Querido opusculo!
Assim fiz eu ao _Panegyrico de Santa Monica_, e fiz mais: puz-lhe não
só o que faltava da santa, mas ainda cousas que não eram della. Viste o
soneto, as meias, as ligas, o seminarista Escobar e vários outros. Vás
agora ver o mais que naquelle dia me foi saindo das paginas amarellas
do opusculo.
Querido opusculo, tu não prestavas para nada, mas que mais presta um
velho par de chinellas? Entretanto, ha muita vez no casal de chinellas
um como aroma e calor de dous pés. Gastas e rotas, não deixam de
lembrar que uma pessoa as calçava de manhã, ao erguer da cama, ou as
descalçava á noite, ao entrar nella. E se a comparação não vale, porque
as chinellas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contacto dos
pés, aqui estão outras lembranças, como a pedra da rua, a porta da
casa, um assobio particular, um prégão de quitanda, como aquelle das
cocadas que contei no cap. XVIII. Justamente, quando contei o prégão
das cocadas, fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazel-o
escrever por um amigo, mestre de musica, e grudal-o ás pernas do
capitulo. Se depois jarretei o capitulo, foi porque outro musico, a
quem o mostrei, me confessou ingenuamente não achar no trecho escripto
nada que lhe accordasse saudades. Para que não aconteça o mesmo aos
outros profissionaes que por ventura me lerem, melhor é poupar ao
editor do livro o trabalho e a despeza da gravura. Vès que não puz
nada, nem ponho. Já agora creio que não basta que os pregões de rua,
como os opusculos de seminario, encerrem casos, pessoas e sensações; é
preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo, sem o que
tudo é calado e incolor.
Mas, vamos ao mais que me foi saindo das paginas amarellas.