominando na fluencia da sua luz as manchas escuras, que
lhe tinham feito conhecer o travor de tantas lagrimas.
Ao ver o Alberto com aquella mulher, que lhe chamava seu, experimentava
um pequeno ciume, uma como que irritação da sua vaidade, um obstaculo
que se levantava á exigencia d'um seu capricho.
--Quizesse eu e veriamos--dizia para se consolar, uma grande confiança
no seu poder de seducção, os labios contorcendo-se desdenhosamente.
--mas não, não queria--argumentava, buscando na sonoridade das negativas
um ponto de apoio em que firmasse a sua vontade, que se ia quebrantando..--
--era o que lhe faltava! agora que estava como n'agua!...
Scismava um pouco,
--mas tambem o commendador era tão aborrecido!... Ás vezes dava-lhe
vontade de o enviar ao diabo para que o aturasse--... e era galante, uma
pequena perfidiasinha...,--
O Alberto principiou a perseguil-a; offerecia-se com um grande cynismo
indigno, apparecia-lhe em toda a parte, passava vagarosamente
recostado n'uma _victoria_ de praça por debaixo da sua janella.
Resistira-lhe muito tempo, mas--elle era teimoso, ella não o ignorava--e
pouco a pouco amollecia n'aquella resistencia de vingança.
--Alem d'isso escrevia-lhe, protestava-lhe que não era feliz, que nunca
mais tivera um momento de santa alegria desde que rompera as relações
com ella...
--já o tinha desesperado bastante, o pobre rapaz,
sentia uma necessidade d'aquellas convivencias estroinas, que o
commendador condemnava, com o seu ar pacato, o bom conselho d'uma
prudencia moderada,--de que os excessos prejudicavam a saude--e além
d'isso mordia-a a curiosidade de saber d'Alberto as intimidades da sua
vida, das suas relações com aquella outra, por quem elle a havia
trocado, que lhe chamava seu com tanta segurança.--
E quando á tarde o Alberto passou recostado nas almofadas da _victoria_
um sorriso lhe escapou dos labios, fugitivo como uma promessa de perdão,
suave como uma esperança de paz.
Tiveram em seguida todas as palpitações quentes do romance; o Alberto
vinha quando o commendador não estava, sahiam disfarçados para o campo,
tinham as suas ceias no gabinete azul de mobilia estofada, quando a
_criada_ despedia o brazileiro sob o pretexto d'um grande encommodo de
cabeça, de que a menina fôra acommettida.
Annita achava tudo aquillo muito natural; partilhava o seu corpo entre
os dous com uma rectidão segura de consciencia, como quem cumpre um
dever de mercenaria e uma imposição do coração, espreguiçando a alma
n'esta bonhomia deleitosa, contente por se ver rodeada d'um conforto,
que tanto desejara.
O Alberto porém indignava-o aquella sociedade ignobil com o ouro do
commendador; parecia-lhe pouco decente servir-se d'uma mulher que outrem
sustentava, não porque elle achasse o facto indigno como um attentado
contra um principio de honra, mas porque era realmente reles não poder
sósinho sustentar todo aquelle luxo d'uma amante, ter de privar-se de
certas liberdades, occultar-se timidamente como um estudante de dezoito
annos.--
Meditava por isso um golpe de mestre; mordia-o a vileza das ambições de
fortuna, e desejava ser rico dentro de pouco tempo, custasse o que
custasse.--
Achava-se abjecto diante d'aquella secretaria, onde escrevia, quando no
gabinete da thesouraria do Banco negociantes entravam e sahiam,
ouvindo-se dentro o tilintar sonoro do ouro, os algarismos
precipitando-se em accumulações estonteadoras.
--Tentou as falsificações d'umas lettras de cambio; a fortuna
protegeu-o, ninguem deu por tal; a felicidade deu-lhe azas á audacia,
procurou fazer a imitação d'uma firma que assignava uma lettra no valor
d'alguns contos de reis.
Mas a direcção apercebeu-se a tempo; chamou-o ao gabinete.
--Estava despedido e não o mettiam n'uma cadeia por consideração para
com a pobre senhora filha d'um collega.--
Empallideu. Nem podia dizer se era de raiva, se era de dor;--aquella
despedida desbaratava todos os seus castellos doirados, sentia-se
pusillanime diante da perspectiva da vida de tribulações que se abria na
sua frente.
E quando chegou a casa, um forte abatimento o prostrava, quebrando-lhe
toda a energia; annunciou a sua despedida ainda com um ar de ironia...
--Sabes, Lili, aquelles senhores do Banco, uns figurões _honrados_,
despediram-me.--
--A ti!... perguntou surprehendida,--
--Sim, a mim, não lhes fazia lá conta; achavam-me demasiado tolo para
comprehender as suas gentilezas...--
Ermelinda teve a boa coragem consoladora das mulheres dignas;
parecia-lhe até que d'ora em diante o amaria mais, achar-se-ia com mais
força para se sacrificar por elle e levantava-o na ara do seu coração
por ter sido um homem honrado, que não quizera compartilhar as
indignidades d'uns ladrões engravatados.
--Ora não te afflijas, seremos um pouco mais economicos, emquanto te não
empregares de novo,--
Um enternecimento brando lhe dilatava a alma, acarinhando-o muito,
beijando-o affectuosamente na fronte, a sua mão cofiando-lhe o cabello
negro como que a excital-o corajosamente para as novas luctas, a
palavra derramando-se untuosa como um balsamo por sobre aquelle golpe da
adversidade.
Adormentava-o na dor, communicando-lhe a grande força da sua fé, conscia
de que praticava formosamente um dever, o coração sentindo-se
transbordar de sentimentos meigos e carinhosos, com que desejaria
n'aquelle momento alastrar o chão da sua existencia, tornando-lh'a suave
como um velludo.
Mas o Alberto achava-se ridiculo n'aquella posição; mordia-o cada vez
mais a inveja de fortuna, tinha sêde d'uma vingança estrondosa, em que
podesse abater o orgulho dos ricos que agora se affastavam d'elle;
queria sobre tudo humilhar--aquelles pulhas do Banco.
Quasi o importunavam os extremos de carinho que sua mulher lhe
dispensava, e na sua imaginação excitada por aquelle insuccesso
levantavam-se novos castellos de Hespanha, jogaria forte, o ouro viria
como uma grande torrente que o innundasse:
--faria um partida valente aos honrados burguezes, o commendador seria a
primeira victima, tirar-lhe-ia definitivamente a Annita, installando-a
n'um luxo de bom gosto, pompeando com a formosura d'ella por sobre a
gula concupiscente dos pelintras, que adornavam a porta do Suisso.--
Á falta d'uma occupação que lhe gastasse o tempo pavoneava-se pelas
mezas dos cafés, pelas esquinas das tabacarias, n'uma grande
ociosidade vadia, commentando as pequenas intrigas de theatro, o
escandalo ultimo, a marcha politica dos acontecimentos. E á noute a
baeta verde chamava-o com fascinações irresistiveis; recolhia tarde,
quasi sempre de madrugada, quando os lampeões principiavam a apagar-se,
e que o movimento dos operarios começava ruidoso, o silvo agudo das
fabricas vibrando atravez da neblina esfumada da manhã.--
Ermelinda esperava-o com mansa resignação,
--que lhe faziam mal aquellas noitadas, se não tinha pena d'ella que
ficava tão sósinha,--que a Rosina tinha despertado duas vezes e
perguntado pelo papá.--
Respondia-lhe com azedume, uma nortada rija,
--que o deixasse, não estava para a aturar.--
Cahiam-lhe no espirito aquellas palavras mansas e cordatas, queimando-o
como um cauterio de dever, preferindo que ella tivesse aquellas
resistencias asperas, aquelle tom acrimonioso das questões d'outr'ora.
Julgava esta mansidão uma hypocrisia, um egoismo refalsado:
--Como não tinha o paesinho que lhe aquecesse as costas, era aquillo,
tudo palavrinhas doces.--
E deitava-se brutamente fatigado, indifferente áquellas caricias que o
provocavam, aos affagos da pequerrucha que vinha muitas vezes beijal-o
com a alegria infantil das creanças, que despertam cedo.
Mas o jogo ia levando as economias de Ermelinda, o dinheiro escasseava,
recorria-se um pouco ao credito; o Alberto protestava ressarcil-a
de todas as perdas da occasião e pedia-lhe as joias com uma
suavidade lamuriosa,--
--que tinha entrado n'umas transacções que lhe dariam um lucro certo,
esperava obter um emprego com aquelle dinheirito--fazia muitos planos,
um futuro delicioso em que ella e a filha tomavam a maior parte.
--Levasse-as, levasse-as, oxalá déssem o resultado que elle desejava.--
Mas as joias entravam logo n'uma caixa penhorista; o Alberto jogava o
dinheiro, pagava ceias, levava vida folgada emquanto durava o producto
da venda.
Uma madrugada em que de vespera tinha empenhado uma d'essas joias,
entrou em casa ébrio, cambaleando, uma phraseologia de bordel
cumprimentando Ermelinda.
Foi preciso que a creada, juntamente com ella, o viessem auxiliar ao
subir da escada. Mas elle protestava--
--que não estava bebedo, apenas um poucochinho entrado--e pedia um beijo
á criada, uma trigueira que parecia descender directamente do chimpanzé,
de feições largas, rindo maliciosamente d'aquelle pittoresco Noemico.
E já no quarto, a palavra balbuciante, pedia a Ermelinda:
--que se lhe sentasse nos joelhos, haviam de fazer uma pirraça ao
commendador, os dois estariam abraçados quando elle chegasse. Uma grande
risada, estendia os braços tremulamente para a alcançar, fallando-lhe
com uma alegria inconsciente.
--Sempre o mesmo demonio, esta _gatinha parda_, que viesse!... então...
e a nossa filhinha, coitadinha da pequerrucha... que morreu--
e desatou a chorar, a embriaguez cahindo rapidamente n'um periodo
comatoso, a palavra rareando, as phrases tartamudeadas.
Ermelinda sentiu uma pallidez branca invadir-lhe a face; revoltava-se de
nojo perante aquelle homem, que via ébrio, patenteando na sua
inconsciencia a alma lodacenta, que ella porfiava em regenerar, em
attrahir para si.
--Oh, não, não era possivel, tudo estava acabado para ella.--
Mas ao mesmo tempo que se revoltava, sentia uma grande commiseração por
aquelle desgraçado, uma vontade de se sacrificar para poder salval-o, um
desejo sincero de perdoar, amando-o muito.
--Quem sabe, ás vezes qualquer cousa lhe podia fazer mal. Esgotemos o
calix até ás fézes, tratemol-o bem, tem-se visto tantos exemplos...--
Armava-se com raciocinios pacientes, encadeando-os logicamente, tirando
do seu coração de mulher energias com que resistir e vencer aquelle
estado, que se lhe affigurava anormalmente transitorio.
O Alberto porém ia perdendo o respeito pela casa; repetia a miudo
aquellas scenas de embriaguez, principiava a ser grosseiro, d'uma
grosseria enodoada de taberna.
A sua paciencia de mulher esgotou-se, recalcitrou fortemente, impugnou-o
com azedume.
--Até que emfim a _santinha_ arremessava a capa--respondeu-lhe com ironia.
--que não era santa, estava bem longe de o ser, mas que a paciencia
tinha limites, um grosseiro, isto fazia desesperar,--
--que repetisse, que repetisse,--e crescia para ella, a face affogueada
na congestão do alcool.
--Não era elle que fallava, tinha desculpa.--
--Ah, não, não era elle, pois tomasse lá--e esbofeteou-a
precipitadamente, arremessando-a contra um movel, animalmente feroz, a
colera faiscando no seu olhar injectado, toda a serenidade perdida.
--Era um inferno aquelle viver assim, infame!--
--Não o irritasse mais, se queria os ossos direitos.
--Não, aquillo assim não podia continuar.
--Quando quizesse, até lhe fazia um grande favor.
--Se o meu papá fosse vivo!...
--Assobia-lhe agora, dize-lhe que te venha ca valer.--
Ermelinda empallideceu; e logo uma onda de sangue a escaldou, uma
indignação que a suffocava.--
--Demais a mais cobarde, a insultar um morto que lhe tinha feito bem;
era revoltante!--os seus pensamentos atropellavam-se, como creanças
inscientes de um perigo, que se acotovellam sobre a aresta d'um
precipicio. Debruçava-se sobre a sua dôr intima e uma grande escuridão
sombria, onde apenas lucillava humilde a estrella do seu amor de
mãe, se estendia diante dos seus olhos.
--Era preferivel matar-se!--dizia.
Mas a imagem de Rosina levantava-se, como uma margarida branca a
indicar-lhe a grande lucta da vida; e foi d'ali abraçar-se n'ella
demoradamente, os olhos copiosos de lagrimas:
--Minha filha, minha pobre filha.--
* * * * *
Estas scenas continuavam; viviam mal, o Alberto, perdido uma vez o
respeito por ella, usava d'uma violencia brutal pela mais leve
questiuncula. Não queria que lhe exprobrassem o seu procedimento, e
Ermelinda tinha muitas vezes de fechar-se no quarto com a filha para
escapar á irritação da sua colera, do seu _mau vinho_. Um dia porém
levou o insulto mais longe; foi o cumulo dos opprobrios para ella;
trouxe-lhe a Annita, offereceu-lhe de jantar, fez com que Ermelinda a
servisse, obrigando-a pela ameaça da força.
--Oh, era de mais, era de mais tambem--dizia amargurando-se, imbelle
para romper com elle, para fazer valer os seus direitos, para se fazer
ao menos respeitar dignamente.
--que lhe batésse, perdoava-lh'o já, mas apresentar-lhe aquella mulher
em casa, obrigal-a a ser sua escrava, ver sobre o pescoço d'ella uma
joia que fôra de sua mãe,--não, não podia resistir--
mas quebrava nas lagrimas a sua reacção corajosa, não sabia mesmo o que
havia de fazer, causava-lhe medo o ver-se depois isolada, sem
forças para luctar, sentindo-se fraca e impotente diante do mundo que
ainda talvez a condemnasse.--
Emmagrecia rapidamente, a sua formosura emmurchecida pelos dissabores e
soffrimentos physicos, umas olheiras roxas occupando metade da face.
--Sahiria, iria tomar conselho com alguem, queria desabafar, não podia
mais!--
E procurou a D. Clementina; encontrou-a a brincar com o Tótó, muito
folgada na sua vida de solteirona, as carnes cada vez mais dilatadas
n'um contentamento de nutrição feliz.
--Oh, mulher, tu parece que vens do Repouso!
--Antes lá estivera, que não seria tão infeliz!
--Desabafa, menina, desabafa.--
--Oh, Pulcheria--chamou para a criada--leve a menina e dê-lhe
biscoutos--era preciso ter cautella em fallar diante de creanças--dizia
prudentemente.
--E então a Rosina que era tão viva.--
--Pois por isso mesmo; então menina, conta lá.--
Fez-lhe uma confidencia completa; narrou-lhe dolorosamente a inutilidade
dos seus enthusiasmos em o regenerar, as suas noites perdidas, as
violencias de que era victima
--que visse,--e mostrava-lhe os braços com largas echymoses, como nodoas
de tinta postas na tez assetinada.--
--Mas isso é um horror, filha, tu não pódes continuar a viver com esse
monstro.
--E ainda aquillo não era nada, que fosse vendo, que fosse
vendo--descobria-lhe o corpo, n'um impudor precipitado, nodoas roxas
apparecendo a macular a brancura da pelle.
--Mas eu tudo lhe perdoaria, tudo! a ultima, porém, que elle me fez, a
de me levar a casa aquella maldita mulher, obrigar-me a servil-a, oh! D.
Clementina, eu na presença d'ella não chorava, não lhe queria dar esse
prazer; mas depois, quando estive só, as lagrimas eram como punhos,
queimavam-me.
A D. Clementina enternecia-se, consolava-a com brandura, tinha para
suavisar-lhe aquellas dôres palavras dôces, d'uma ternura lacrimosa,
chorando tambem.--
--Mas nem mais um dia com esse homem! é tratar da separação, e isto já,
antes que elle te dê cabo do que é teu e da tua filha; ainda que não
fosse senão por causa da pequena, que está a ser escandalosamente
roubada, e depois que exemplo!... bradava ao ceu.--
Ermelinda tinha objecções fracas, adversativas hesitantes...
--mas que diria o mundo...
--o mundo, ora não faltava mais nada; estar uma victima ali debaixo do
jugo do carrasco e ainda por cima havia de fallar! que lhe importava a
ella! Com elle escusava tentar a felicidade, era remar contra a maré.--
--sabia isso, mas tão só, que vergonha!... e depois que posição a sua!
Nem solteira, nem casada!... Uma cousa assim!--