Piloto

JÁ vinha anoitecendo, quando o Sergio, de pé descalço e com a trouxa da

roupa enfiada n’um cajado e pendente do hombro, saltou da estrada para

a rocha.

Sobre o horisonte occidental as nuvens, em longas fitas franjadas,

perderam a claridade vivissima de um quarto de hora mais cedo, e tomam

uma côr plumbea esbranquiçada: pelo resto do ceo alastra-se um azul

uniforme, que a diminuição de luz vae tomando mais opaco.

Convencido de que ninguem o vigiava, foi descendo a escarpa de rocha

em direitura ao mar, onde se avistava, muito ao longe, um navio, com as

velas pandas de vento.

--Se alguem me viu é que está o diabo, pensou o rapaz, e novamente

lançou a vista pela ribanceira acima, e pela enfiada dos pincaros,

que recortavam lá muito no alto, sobre o azul, o seu perfil dentado e

sombrio.

Áquella hora, a estrada é pouco frequentada. Só de vez em quando lá

passam tres ou quatro trabalhadores, que foram dar o dia á Horta, e que

voltam para casa, a bom andar, antegostando a ceia, só de avistarem uma

ou outra chaminé lançando pachorrentamente, para a limpidez do ar, uma

espiral de fumo.

O Sergio, depois de olhar por muito tempo, a ponto de os objectos

fixados se lhe tornarem quasi indistinctos, poisou no chão a trouxa,

onde vinha toda a sua roupa e um bôlo torrado rescendendo a milhã

cheirosa, e sentou-se com os pés muito perto da agua, que chapinhava

brandamente no interior da pequena angra formada, n’aquelle sitio,

pelos rochedos da costa sueste do Fayal.

E tempos sem fim, com os olhos fitos em o navio, que bordejava a boa

distancia de terra, ficou absorto no meio d’aquelle grande silencio,

esperando pela canoa, que havia de leval-o a occultas para bordo da

baleeira, conforme tinha tratado com um _senhor da villa_.

Sem saber como, foi perdendo a grande resolução que trazia de

embarcar, para fugir ao recrutamento e não ir para a Terceira, para o

_Castello_.

Obedecia tambem a outra razão: na baleeira ia ter á America, á

_Calafóna_, onde tinha enriquecido o Luiz Garcia, e aquelle senhor

já velho, dono de uma casa de sete janellas ao pé da egreja da Féteira,

e tantos outros!

Nada! O Sergio estava bem decidido, tanto que viera para alli, depois

de dar um abraço na mãe e outro no irmão, mais novo do que elle dois

annos.

Por isso mesmo não era capaz de saber o motivo por que sentia uma ancia

no peito, um aperto na garganta, e tanta vontade de chorar.

Talvez fosse porque a mãe o não tinha acompanhado até ali, para

despedir-se.

--Ora! Se foi justamente para a coisa não dar tanto nas vistas! Um

visinho não lhe queria bem e podia ir participar á _villa_. Ha

gente tão má!...

Mas, fosse o que fosse, o rapaz sentia-se a modos exquisito, e estava

já a pedir que apparecesse quanto antes a canôa.

O que havia de lembrar-lhe agora!...

Todas as historias que lhe tinham contado das baleeiras: a de um

capitão que moía a tripulação a pontapés e chicotadas. Um dia o

cosinheiro respondeu-lhe com uma bofetada, que o estirou no convez.

Foi logo mandado pôr a ferros, e nunca mais ninguem o viu. Contavam

depois os de bordo, que tinha sido cosido a facadas pelo commandante, e

atirado pela borda fóra.

--Mentiras, disse por entre dentes o Sergio, e poz-se a olhar para o

mar, a ver se lobrigava a canôa.

Não viu nada.

--Dando se mal na baleeira, desembarcava em _Béteféte_[1], e havia

de ir parar á _Calafóna_, onde o ouro é tanto, que até se cava com

o sacho!

Mas n’esta occasião lembrou-se de uma coisa, que o Luiz Garcia lhe

dizia ás vezes--que por cada um que voltava vivo, ficavam por lá

muitos, mortos sem se saber de que, se de fome, se de cansaço...

--Pois sim! Apesar d’isso vão de todas essas ilhas navios carregadinhos

de gente para a America. Mal feito fôra não ir eu tambem, concluiu o

Sergio.

Ouviu-se a curta distancia um latido, e logo depois um cão pequeno, de

pello curto, corria para junto do Sergio, muito festeiro, muito alegre.

--Olha o Piloto! Vae-te d’aqui, diabo!

E deu-lhe um pontapé, que o animal evitou fugindo-lhe com o corpo. Mas

d’alli a um instante já voltava, caracolando-se.

--Txeta, _Caim_! exclamou o Sergio mais zangado ainda, e atirou

uma pedra ao cão, acertando-lhe n’um vasio.

O Piloto, ganindo e de cabeça baixa, subiu a rocha, deitou-se no cimo

e poz-se a espreitar o dono, com o focinho extendido sobre as patas, e

os olhos fulvos brilhando na meia obscuridade, como dois carvões mal

apagados.

--Admira que viesse dar commigo! pensava o Sergio, sentando-se de novo.

Se o tinha fechado no palheiro!...

Insensivelmente foi voltando ás idéas de momentos antes.

Mas com essas vinham outras...

Sim! Quando o cão fosse d’alli para casa, havia de empurrar a porta com

o focinho, e se não a podesse abrir, ficaria a raspar com as unhas até

que apparecesse alguem, como tinha feito ainda na vespera, ao tornar

com o dono da _folga_ do José Pedro.

--Mas esta noite volta sósinho!

E a este pensamento o Sergio sentiu a garganta apertar-se-lhe ainda

mais, porque se lembrava de que a pobre mãe teria a mesma idéa e havia

de chorar pelo filho, que já andaria a essa hora sobre as aguas do mar.

Para esquecer-se, começou a recordar-se da _folga_, onde tinha

bailado com a Anna cinco _chamaritas_ a fio, a ponto de o José

Pedro, já de mau modo, dizer o costumado «Caras novas ao terreiro!»

Era boa rapariga a Anna. Quando o vigario da Féteira os via juntos a

conversarem, dizia-lhes por graça: «A modo que vocês ainda me hão de

dar que fazer lá na egreja.»

Um e outro ficavam encarnados como uns pimentões, mas não queriam mal

ao sr. padre por _entícar_ com elles. Se andava sempre com o

_canîcînho_ na agua!...

Lembrou-se depois de que a Anna, apesar do que lhe tinha promettido,

podia cansar-se de esperal-o e casar com outro, por julgar que elle,

colhendo-se á solta, faria como os passaros, e não voltaria ao laço. A

mesma peça tinha pregado a Aurelia ao João Furtado.

Só com esta desconfiança, o rapaz sentiu uma afflicção enorme, que lhe

subia ao peito e o afogava: fincou os cotovellos nos joelhos, apertou a

cabeça entre as mãos e poz-se a chorar desapoderadamente.

Só tinha chorado assim no dia da morte do pae. Uns homens mal encarados

vieram metter o defuncto na tumba. A creança poz-se nos bicos dos pés e

deitou a cabeça por cima de um dos lados d’aquella caixa preta: quando

viu o pae lá dentro, muito amarello, imaginou que aquelles homens é que

lhe haviam feito mal, que o tinham _pisado_ muito e desatou n’uns

taes gritos, que ninguem o pôde calar.

D’ahi por deante nunca mais chorara. Por isso os olhos lhe tinham

tantas lagrimas e o peito tantos soluços.

O Piloto veiu no entretanto chegando-se para o dono, manso e manso;

pousou-lhe as patas deanteiras sobre a perna e começou a lamber-lhe

as mãos e a cara com uma grande meiguice, como se quizesse consolal-o

n’aquella dôr.

O rapaz não teve alma de enxotal-o. Afigurou-se-lhe que não era o cão,

mas a familia, a casa, todos os sitios por onde o Piloto o seguia, que

estavam a chamal-o carinhosamente; que a mãe e a Anna lhe diziam ao

ouvido, baixinho: «Não te vás. Podes ser feliz na tua terra, com a tua

mãe, com a tua mulher!»

Levantou-se de chofre, poz a trouxa ao hombro, e galgou a rocha.

Chegado ao cimo, estacou duvidoso:

--Mas então ia parar ao _Castello_!...

Um senhor da villa promettera-lhe uma vez, que se fosse com elle no

tempo dos votos, o livraria de ir para soldado.

--Não lhe custava a deitar um papel na egreja, affirmava o rapaz.

Na pequena angra entrava n’este momento a canôa. Uma voz dizia

asperamente:

--Onde estará metido aquelle diabo?

O Sergio, já de longe, ouviu isto, e agachou-se um pouco, receioso de

que o vissem apesar do escuro que fazia.

O Piloto, diante d’elle, com as orelhas fitas, olhava ameaçador para o

lado do mar.

--Ó sior, não está ninguem, dizia uma voz com accento africano. O moço

arependeu-se.

--Marau! Tinha jurado!...

E chamou outra vez:

--Eh! rapaz do diabo!... Nada!

Os remos bateram na agua.

* * * * *

Quando um quarto de hora depois o Piloto entrou no quintal da casa,

estava tão fóra de si, que até ladrou ao gato. Este não fugiu, mas,

resentido pela singularidade do ataque, levantou a mão severamente para

esbofetear o companheiro. E assoprou.

O Piloto tinha desculpa: não voltava sósinho.

[Ilustração]

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Historias das Ilhas · 第 22 / 52 题