Visita de Escobar.
Em casa, tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltára e estava
mudando de roupa.
«A missa das oito já ha de ter acabado... Bentinho devia estar de
volta... Teria acontecido alguma cousa, mano Cosme?... Mandem ver...»
Assim falava ella, de minuto a minuto, mas eu entrei e commigo a
tranquillidade.
Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me e saber da saude
de minha mãe. Nunca me visitára até alli, nem as nossas relações
estavam já tão estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo a razão
da minha saida, tres dias antes, aproveitou o domingo para ir ter
commigo e perguntar se continuava o perigo ou não. Quando lhe disse que
não, respirou.
--Tive receio, disse elle.
--Os outros souberam?
--Parece que sim: alguns souberam.
Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o aggregado disse-lhe que vira
uma vez o pae no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido; e, comquanto
falasse mais do que veiu a falar depois, ainda assim não era tanto como
os rapazes da nossa edade; naquelle dia achei-o um pouco mais expansivo
que de costume. Tio Cosme quiz que jantasse comnosco. Escobar reflectiu
um instante e acabou dizendo que o correspondente do pae esperava por
elle. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:
--Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois.
--Tanto incommodo!
--Incommodo nenhum, interveiu tio Cosme.
Escobar acceitou, e jantou. Notei que os movimentos rápidos que tinha e
dominava na aula tambem os dominava agora, na sala como na mesa. A hora
que passou commigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros
que possuia. Gostou muito do retrato de meu pae; depois de alguns
instantes de contemplação, virou-se e disse-me:
--Vê-se que era um coração puro!
Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcissimos; assim
os definiu José Dias, depois que elle saiu, e mantenho esta palavra,
apesar dos quarenta annos que traz em cima de si. Nisto não houve
exageração do aggregado. A cara rapada mostrava uma pelle alva e lisa.
A testa é que era um pouco baixa, vindo a risca do cabello quasi em
cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessaria
para não affrontar as outras feições, nem diminuir a graça dellas.
Realmente, era interessante de rosto, a bocca fina e chocarreira, o
nariz curvo e delgado. Tinha o séstro de sacudir o hombro direito, de
quando em quando, e veiu a perdel-o, desde que um de nós lh'o notou
um dia no seminario; primeiro exemplo que vi de que um homem póde
corrigir-se muito bem dos defeitos miudos.
Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos
agradassem a todos. Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a mesma
prima Justina achou que era um moço muito apreciavel, apesar... Apesar
de que? perguntou-lhe José Dias, vendo que ella não acabava a phrase.
Não teve resposta, nem podia tel-a; prima Justina provavelmente não
viu defeito claro ou importante no nosso hospede; o _apesar_ era uma
especie de resalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia; ou
então foi obra de uso velho, que a levou a restringir, onde não achára
restricção.
Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui leval-o á porta,
onde esperámos a passagem de um omnibus. Disse-me que o armazem do
correspondente era na rua dos Pescadores, e ficava aberto até ás nove
horas: elle é que se não queria demorar fóra. Separámo-nos com muito
affecto: elle, de dentro do omnibus, ainda me disse adeus, com a mão.
Conservei-me á porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para traz, mas
não olhou.
--Que amigo é esse tamanho? perguntou alguem de uma janella ao pé.
Não é preciso dizer que era Capitú. São cousas que se adivinham na
vida, como nos livros, sejam romances, sejam historias verdadeiras. Era
Capitú, que nos espreitara desde algum tempo, por dentro da veneziana,
e agora abrira inteiramente a janella, e apparecera. Viu as nossas
despedidas tão rasgadas e affectuosas, e quiz saber quem era que me
merecia tanto.
--É o Escobar, disse eu indo pôr-me embaixo da janella, a olhar para
cima.