--Macacos mi mordam si eu entendo isto.--
O commendador dizia prudentemente, com receio de _raia_:
--Elles explicarão logo isso, ein; é pedir a palavra e fallar... mas me
não parece que o Banco vá mal; oito por cento de dividendo, ein; não
póde dizer-se mau negocio.--
--Lá isso é verdade, vão elles dando e o diabo que os entenda--aventurou
um bacalhoeiro da rua de S. João.
--Não é tanto assim, Snr. Araujo; se querem as cousas claras; no Rio se
não vê um relatorio por esta fórma.--
--Isto as cousas cá mudam de figura, meu caro senhor.--
--Qual figura, nem qual carapuça; não ha lá banco que não tenha sua
escripturação em dia.--
--Isso tambem cá, meu rico senhor.
--Me diz aonde, se faz favor? tudo uma embrulhada; quer que lhe diga eu
ao senhor aqui em particular, tudo isto é uma capiranga e ai de nossos
capitaes! Se faz politica, aqui, em todos os estabelecimentos bancarios.--
--Isso me diga o senhor,--
e o bacalhoeiro lembrava-se, que elle já tinha recorrido ao credito
n'uns embaraços sérios, fazendo pezar a sua influencia eleitoral.
A campainha da presidencia vibrou pela sala; homens irromperam dos
corredores, descobrindo-se respeitosamente. Havia silencio.
O secretario procedeu á leitura da acta precedente, que uma inclinação
de corpos sentados approvou por unanimidade. Dispensou-se a leitura do
relatorio.
--Se algum accionista pedia a palavra sobre o relatorio e contas da
direcção--perguntou a presidencia.
Um silencio geral, esperando todos que apparecesse o primeiro; mas
ninguem, a larynge seccava-se-lhes n'um spasmo anti-rethorico; murmurios
surdos se espalhavam.
--E ninguem, ora esta!--
Segredou-se ao commendador que fallasse, o Mendes apontava aquella
parcella inexplicavel.
A presidencia repetiu a pergunta.
O commendador pediu a palavra.
Libertaram-se os peitos n'um ah de satisfação;
--até que emfim a cousa começava.--
A direcção estava um pouco trémula, presagiando tempestade; mas o Jorge
conhecia o commendador, era seu amigo, d'ali não podia vir grande
batalha.--