Convivas de boa memoria.
Ha dessas reminiscências que não descançam antes que a penna ou a
lingua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa
memoria. A vida é cheia de taes convivas, e eu sou acaso um delles,
comquanto a prova de ter a memoria fraca seja exactamente não me acudir
agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
Não, não, a minha memoria não é boa. Ao contrario, é comparavel a
alguem que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar dellas nem caras
nem nomes, e sómente raras circumstancias. A quem passe a vida na
mesma casa de familia, com os seus eternos moveis e costumes, pessoas
e affeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição.
Como eu invejo os que não esqueceram a còr das primeiras calças que
vestiram! Eu não atino com a das que enfiei hontem. Juro só que não
eram amarellas porque execro essa côr; mas isso mesmo póde ser olvido
e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos
livros confusos, mas tudo se póde metter nos livros omissos. Eu, quando
leio algum desta outra casta, não me afflijo nunca. O que faço, em
chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não
achei nelle. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões
profundas! Os rios, as montanhas, as egrejas que não vi nas folhas
lidas, todos me apparecem agora com as suas aguas, as suas arvores,
os seus altares, e os generaes sacam das espadas que tinham ficado
na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo
marcha com uma alma imprevista.
É que tudo se acha fóra de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho
as lacunas alheias; assim pódes tambem preencher as minhas.