Adiemos a virtude.
Poucos teriam animo de confessar aquelle meu pensamento da rua de
Matacavallos. Eu confessarei tudo o que importar á minha historia.
Montaigne escreveu de si: _ce ne sont pas mes gestes que j'ecris; c'est
moi, c'est mon essence._ Ora, ha só um modo de escrever a propria
essencia, é contal-a toda, o bem e o mal. Tal faço eu, á medida que me
vae lembrando o convindo á construção ou reconstrucção de mim mesmo.
Por exemplo, agora que contei um peccado, diria com muito gosto alguma
bella acção contemporanea, se me lembrasse, mas não me lembra; fica
transferida a melhor opportunidade.
Nem perderás em esperar, meu amigo; ao contrario, acóde-me agora que...
Não só as bellas acções são bellas em qualquer occasião, como são
tambem possiveis e provaveis, pela theoria que tenho dos peccados e
das virtudes, não menos simples que clara. Reduz-se a isto que cada
pessoa nasce com certo numero delles e dellas, alliados por matrimonio
para se compensarem na vida. Quando um de taes conjuges é mais forte
que o outro, elle só guia o individuo, sem que este, por não haver
praticado tal virtude ou commettido tal peccado, se possa dizer isento
de um ou de outro; mas a regra é dar-se a pratica simultanea dos dous,
com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da
terra e do ceu. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais
casos extranhos; falta-me tempo.
Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns daquelles casaes, e
naturalmente ainda os possuo. Já me succedeu, aqui no Engenho Novo, por
estar uma noite com muita dòr de cabeça, desejar que o trem da Central
estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas
horas, ainda que morresse alguem; e no dia seguinte perdi o trem da
mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia
bordão. _Voilà mes gestes, voilà mon essence._