Um soneto.
Dita a palavra, apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto
agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei só com o _Panegyrico_, e
o que as folhas delle me lembraram foi tal que merece um capitulo
ou mais. Antes, porém, e porque tambem eu tive o meu _Panegyrico_,
contarei a historia de um soneto que nunca fiz; era no tempo do
seminario, e o primeiro verso é o que ides ler:
Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
Como e porque me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim,
estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha
a medida de verso, pensei em compor com elle alguma cousa, um soneto.
A insonmia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa
hora ou duas; as cocegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma.
Não escolhi logo, logo o soneto; a principio cuidei de outra fórma, e
tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era
um poema breve e prestadio. Quanto á ideia, o primeiro verso não era
ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na
cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe
que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com
aquelle monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu,
seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como elle dissera as
suas no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos
lençóes; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece máu:
Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
Quem era a flòr? Capitú, naturalmente; mas podia ser a virtude, a
poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metaphora
da flòr, e flòr do ceu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso,
e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; atinai
deixei-me estar de costas, com os olhos no tecto, mas nem assim vinha
mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que
concluiam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitaes no
sentido e na fórma. Pensei em forjar uma de taes chaves, considerando
que o verso final, saindo chronologicamente dos treze anteriores, com
difficuldade traria a perfeição louvada; imaginei que taes chaves eram
fundidas antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compôr o
ultimo verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnifico.
Sonoro, não ha duvida. E tinha um pensamento, a victoria ganha á custa
da propria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade,
é possivel, mas tambem não era vulgar; e ainda agora não explico por
que via mysteriosa entrou n'uma cabeça de tão poucos annos. Naquella
occasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro;
depois repeti os dous versos seguidamente, e dispuz-me a ligal-os pelos
doze centraes. A ideia agora, á vista do ultimo verso, pareceu-me
melhor não ser Capitú; seria a justiça. Era mais proprio dizer que, na
pugna pela justiça, perder-se-hia acaso a vida, mas a batalha ficava
ganha. Tambem me occorreu acceitar a batalha, no sentido natural, e
fazer della a lula pela patria, por exemplo; nesse caso a flor do ceu
seria a liberdade. Esta accepção, porém, sendo o poeta um seminarista,
podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em
escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal acceitei
definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dous versos,
cada um a sou modo, um languidamente:
Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
e o outro com grande brio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e
acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei
alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles eram facilimos;
os versos saíam uns dos outros, com a ideia em si, tão naturalmente,
que se não acabava de crer se ella é que os fizera, se elles é que a
suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro
verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem terceiro, nem
quarto; não vinha nenhum. Tive alguns impetos de raiva, e mais de
uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; póde ser que,
escrevendo, os versos acudissem, mas...
Cançado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do ultimo verso, com a
simples transposição do duas palavras, assim:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
O sentido vinha a ser justamente o contrario, mas talvez isso mesmo
trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a
caridade, póde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do ceu. Criei
forças novas o esperei. Não tinha janella; se tivesse, é possivel que
fosse pedir uma ideia á noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo cá
em baixo, não seriam para mim como rimas das estrellas, e esta viva
metaphora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e
sentidos proprios?
Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo
tempo adeante escrevi algumas paginas em prosa, e agora estou compondo
esta narração, não achando maior difficuldade que escrever, bem ou
mal. Pois, senhores, nada me consola daquelle soneto que não fiz. Mas,
como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas,
e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metaphysica, dou
esses dous versos ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo, ou
se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer occasião de lazer, póde
tentar ver se o soneto sae. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro
que falta.