VI

Alberto conseguira effectivamente insinuar-se no espirito de Jorge; as

relações iam-se estreitando, tornando-se mais intimas; principiou a

frequentar a casa, á noite, á hora do chá. O commendador apparecia uma

vez ou outra; e quasi sempre a D. Clementina vinha tambem, o seu

pequenino cão felpudo, de que narrava com uma grande prolixidade

enfadonha as travessuras, as caricias.

--Querem saber o que elle fez outro dia... o meu Totósinho...--e

affagava-o correndo-lhe a mão pelo dorso, n'uma boa caricia

amoravel--estava eu já deitada, elle dorme no meu quarto o Totó e ouço-o

gemer, gemer, parecia mesmo um christão, fóra a alma, chamo por elle,

vem muito candongueiro...--

Mas já ninguem lhe prestava attenção; o Jorge tinha proposto uma pequena

partida de sueca, e acceitara-se com vontade,

--era preferivel á historia do fraldiqueiro--dissera baixo o commendador.--

A D. Clementina cortou a narrativa,

--gostava da sueca, era o seu jogo, seremos parceiros, commendador?

--Com muito gosto, minha senhora.--

A Ermelinda e o Alberto é que achavam massador,

--ir agora jogar a sueca, que estopada--

--ainda se viesse por ahi a D. Gabriella, a viuva do Brandão--cochichavam.

Ouviu-se uma campainhada. Exultaram.

--Havia de ser a D. Gabriella!... vai abrir, Joaquina.--

Era effectivamente a viuva; um ar ressequido, de rata velha, arrastando

os ss, com um silvo prolongado em todos os vv, ainda pretenciosa, com

uma paixão occulta pelo Jorge, que tinha a felicidade de a não perceber.

Disposeram a meza. Ermelinda e Alberto, um pouco affastados folheavam os

albuns, distrahidamente embevecendo-se em phantasias coloridas, muitos

projectos--que haviam de effectuar, um dia, logo que fossem um do

outro, para todo o sempre.--

O Jorge questionava.

--Pois se o trunfo era copas, minha senhora, era copas...

--Julguei que podia embarcar a bisca ali no valete do commendador.--

--Qual historia! Ahi tem o resultado, perdemos por sua culpa...

E voltando-se para Ermelinda:

--Toca alguma coisa, menina; não sei para que te serve a habilidade!...

--Já vou, papá...

E sentou-se ao piano, o Alberto ao lado, voltando-lhe a musica. Era um

motivo da _Traviata_, d'um sentimentalismo enervante, que punha no

espirito uma doce melancholia; tocou depois um trecho da Dinorah, a

«walsa da sombra»; parecia que as notas vibrantes do piano recordavam

aquelle gemido hilariante da pobre louca, que se desenhava em todo o seu

perfil na lucillação casta do luar.

Havia commoções ternas n'aquella musica, toda repassada d'um perfume

apaixonado, sentimentalista; a alma deixava-se voejar na photosphera

quente d'uns amores loucos, muito ideiais, com idylios banhados de luar,

e phrases d'uma levesa etherea, d'uma brancura ingenua de estrellas;

amortecia o vigor dos fortes, como uma gaze feerica envolvendo um

bronze; e Alberto, contemplativo e scismador, de pé, absorvendo na

languidez quebrada do seu olhar, a escultura formosa de Ermelinda,

experimentava um desejo incoherente de se apossar de toda aquella

mocidade, arrebatando-a, como um cavalheiro medieval, no corcel

vertiginoso da sua phantasia.

Mas o Jorge irritado:

--Oh, D. Gabriella, pois isso faz-se, ir metter a sua bisca debaixo do

az.--

--Mas, sr. Jorge...

--Qual mas, nem qual carapuça; a senhora está hoje d'uma abstracção

imperdoavel...

Ermelinda cessara de tocar, sorrindo para Alberto d'aquellas

questiunculas futeis; os seus olhos negros levantando-se tinham uma

meiga expressão indefinida, como se a musica, que estivera tocando, os

houvera mergulhado n'um fluido suavemente humido e voluptuoso. Voltaram

a sentar-se junto da _jardinière_, um pouco recolhidos na sombra,

apertando-se occultamente as mãos, com uma doce pressão dolorida, que os

fazia estremecer de gozo.

--É muito sentimental aquella walsa da Dinorah!

--Tu gostas?

--Immenso; mal sabes como me sinto apaixonado quando a oiço tocar.

--Hei-de tocal-a então muitas vezes... depois...

--Pois... sim...

--Mas com uma condição; has-de me dar um beijo de cada vez...

--Um só! dou-te mil... meu amor...

--Ah, ah, mil... eram muitos...--e abriu um sorriso gracioso,

desenhando-lhe no carmezim dos labios um estojo assetinado, guardando

uma dentadura egualmente branca, que um poeta noviço denominaria

perolas.

A Joaquina entrou com o chá; poseram-se as cartas de lado, rodearam

todos a meza; o Alberto tinha sempre o cuidado de servir as senhoras.

--Então, D. Clementina, um bolinho mais.

--Nada, não queria, estava servida...

--E Vocêssencia, D. Gabriella, não se serve de mais uma torrada.

--Faz favôr, sr. Alberto!--e sentia-se logo na mó coriacea das suas

gengivas desdentadas um ruido aspero de trituração, que ella humedecia

com pequenos golos de chá, muito saboreados.

A Divorciada · 第 19 / 63 题