Alberto conseguira effectivamente insinuar-se no espirito de Jorge; as
relações iam-se estreitando, tornando-se mais intimas; principiou a
frequentar a casa, á noite, á hora do chá. O commendador apparecia uma
vez ou outra; e quasi sempre a D. Clementina vinha tambem, o seu
pequenino cão felpudo, de que narrava com uma grande prolixidade
enfadonha as travessuras, as caricias.
--Querem saber o que elle fez outro dia... o meu Totósinho...--e
affagava-o correndo-lhe a mão pelo dorso, n'uma boa caricia
amoravel--estava eu já deitada, elle dorme no meu quarto o Totó e ouço-o
gemer, gemer, parecia mesmo um christão, fóra a alma, chamo por elle,
vem muito candongueiro...--
Mas já ninguem lhe prestava attenção; o Jorge tinha proposto uma pequena
partida de sueca, e acceitara-se com vontade,
--era preferivel á historia do fraldiqueiro--dissera baixo o commendador.--
A D. Clementina cortou a narrativa,
--gostava da sueca, era o seu jogo, seremos parceiros, commendador?
--Com muito gosto, minha senhora.--
A Ermelinda e o Alberto é que achavam massador,
--ir agora jogar a sueca, que estopada--
--ainda se viesse por ahi a D. Gabriella, a viuva do Brandão--cochichavam.
Ouviu-se uma campainhada. Exultaram.
--Havia de ser a D. Gabriella!... vai abrir, Joaquina.--
Era effectivamente a viuva; um ar ressequido, de rata velha, arrastando
os ss, com um silvo prolongado em todos os vv, ainda pretenciosa, com
uma paixão occulta pelo Jorge, que tinha a felicidade de a não perceber.
Disposeram a meza. Ermelinda e Alberto, um pouco affastados folheavam os
albuns, distrahidamente embevecendo-se em phantasias coloridas, muitos
projectos--que haviam de effectuar, um dia, logo que fossem um do
outro, para todo o sempre.--
O Jorge questionava.
--Pois se o trunfo era copas, minha senhora, era copas...
--Julguei que podia embarcar a bisca ali no valete do commendador.--
--Qual historia! Ahi tem o resultado, perdemos por sua culpa...
E voltando-se para Ermelinda:
--Toca alguma coisa, menina; não sei para que te serve a habilidade!...
--Já vou, papá...
E sentou-se ao piano, o Alberto ao lado, voltando-lhe a musica. Era um
motivo da _Traviata_, d'um sentimentalismo enervante, que punha no
espirito uma doce melancholia; tocou depois um trecho da Dinorah, a
«walsa da sombra»; parecia que as notas vibrantes do piano recordavam
aquelle gemido hilariante da pobre louca, que se desenhava em todo o seu
perfil na lucillação casta do luar.
Havia commoções ternas n'aquella musica, toda repassada d'um perfume
apaixonado, sentimentalista; a alma deixava-se voejar na photosphera
quente d'uns amores loucos, muito ideiais, com idylios banhados de luar,
e phrases d'uma levesa etherea, d'uma brancura ingenua de estrellas;
amortecia o vigor dos fortes, como uma gaze feerica envolvendo um
bronze; e Alberto, contemplativo e scismador, de pé, absorvendo na
languidez quebrada do seu olhar, a escultura formosa de Ermelinda,
experimentava um desejo incoherente de se apossar de toda aquella
mocidade, arrebatando-a, como um cavalheiro medieval, no corcel
vertiginoso da sua phantasia.
Mas o Jorge irritado:
--Oh, D. Gabriella, pois isso faz-se, ir metter a sua bisca debaixo do
az.--
--Mas, sr. Jorge...
--Qual mas, nem qual carapuça; a senhora está hoje d'uma abstracção
imperdoavel...
Ermelinda cessara de tocar, sorrindo para Alberto d'aquellas
questiunculas futeis; os seus olhos negros levantando-se tinham uma
meiga expressão indefinida, como se a musica, que estivera tocando, os
houvera mergulhado n'um fluido suavemente humido e voluptuoso. Voltaram
a sentar-se junto da _jardinière_, um pouco recolhidos na sombra,
apertando-se occultamente as mãos, com uma doce pressão dolorida, que os
fazia estremecer de gozo.
--É muito sentimental aquella walsa da Dinorah!
--Tu gostas?
--Immenso; mal sabes como me sinto apaixonado quando a oiço tocar.
--Hei-de tocal-a então muitas vezes... depois...
--Pois... sim...
--Mas com uma condição; has-de me dar um beijo de cada vez...
--Um só! dou-te mil... meu amor...
--Ah, ah, mil... eram muitos...--e abriu um sorriso gracioso,
desenhando-lhe no carmezim dos labios um estojo assetinado, guardando
uma dentadura egualmente branca, que um poeta noviço denominaria
perolas.
A Joaquina entrou com o chá; poseram-se as cartas de lado, rodearam
todos a meza; o Alberto tinha sempre o cuidado de servir as senhoras.
--Então, D. Clementina, um bolinho mais.
--Nada, não queria, estava servida...
--E Vocêssencia, D. Gabriella, não se serve de mais uma torrada.
--Faz favôr, sr. Alberto!--e sentia-se logo na mó coriacea das suas
gengivas desdentadas um ruido aspero de trituração, que ella humedecia
com pequenos golos de chá, muito saboreados.