A missa.
Um dos gestos que melhor exprimem a minha essencia foi a devoção
com que corri no domingo proximo a ouvir missa em S. Antonio dos
Pobres. O aggregado quiz ir commigo, e principiou a vestir-se, mas
era tão lento nos suspensorios e nas presilhas, que não pude esperar
por elle. Demais, eu queria estar só. Sentia necessidade de evitar
qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia,
e era reconciliar-me com Deus, depois do que se passou no capitulo
LXVII. Nem era só pedir-lhe perdão do peccado, era tambem agradecer
o restabelecimento de minha mãe, e, visto que digo tudo, fazel-o
renunciar ao pagamento da minha promessa. Jehovah, posto que divino,
ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não faz
moratorias, perdoa as dividas integralmente, uma vez que o devedor
queira devéras emendar a vida e cortar nas despezas. Ora, eu não
queria outra cousa; dalli em deante não faria mais promessas que não
pudesse pagar, e pagaria logo as que fizesse.
Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida e saude de minha mãe;
depois pedi perdão do peccado e relevação da divida, e recebi a benção
final do officiante como um acto solemne de reconciliação. No fim,
lembrou-me que a egreja estabeleceu no confessionario um cartorio
seguro, e na confissão o mais authentico dos instrumentos para o ajuste
de contas moraes entre o homem e Deus. Mas a minha incorrigivel timidez
me fechou essa porta certa; receiei não achar palavras com que dizer ao
confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publical-o.