Ermelinda teve um bom impulso de o aconselhar,--

--faz-lhe a vontade, filho, faze; e depois é até mesmo bom, e tu

distrahes, o trabalho tambem entretem; e é uma garantia de futuro... tu

pensa...--disse-lhe baixo, o rosto affogueando-se n'um rubor honesto de

confissão custosa.

--Ahi vens tu com a tua télha! ora adeus, d'aqui a lá não nos dôa a

cabeça; n'este mundo todos se arranjam.

--Mas as cousas levam-se de longe, menino...

--Vae prégar moral a outra freguezia; que tem que vêr uma cousa com

outra? o que vier veio, acabou-se, á fome não hade morrer e se

morrer... era uma vez um anginho que voou ao ceu, pedirei ao Luiz

Serra que lhe faça um necrologio em verso.--

Ermelinda revoltava-se no seu sentimento de maternidade contra estas

rajadas que a feriam no ser que ella ainda desconhecia, mas que amava

já; achava pouco delicado o proceder d'Alberto para com ella, tinha

mesmo uma certa dôr por vêr que elle se não enchia de jubiloso alvoroço,

sabendo que ella em breve o faria pae; mas desculpava-o, tomava como

gracejo as suas palavras, e abrigava-se, como uma creança, na aza do seu

carinho, a imaginação a sonhar um futuro de delicias para o entesinho

que ia dever-lhe a vida, tendo exquisitices incoherentes, uma grande

volubilidade caprichosa.--

Alberto passeiava no quarto, passos largos, o pensamento concentrado na

proposta do Jorge.

--Era o unico meio de se salvar, não via outro; o dinheiro do jogo ia

dasapparecendo e depois... além d'isso o arranjo não era de todo mau;

nem o deslustrava, lá estava o Visconde da Ribeira no Mercantil... e

quem sabe; podia mesmo vir a ser o gerente do Banco; o sogro andava

acabrunhado, aquillo não ia longe...--

e sentando-se junto d'Ermelinda, uma caricia affectada para a sua

mulhersinha, batendo-lhe uma leve palmadinha nos joelhos:

--Acho que aceito, Lili; que dizes tu?

--Oh, filho, faze o que tu quizeres; mas eu digo-te que sim... olha, até

depois o papá não nos receberá de tão mau humor, quando quizermos alguma

cousa; vê lá tu, mas eu fazia-lhe a vontade, coitado, elle é tão nosso

amigo...

--Hum! hum!... ha a distinguir!--

--Não, Alberto, não, tu és injusto.--

--Bem, bem; fallemos n'outro assumpto; pois decido-me, faço-te a

vontade; vá lá, é preciso sacrificar um poucochito ao futuro... tu tens

razão, minha Lili...

--Obrigada--e tomou-lhe a testa, um beijo longo, muito carinhoso, como

um agradecimento evolado do intimo.

Sentia-se feliz n'aquelle instante; uma como fluctuação luminosa

palpitava dentro da sua alma de mulher, dando-lhe uma ebriedade suave;

tinha vontade de absorver dentro de si toda a personalidade do seu

Alberto, integrando-a n'um mesmo amor, com a do pequenino ser

mysterioso, que vivia no sanctuario das suas entranhas. Queria ella ser

o fóco de irradiação fecunda para os dous, que se confundiam n'um só,

ser o carinho affectuoso, a consolação, a ambrozia que os ungisse na

mesma embrocação de felicidade.

--Porque não havia de ser sempre assim! para que se haviam de levantar

espinhos no jardim da sua existencia? como era bom amar sendo amada!...--

Nem quiz sahir n'aquelle dia; foi para a varanda que deitava sobre o

quintal, ver descer serenamente a tarde no ceu côr de rosa, deixando um

sorriso de saudade ás franças das arvores, que matisavam, como grandes

nodoas, o alvor das casarias da cidade; e á noute quando a meia luz do

_abat-jour_ lhe deixou ver o Alberto a seu lado, repoltreado n'uma

cadeira de verga, pensou no seu tempo feliz de mulher solteira e

lembrou-se de Bertha, áquellas horas ouvindo o sussurro eterno do

mar, ao lado do seu Roberto.

Communicaram ao Jorge a resolução tomada,

--ainda bem, ainda bem--e jantou n'aquelle dia com mais appetite, a

satisfação de ver dissipar-se uma nuvem que pesava sobre o seu

espirito.--E á noute nos seus colloquios entre amorosos e confidenciaes

com a Joaquina:

--o rapaz indireitou-se, vamos lá--

--Deus queira que elle tome tento na bola, Snr. Jorge.

--Ha-de tomar, ha-de tomar, cá estou eu para o dirigir.--

Estava contente, uma claridade a illuminar-lhe a soturnidade do

pensamento, como um raio de sol na atmosphera humida d'um armazem

sombrio. Ha muito tempo já que a Joaquina o não vira d'aquella fórma;

tornara-se mais rapaz, brincalhão, dando-lhe umas palmadinhas sonoras no

quadril arredondado, tendo exigencias segredadas a que ella reagia,

--Ou elle, olha agora a lembrança.--

* * * * *

Dous dias depois tinha de reunir-se a Assembleia geral do Banco; o Jorge

lá estava com os seus collegas, prompto para a defeza, varios papeis

enrolados na mão, gravemente cintado na sua sobre-casaca preta.

Grupos de brazileiros e commerciantes questionavam; discutiam o

relatorio, o parecer do conselho fiscal.

O commendador lá estava, os seus oculos d'ouro em refracções

caprichosas de luz, um pouco importante, conscio do seu peso monetario,

e da sua sciencia algarithmica.

Os brazileiros tinham-o como um corypheo da arithmetica.

--Entende de cifras como poucos, dizia-se--e depois este tem que perder,

não é para ahi nenhum barlavento; nome respeitado na praça,--

e rodeavam-o, procurando saber a sua opinião sobre o relatorio e contas

da direcção, consultando-o como um oraculo,

--Que diz o commendador a esta embrulhada? eu por mim não sei o que quer

dizer esta verba--e apontavam-lhe uma parcella a figurar no Passivo, que

não harmonisava com o Activo--

--uma coisa inexplicavel, que ninguem era capaz de comprehender.--

A Divorciada · 第 31 / 63 题