O Jantar Do General

NÃO sei com certeza se o general tinha desembarcado nas praias do

Mindello.

O Garcez, coronel de caçadores 12 e cultor eximio da _arte de dizer

mal dos seus superiores_, affirmava que não; o Dionysio, soldado

de veteranos, dizia que sim, e jurava o até, se alguem se mostrava

duvidoso.

Ora o veterano tinha razão para estar bem informado, porque fôra

impedido do general, durante trinta e oito dos quarenta annos de

serviço attestados pelas quatro divisas brancas, que se lhe estiravam

pela manga da fardeta. Verdade é que ás vezes o Dionysio tinha

singulares confusões--patetices de seiscentos diabos, qualificava o

patrão.

Uma, principalmente foi originalissima. Uma?... Uma serie d’ellas.

O general commandava n’aquelle tempo a nôna divisão militar, hoje

defuncta.

Na Madeira a vida corria-lhe em maré de rosas.

Tendo-se recordado do inglez aprendido em Bragança com o major do

seu regimento,--um official britannico que acompanhára D. Pedro IV a

Portugal e fizera toda a campanha,--o general tornou-se frequentador

assiduo das sociedades funchalenses onde predominava o elemento

estrangeiro.

Pelo seu espirito de velho solteirão impenitente, chegaram até a

perpassar planos casamenteiros, confusos e indeterminados no principio,

claros e definidos logo que appareceu no Funchal miss Lorely, a filha

de um lord, viva e _espiègle_ como uma parisiense, e exuberante da

formosura peculiar das inglezas.

Então o antigo cadete de cavallaria 10, ou não sei quantos, formou

planos estrategicos com uma pericia, que talvez o não acompanhasse

até ao campo de batalha. Pôz ao serviço d’aquelle tardio amor todos

os recursos do seu espirito, que eram poucos, e todas as vantagens da

sua posição official, que eram muitas. Passeios militares, exercicios,

tudo foi largamente aproveitado. E de tarde, no atrio do palacete das

Angustias, onde morava a seductora _miss_, tocava sempre a banda

regimental, cujos effeitos maravilhosos Eduardo Pailleron preconisou,

muito depois e com infinito espirito, no segundo acto da _Edade

ingrata_.

Mas tambem o que elle soffria!...

A prima dos Norfolk e dos Buckingam tinha sabido ou adivinhado que o

senil Lovelace professava, com o maior fervor, o culto do dinheiro.

Jurou logo aos seus deuses, fazer do seu apaixonado um perdulario; e

tão bem se saiu da empresa, que o general offereceu d’alli a pouco um

_lunch_, a ella e á officialidade do batalhão, n’um dia de passeio

militar a Camara de Lobos--o general que, de tanto jantar fóra de casa,

«tinha avenca na chaminé», segundo a phrase malevola do Garcez.

Ora foi justamente por esta occasião, que o Dionysio cahiu na tal

serie de enganos. O patrão--Dionysio depois de reformado continuava a

servil-o--estava a arranjar-se para ir jantar a casa de _miss_

Lorely. A agua circassiana terminara o seu papel, e entrava em scena

o espartilho, quando surgiu um tormento, que fez perder á victima o

desejo de ir ver a beldade. O general acabava de sentir no joelho

esquerdo as presas aguçadas da gotta, a morderem-o cruelmente. A dor

foi tal que lhe arrancou um grito. Ataque para durar tres dias pelo

menos.

--Mas então era preciso mandar uma desculpa.

Pegou numa penna e dispoz-se a escrever no bilhete de visita algumas

palavras em inglez.

Por fatalidade o major só lhe tinha ensinado a falar a lingua de Pope;

quanto a escrevel-a, não se lembrou d’isso. Nem tudo póde lembrar.

--Ó Dionysio?

--Prompto, meu general!

--Tu sabes onde mora aquella senhora ingleza, a quem eu costumo

visitar!...

--E a quem faz o seu pé d’alferes?

--Mau, Dionysio! Sabes onde ella mora?

--Não saberei eu outra coisa!

--Pois então leva-lhe este bilhete de visita, e dize á creada que mando

muitos cumprimentos á senhora, e que lhe peço desculpa de não ir hoje

lá jantar, mas que estou doente.

--Isso não é nada. Ande, vá, olhe que em casa não se lhe arranjou

comida.

--Cala a bocca, pateta! Dize-lhe tambem que estou de cama e que por

isso não posso escrever-lhe.

--Éna que patranha!...

--Meia volta á direita, maroto, e não te esqueças de nada! Estás cada

vez mais urso.

--Somos dois, meu general! respondeu o velho, rodando sobre os

calcanhares e caminhando para a porta, em quanto o patrão lhe atirava,

por entre dentes, os epithetos de «burro, camello e animal». Ao mesmo

tempo agarrava o joelho esquerdo com ambas as mãos, e soltava uns

gemidos surdos, que tinham o que quer que fosse de grunhidos.

De repente gritou:

--Olha lá!

O soldado appareceu á porta, e olhou desconfiado para o general.

--Traze-me jantar da hospedaria do costume. Não te esqueças!

--Sim senhor, fique descançado.

E saíu.

* * * * *

Á porta da casa das Angustias, situada no meio de um esplendido jardim,

o Dionysio foi recebido pela Luiza, creadinha madeirense, que á força

de lidar com inglezes se fazia entender por elles, e assim arranjava,

em todos os invernos, excellentes casas para servir.

O veterano, depois de lhe deitar uma olhadela brejeira, apresentou o

bilhete.

--O meu general manda isto á senhora, porque não póde vir cá hoje. Está

com o seu rheumatico.

--_Saim?_ perguntou a creada.

--_Saim, menaina_, disse o Dionysio, que nunca perdia occasião de

imitar a pronuncia madeirense.

--A _mecê_ a modo que está _tirando precipicio_ commigo!

replicou, meio formalisada, a creadita.

--_Precepeicio!_... A minha _mecê_ não quer tirar-lhe nada.

Agora se eu fosse mais novo uns trinta ou quarenta annos...

--Se fosse mais novo? perguntou a rapariguinha já a sorrir.

--Mau! Mau! Basta de conversas, que o patrão mandou-me levar-lhe o

jantar.

--De cá?

--Pois se fôr de cá, melhor ainda, por certos motivos... Cá é que elle

vinha comer o jantarinho, e por conseguinte tambem de cá lh’o pódem

mandar. Pois não acha?

A Luiza transmittiu fielmente o recado a sua ama. O pedido final

produziu o effeito hylariante de uma boa caricatura do _Punch_.

Morta de riso, mas duvidosa ainda, não obstante a fama de Harpagão

do seu apaixonado sexagenario, miss Lorely mandou a Luiza interrogar

novamente o veterano.

--Ó mulher de ... não sei que diga, já lhe expliquei que elle queria o

jantar.

D’alli a pouco um creado, de casaca e gravata branca, entregava ao

soldado um grande açafate, donde se exhalava um perfume capaz de fazer

crescer agua na bocca ao menos glotão.

* * * * *

O general quando viu o Dionysio ir tirando do açafate, que lhe derreara

os braços, uns após outros, muitos pratos de porcelana finissima com

excellentes iguarias, ia tendo uma syncope.

--Quanto lhe não custaria aquelle jantar? pensou, e gritou logo para o

veterano:

--Ó patife, não me dirás onde foste buscar tudo isso? Talvez a

essa hospedaria da Entrada da Cidade onde pagam uma libra por dia

os hospedes permanentes! Um jantar assim ... que sei eu?... é um

dinheirão!...

--Cale-se para ahi, resmungou o Dionysio. É um jantar de principe e não

lhe custa um vintém!

--Não custa!

Dionysio explicou tudo.

O general caíu prostrado n’uma cadeira, com a perna ainda mais

espicaçada pela gotta. Depois, tomando uma resolução heroica, tirou

tres libras da bolsa.

--As ordenanças ainda ahi estão?

--Não foi o meu general o proprio que as mandou para o quartel?

--Bem! Pois então irás tu novamente, mas vê lá não me faças outra

asneira!...

--Outra! Qual foi a primeira, diga!

[Ilustração]

--Toma lá este dinheiro, vae á loja de bebidas da Carreira, onde eu

te mandei no outro dia, e pede ao caixeiro que te dê seis garrafas de

vinho da Madeira do melhor.

--Gasta-se tudo isto?

--Pois de certo.--E o general apertou de novo o joelho.--Elle que te

empreste um cesto, e vae levar o vinho, n’um rufo, a casa da ingleza,

com mais este bilhete de visita... Dize á senhora que te enganaste e

que eu amanhã lhe explicarei tudo.

* * * * *

Em quanto o general, pelo sim pelo não, ia comendo o jantar, Dionysio

desempenhava conscienciosamente a commissão, até chegar á porta de

_miss_ Lorely, e tambem depois de entregar o vinho á creada.

D’alli a pouco voltou a Luiza com meia libra em oiro, e deu-a ao velho.

--A senhora manda muitos cumprimentos...

Dionysio interrompeu-a:

--Isto é para pagar o vinho?...

A creada desatou a rir.

--Ah! Você ri-se? Pois se a senhora quer pagar o vinho, então ha de pôr

para aqui mais alguma coisa. Diga-lhe que não é uma, que são seis meias

librinhas--tres libras!

A Luiza, rindo a bandeiras despregadas, foi levar o recado á ama, que

riu muito mais ainda.

D’alli a pouco recebia o Dionysio tres libras.

--Aqui levo dinheiro de sobra, disse elle, e ia entregar honradamente a

meia libra do principio.

--Essa é para a _mecê_, fez-lhe notar a creada.

--Acceito para não fazer desfeita. Adeusinho, minha flor, e obrigado!

* * * * *

Quando o general acabava de jantar, chegou o Dionysio com as tres

libras.

A explicação foi longa e calorosa.

Tanto gritou o amo como o creado.

--Ora ainda em cima! Por eu lhe zelar o que é seu! respondia o

Dionysio, indignado. Se vocemecê gastasse as tres libras, dava-lhe p’ra

ahi alguma coisa, e nunca mais prestava para nada.

O caso é que o general parecia ter-se restabelecido instantaneamente

da gotta. Vestiu-se á pressa, e foi ás Angustias, pedir desculpa a

_miss_ Lorely.

A ingleza perdoou tudo, e confessou ao seu apaixonado que nunca se

tinha divertido tanto. Partícipou-lhe ao mesmo tempo que, em voltando

a Inglaterra, casaria com um primo, de quem era noiva desde os quinze

annos.

Nem por isso o general deixou d’alli em diante de jantar nas Angustias,

nem a musica de tocar no atrio do palacete.

Se perdia a noiva, não queria perder tambem os jantares.

Quanto ao Dionysio...

Continuou trapalhão como sempre.

E por isso eu, não me fiando no que elle dizia e sem paciencia para

tirar a limpo este ponto historico, termino como principiei:

Não sei com certeza se o general tinha desembarcado nas praias do

Mindello.

[Ilustração]

[Ilustração]

Historias das Ilhas · 第 24 / 52 题