O Aprendiz De Barbeiro

A Maria José saiu da Candelária de noite escura, e por isso quando

chegou á Magdalena não estava ainda um unico freguez a fazer a barba na

loja de João Cardoso.

O pequeno d’ella, o Antonio, apenas a viu, largou uma navalha que

estava afiando no assentador e correu para a porta.

A mãe puxou-o para fóra, porque não queria que o mestre ouvisse o que

ella tinha que dizer ao filho.

Vergonhas não se querem assoalhadas.

Olhou para o rapaz, e a voz prendeu-se-lhe na garganta. Tinha pejo, mas

por fim decidiu-se. Ella bem queria lidar como as outras mulheres, que

a bem dizer fazem por toda a ilha o dobro do trabalho dos homens, mas

não podia, por causa d’aquella mão aleijada.

Já não sabia com que cara apparecesse ás visinhas. Tinham todas muita

pena d’ella, é verdade, ajudavam-a a viver, mas ás vezes, por muita

vontade que tivessem, tambem não podiam. Só Deus sabe das faltas, que

cada um padece!

Pedir aos ricos, nem pensar n’isso... Quem nunca soube o que é não ter,

menos acode aos que precisam.

E vae d’ahi lembrou-se, custando-lhe muito, de vir pedir alguma

coisinha ao filho.

O Antonio bem queria fazer-lhe a vontade, mas como? A féria d’aquella

semana já estava gasta n’um fato, que tinha ajustado dias antes, e por

signal bem barato. O mestre João não queria ver em casa maltrapilhos,

não tanto por si, mas por ’môr dos freguezes. Á sua loja iam os

senhores mais ricos da villa.

--Não pódes então dar-me nada? perguntou a Maria José, com os olhos

rasos de lagrimas.

--Posso, sim senhora, mas é tão pouco... A minha mãe bem sabe que se

muito tivesse... Porque estou eu aqui? Para mais a míudo lhe poder

fazer bem, e para ir vel-a de vez em quando. Mas um dia pego em mim e

abalo n’uma d’essas baleeiras!

--Lá isso não, filho, só se queres matar-me! Bom de lei és tu. Excusas

de m’o dizer! Saes todo a teu pae. Ah! Que se aquelle Caim do Gaspar

Dutra não m’o tivesse matado!... Coitadinho! Ainda estou a vel-o a

arquejar, com a cara toda suja de sangue--parecia um bicho!--os olhos

já envidraçados a fincarem-se em mim ... como a querer falar, mas sem

poder! Era para me dizer quem o tinha atirado do alto da rocha.

Mas a esse respeito não restavam duvidas á Maria José.

É verdade que na audiencia em que o Gaspar Dutra foi responder ao Caes

do Pico, porque o suspeitaram do crime, visto andar ha muito de rixa

com o Manoel Luiz, o absolveram por falta de provas, e não appareceu

uma só testemunha de vista.

Mas d’ahi a dias, depois de o malvado embarcar para a America, por ter

ficado muito arrastado com os gastos da justiça, appareceu em casa da

viuva, já perto da noite, a tia Quiteria que tinha uma fazendinha na

rocha, mesmo ao pé da outra por que o Gaspar Dutra e o Manoel Luiz

andavam desavindos.

A velha tomou de parte a Maria José e depois de obrigal-a a jurar que

não diria nada a ninguem, em quanto ella fosse viva, contou-lhe toda a

historia do crime. Estava perto do sitio, mas nem um nem outro a tinham

visto.

--O Gaspar Dutra é que começou a _abregoir_. O Manoel Luiz

desesperou-se e disse-lhe uma má palavra.--Os santos estão no altar!--O

outro poz-se fulo, correu para o Manoel e colhendo-o á falsa fé,

tal geito lhe deu que o _prantou_ pela rocha abaixo. O corpo a

principio não levava muita força, mas depois caíu tão depressa, que

nem uma bala de espingarda. Quando deu no chão da rocha, onde ficou

estatelado e de braços abertos, vinha já de uma altura de tres ou

quatro casas de sobrado. Rebentou-lhe de certo alguma coisa lá por

dentro, tanto que o pobre do homem não disse mais palavra na meia hora

que ainda viveu.

A Quiteria desculpou-se de se ter calado áquelle respeito, dizendo que

o Gaspar Dutra e o irmão não eram _boas folhas_. Se o matador, por

causa d’ella, fosse parar á costa d’Africa, o outro era muito capaz

de lhe fazer alguma, que désse que falar. Era o Gaspar tão ruim, que

andando embarcado tinha querido matar o cosinheiro de bordo, e levara

n’essa occasião duas navalhadas, de que lhe resultou o signal em cruz,

que tinha na barba, do lado esquerdo.

O Antonio ouvira dezenas de vezes a mãe contar a historia, mas nunca

tinha sentido tamanha amargura, um desejo tão furioso de vingança.

Estivesse o pae ainda vivo e a mãe não precisaria de pedir esmola, e já

elle teria ido para a America enriquecer, e não estaria alli a ganhar

tão pouco.

E lembrou-se do pae--das festas que elle lhe fazia quando vinha á noite

para casa, seguido pela _Boníta_, a cadella de gado. Ceiavam, e o

pequenito para adormecer queria sempre que o pae o deitasse no collo.

O Manoel Luiz fazia-lhe a vontade, e mal o Antonio estava pegado no

somno, despia-o todo, deitava-o na cama, com um cuidado, um carinho, de

que nem a propria mãe seria capaz.

Quando o pae morreu, o pequeno tinha oito annos. Mostrou pena, como se

já fosse uma pessoa grande.

N’aquella manhã renascia a dôr.

A mãe com tanta precisão de dinheiro para matar a fome, e o filho tendo

só um pataco que lhe dar!

O mestre João era muito agarrado ao dinheiro e não lhe emprestaria

nada.

Metteu a mão na algibeira, levou-a muito fechada até á mão direita da

Maria José, e deixou-lhe a moeda entre os dedos, escondida. Beijou a

mão da mãe e poz-se a chorar.

N’isto a voz de João Cardoso, chamou de dentro imperiosamente:

--Antonio! Ó Antonio!

O rapaz entrou na loja, de corrida.

Já lá estavam dois freguezes.

* * * * *

A concorrencia foi grande n’aquelle domingo.

Todos queriam apresentar-se na missa conventual com a cara bem

escanhoada, para que nada deslustrasse o fato de ver a Deus.

João Cardoso, sem perder a presença de espirito, ia desbravando os

matagaes incipientes que, por ausencia da navalha, tinham brotado

n’aquella semana.

Animou-se gradualmente a conversa. De um assumpto politico--a escolha

do futuro regedor--saltou para o phylloxera, que tinha apparecido pouco

antes n’uma vinha do Fayal.

--Aquillo--opinava o Estacio Manuel--é pelos modos um bicho que come a

raiz da cepa, como o caruncho roe a madeira, e o gusano o costado dos

navios.

--Bicho me pareces tu--atalhou o Amaro, do seu canto.--Se fosse bicho

podia-se lá dizer que tinha apparecido uma nódoa d’elle!...

--Nódoa?

--É o que ainda agora li no _Fayalense_. Nódoa de bicho, não

entendo.

O Estacio não se deu por vencido:

--É que as terras aonde elle chega ficam pretas como esses

_mysterios_, que ahi temos por toda a ilha.

O mestre barbeiro ensaboava, n’esta occasião, a cara do terceiro

freguez; suspendeu a operação e voltando-se para o auditorio, exclamou

sentenciosamente:

--Sabem o que lhes digo? que se essa praga de nome tão arrevezado salta

do Fayal para cá, adeus vinhas do Pico! É cada qual entrouxar a roupa e

ala para _Bastão_![2]

Não tinham acabado ainda os applausos provocados pelo dito, quando

entrou na loja um homem trigueiro, muito alto, largo de hombros e um

tanto desmanchado no andar. Na orelha direita d’este colosso luzia

uma arrecada lisa e pequena, e nos pulsos e nas costas das mãos

alastravam-se, em prodiga tatuagem, ancoras e estrellas.

O sino da egreja proxima tocou passados instantes, chamando para a

missa. Era a terceira vez.

Ficaram só dois freguezes na loja. Um, que o mestre começou a barbear,

tinha ouvido a missa das almas. O outro, o da arrecada, coube ao

Antonio, e não mostrou dar grande attenção ao chamar pressuroso do sino.

No entretanto pelo largo batido de sol passavam azafamadas e alegres

as raparigas do povo, com os lenços de chita, de pontas desamarradas,

presos á cabeça somente pelos chapeus de palha de abas largas e copa

baixa, cingida por um cordão de lã encarnada. Para ellas a missa

não é só uma devoção, é o repouso, o esquecimento momentaneo de uma

existencia monotona e trabalhosa.

O Antonio não podia mais. Ainda bem que era aquelle o ultimo freguez!

Depois da missa não viria mais nenhum. Não sabia como se tinha

aguentado tanto tempo. O seu desejo era fugir d’alli, e, quando ninguem

o visse, desatar a chorar desconsoladamente, para ver se lhe passava

aquella ancia, que o affligia. Só por grande milagre não enchera de

lanhos as caras dos freguezes. Felizmente aquella barba depressa se

fazia. Não tinha menos de quinze dias, pouco resistia á navalha.

O rapaz teve de repente um deslumbramento. Na face esquerda do homem

que estava alli, nas mãos d’elle, havia um signal, que a principio se

não podera ver, porque a barba o escondia, e que era exactamente egual

ao do Gaspar Dutra: duas cicatrizes em cruz!

Perguntou, com a voz algum tanto suffocada:

--O senhor é cá do Pico?

--Eu? Sou. E porque?...

--É da Candelária?

--Quem t’o disse?

--Quiz-me parecer. E chama-se?...

--Gaspar Dutra. Tens alguma herança para me entregar? Ha-de ter morrido

muita gente minha, n’estes oito annos que estive na America.

Não havia duvida.

O rapaz sentiu nos ouvidos um zumbido ensurdecedor, faltou-lhe a vista,

passou-lhe um calafrio por todo o corpo. Devia ser assim a approximação

da morte!

Tornou a encarar toda a sua desgraça. Exerceu, porém, um esforço

violento sobre si mesmo, e serenou apparentemente.

O Gaspar não suspeitou de nada. Via-o de costas, afiando a navalha. Por

fim disse-lhe de repellão:

--Anda! Acaba com isto!

--Sim, senhor...

--Tu estás parvo! bradou-lhe o mestre, do outro lado da loja, sem

largar a cara, que já tinha meio rapada.

O aprendiz poz machinalmente mais sabão na barba do freguez.

--És da Candelária? continuou este. Conheces lá muita gente?

--Conheço... Conheço a Maria José, viuva do Manoel Luiz... O senhor

conhece-a?

E os olhos, que se fitavam no fio da navalha virado para a garganta do

Gaspar, levantaram-se n’uma interrogação anciosa.

--Olá se conheço! E tambem conheci o marido... Um grande marau!

O Antonio teve um espasmo. Os nervos contrahiram-se-lhe medonhamente,

e o gume do aço cortou bem fundo no pescoço bronzeado do assassino,

abrindo uma ferida alongada, de onde o sangue espadanou com violencia.

O Gaspar ainda ergueu os braços, soltou um arranco, estrebuxou e caíu

de lado, no chão. Na toalha, presa por baixo da barba, o sangue formava

uma larga mancha vermelha, que se foi extendendo a mais e mais.

João Cardoso e o outro homem, extaticos, boquiabertos, transidos de

pavor, não ousavam approximar-se. Por fim, em quanto o freguez corria

para a porta a gritar «Aqui d’el-rei!», o mestre, vendo a navalha caída

no chão, chegou-se ao pequeno, que estava de parte, todo a tremer, e a

olhar com espanto para aquella massa enorme agitada pelas convulsões da

agonia.

Agarrou-o por um braço e perguntou-lhe:

--Que foi isto, _grandessissimo_ diabo?

E o Antonio, a gaguejar, como um bebedo:

--Foi ... foi elle ... que matou meu pae!

[Ilustração]

[Ilustração]

Historias das Ilhas · 第 25 / 52 题