--que o não estragasse elle lá por fóra,--para que tinha despedido a
Joaquina, uma criada em quem se podia confiar!... só se queria que fosse
ella varrer e cosinhar, não lhe faltava mais nada.--
Uma saraivada de insultos se trocava entre os dous; o Alberto sahia de
casa para só voltar altas horas da noite, ella estancava-se em chorar,
desgostosa por não ter um coração amigo, onde podesse entornar aquellas
lagrimas que escaldavam o seu.
Foi n'uma situação d'estas que a D. Clementina a veio encontrar, n'uma
visita á tarde,
--tinha ido ao Palacio, mas estava tanto vento, lembrara-se de vir
passar com ella um bocadinho.
--agradecia-lh'o, estava tão só ultimamente.--
--e teu marido, menina, e teu marido?
Encolheu os hombros, as lagrimas a pullularem irrequietas por entre as
palpebras.
A possuidora do Tótó farejava um escandalo, um segredo de familia, um
drama intimo de que ella ia ser a unica espectadora talvez.
--E até estás mais magra, menina, crédo! parece que não vives muito
feliz.--
--As felicidades, D. Clementina, são boas para quem as merece a Deus.--
--Oh, filha! desabafa, tu bem sabes que isto aqui é um poço--e apontava
para o coração--as amigas não se fizeram para outro fim! Não sei se te
lembras da Vicenciasinha, que morreu envenenada, pois olha que tudo me
contou e eu... bôa... calada como um pêto... isso assim é de te matar
lentamente; desafoga, menina, não ha mal que não tenha remedio.--
Insinuava-se, offerecia a sua alma como um consolo anodino e bom, um
balsamo que se entorna sobre feridas irritadas.--
--Não, não a deixaria sem que ella se tivesse aberto para com ella, fôra
sempre muito sua amiga, desejava dar-lhe uma prova verdadeira d'isso.--
Ermelinda foi desfiando lentamente os espinhos do seu martyrio obscuro;
sentia-se alliviada, uma oppressão que lhe deixava desafogado o peito,
mais forte com as consolações affectuosas d'um carinho, que desde muito
ninguem tinha para com ella.--
--Narrou as groserias do Alberto, a despedida da Joaquina, uma criada de
dezoito annos, que a trouxera ao collo tanta vez, o inferno do seu viver
atormentado, as altas horas da noite a que elle recolhia, a sua
indifferença por ella e até pela pequena, as revelações em que se
patenteava a vilesa d'aquelle caracter;--
A D. Clementina benzia-se, interrogava minuciosamente, indagava com
muita curiosidade.
--Oh, filha, eras digna de melhor sorte.
--então, que lhe havia de fazer... mas que dizia ella a tudo aquillo?
--Eu sei cá, menina, vai tendo resignação, vai tendo paciencia; os
homens ás vezes teem d'estes _rompantes_, mas passa, passa, quem sabe
até se andará por ahi mal _encaminhado_.--
--Oh, D. Clementina nem me diga...
--Pois olha que não é outra cousa, e hei-de-o saber com certesa; tu
verás como sae certo, isso são favas contadas...
Entornava-lhe na alma o veneno do ciume, com um grande desamor cruel,
fazendo alarde da sua experiencia em casos d'aquella ordem.
--Não era o primeiro, e depois olha _quem_!... se não se recordava
d'aquella historia com a mulher do commendador Bernardo...; mas havia de
o saber--protestava com empenho--e conversariam depois, viria agora
visital-a mais a miudo, até lhe levava a mal que a não tivesse chamado
ha mais tempo, as amigas conheciam-se nas occasiões.--
Ermelinda ficou como um doente a quem se acalma a dor com a ministração
d'um veneno... aquellas palavras da sua amiga corriam-lhe na alma ao
arrepio, como uma bafagem quente de verão, que respiramos mas que
reconhecemos nociva; parecia-lhe que uma sensação extranha germinava
dentro de si, crescendo com um grande vigor luxuriante,
assombreando com as suas folhas envenenadas o pouco sol que ainda sorria
e lhe cantava.