Uma reforma dramatica.
Nem eu, nem tu, nem ella, nem qualquer outra pessoa desta historia
poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os
dramaturgos, não annuncia as peripecias nem o desfecho. Elles chegam a
seu tempo, até que o panno cae, apagam-se as luzes, e os espectadores
vão dormir. Nesse genero ha porventura alguma cousa que reformar, e
eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Othello
mataria a si e a Desdemona no primeiro acto, os tres seguintes seriam
dados á acção lenta e decrescente do ciume, e o ultimo ficaria só com
as scenas iniciaes da ameaça dos turcos, as explicações de Othello e
Desdemona, e o bom conselho do fino Iago: «Mette dinheiro na bolsa.»
Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no theatro a charada
habitual que os periodicos lhe dão, porque os ultimos actos explicariam
o desfecho do primeiro, especie de conceito, e, por outro lado, ia
para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:
Ella amou o que me affligira,
Eu amei a piedade della.