O desespero.
Escapei ao aggregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto della, mas
não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atraz de mim.
Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me á cama, e rolava commigo,
e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir
ver Capitú aquella tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez.
Via-me já ordenado, deante d'ella, que choraria de arrependimento e me
pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo,
muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes
dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre elles.
Da cama ouvia voz della, que viera passar o resto da tarde com minha
mãe, e naturalmente commigo, como das outras vezes; mas, por maior que
fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitú ria alto,
falava alto, como se me avisasse; eu continuava surdo, a sós commigo
e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no
pescoço, enterral-as bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue....