Um seminarista.
Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com as suas lettras
velhas e citações latinas. Vi sair daquellas folhas muitos perfis
de seminaristas, os irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes
é conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina e dizem haver
descoberto um especifico contra a febre amarella. Vi o Bastos, um
magricella, que está de vigario em Meia-Ponte, se não morreu já;
Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e acabou senador do
imperio... Quantas outras caras me fitavam das paginas frias do
_Panegyrico!_ Não, não eram frias; traziam o calor da juventude
nascente, o calor do passado, o meu proprio calor. Queria lel-as outra
vez, e lograva entender algum texto, tão recente como no primeiro
dia, ainda que mais breve. Era um encanto ir por elle; ás vezes,
inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade;
creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da pagina, e a
mão, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...
Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era
um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como
os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com
elle podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não
fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam
as outras, nem se deixavam apertar dellas, porque os dedos, sendo
delgados e curtos, quando a gente cuidava tel-os entre os seus, já
não tinha nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam aqui
como lá. Esta difficuldade em pousar foi o maior obstaculo que achou
para tomar os costumes do seminario. O sorriso era instantaneo, mas
tambem ria folgado e largo. Uma cousa não seria tão fugitiva, como o
resto, a reflexão; iamos dar com elle, muita vez, olhos enfiados em si,
cogitando. Respondia-nus sempre que meditava algum ponto espiritual, ou
então que recordava a licção da vespera. Quando elle entrou na minha
intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miudas,
e tinha memoria para guardal-as todas, até as palavras. Talvez esta
faculdade prejudicasse alguma outra.
Era mais velho que eu trez annos, filho de um advogado de Corityba,
aparentado com um commerciante do Rio de Janeiro, que servia de
correspondente ao pae. Este era homem de fortes sentimentos
catholicos. Escobar tinha uma irmã, que era um anjo, dizia elle.
--Não é só na belleza que é um anjo, mas tambem na bondade. Não imagina
que boa creatura que ella é. Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe
as cartas della.
De facto, eram simples e affectuosas, cheias de caricias e conselhos.
Escobar contava-me historias della, interessantes, todas as quaes
vinham a dar na bondade e no espirito daquella creatura; taes eram
que me fariam capaz de acabar casando com ella, se não fosse Capitú.
Morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras delle, estive quasi
a contar-lhe logo, logo, a minha historia. A principio fui timido,
mas elle fez-se entrado na minha confiança. Aquelles modos fugitivos
cessavam quando elle queria, e o meio e o tempo os fizeram mais
pousados. Escobar veiu abrindo a alma toda, desde a porta da rua até
ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, e uma casa assim
disposta, não raro com janellas para todos os lados, muita luz e ar
puro. Tambem as ha fechadas e escuras, sem janellas, ou com poucas e
gradeadas, á semelhança de conventos o prisões. Outrosim, capellas e
bazares, simples alpendres ou paços sumptuosos.
Não sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro;
o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham
chaves nem fechaduras, bastava empurral-as, e Escobar empurrou-as e
entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...