As pazes.
As pazes fizeram-se como a guerra, depressa. Buscasse eu neste livro
a minha gloria, e diria que as negociações partiram de mim; mas não,
foi ella que as iniciou. Alguns instantes depois, como eu estivesse
cabisbaixo, ella abaixou tambem a cabeça, mas voltando os olhos para
cima afim de ver os meus. Fiz-me de rogado; depois quiz levantar-me
para ir embora, mas nem me levantei, nem sei se iria. Capitú fitou-me
uns olhos tao ternos, e a posição os fazia tão supplices, que me deixei
ficar, passei-lhe o braço pela cintura, ella pegou-me na ponta dos
dedos, e...
Outra vez D. Fortunata appareceu á porta da casa; não sei para quê,
se nem me deixou tempo de puxar o braço; desappareceu logo. Podia ser
um simples descargo de consciencia, uma cerimonia, como as rezas de
obrigação, sem devoção, que se dizem de tropel; a não ser que fosse
para certificar aos proprios olhos a realidade que o coração lhe
dizia...
Fosse o que fosse, o meu braço continuou a apertar a cintura da filha,
e foi assim que nos pacificámos. O bonito é que cada um de nós queria
agora as culpas para si, e pediamos reciprocamente perdão. Capitú
allegava a insomnia, a dôr de cabeça, o abatimento do espirito, e
finalmente «os seus calundús.» Eu, que era muito chorão por esse tempo,
sentia os olhos molhados... Era amor puro, era effeito dos padecimentos
da amiguinha, era a ternura da reconciliação.