TARDE de inverno.
As vagas frisam-se de espuma, e correm umas após outras de encontro
á costa. Da banda do oceano, grandes massas de nuvens pardacentas
orladas de branco, sobrepujam o horisonte,--quaes legiões que alli
estivessem de reserva, promptas para arremetter á voz da tempestade.
As aves aquaticas, aos pios e grasnidos, approximam-se de terra, e
emquanto umas traçam na atmosphera largas curvas, outras, embaladas
pela onda, descançam na agua, d’onde ás vezes se levantam desprendendo
as azas, em que parece librarem-se a custo, para irem saltitar pelas
cristas espumosas, de pescoço estendido á cata de peixe. O vento humido
e carregado de emanações salinas, investe com a riba alcantilada,
percorre-a velozmente, curvando os enfézados arbustos e erguendo
nuvens de poeira, que remoinham até se dispersarem na campina superior.
Em frente da casa dos guardas de alfandega, alçada no sopé dos
rochedos, um homem trigueiro, alto, de apparencia militar, alonga a
vista ao de cima das aguas, e olha com persistencia para o perfil
escuro de um morro, que ao longe, muito para a direita, fecha o
horisonte terrestre, com grande crueza de tons. A ventania sacode-lhe
incessantemente o capote e obriga-o a fechar os olhos de instante a
instante.
No mar divisa-se muito ao largo uma vela, uma só: mas o guarda antevê
perigo imminente, e mal comprehende que o deixassem alli com um unico
companheiro, armados ambos de espingardas detestaveis, quando os
contrabandistas pódem ser muitos, e hão de trazer por certo bellas
carabinas, que nunca erram fogo e que dão tres ou quatro tiros, em
quanto as armas antigas a custo disparam um só.
* * * * *
A lancha, mal a noite acabou de fechar, largou de bordo carregada de
tabaco, e navegou para terra cautelosamente. Os remos cahiam na agua
ao mesmo tempo e rasgavam sem bulha o flanco das ondas. Dois outros
maritimos, de sueste enterrado na cabeça, acompanhavam os remadores e
tinham perto de si, á cautela, duas carabinas americanas. Partira da
barca uma segunda lancha, que devia correr perigos eguaes, até se haver
passado todo o contrabando--umas duzentas caixas de tabaco.
* * * * *
O João Luiz, o guarda, hesitava em recolher-se na casa de abrigo,
apezar do frio. A denuncia tinha sido clara. Perto d’alli, na pequena
enseada onde o mar é quasi sempre socegado, deviam desembarcar as
caixas de tabaco. Lá estavam doze guardas. Como, porém, junto da casa
tambem se saltava sem difficuldade, o chefe fiscal tinha mandado
guardar o posto pelo João Luiz e pelo Vicente. Não havia ninguem fóra
de serviço.
De repente o João Luiz pensou no Estacio e estremeceu.
Elle bem tinha dito muita vez ao irmão que se desgraçava continuando a
ser contrabandista, e que um homem casado e pae de dois filhos não deve
arriscar a sua vida por um boccado de dinheiro. Palavras perdidas.
O Estacio era teimoso e não largava já o modo de vida, a que se
dedicara. Parecia, a bem dizer, uma tentação. Que lhe importava o ser
mal visto pela gente da alfandega, se em poucas horas ganhava o que
muitos outros não faziam com mezes e mezes de trabalho ao sol e á
chuva? E o caso é que o Estacio andava bem vestido, trazia a mulher e
os filhos que se podiam ver, e ainda ultimamente tinha comprado uma
mobilia americana, e um relogio de parede com uma caixa mais luzidia
que a prata.
O proprio perigo offerecia-lhe attractivos singulares. Ás vezes,
durante as noites de trabalho, elle bem pensava que podia levar, quando
mal se precatasse, com uma bala e não tornar a ver a mulher nem os
filhos, principalmente o mais mocinho, o Manuel, de quatro annos, tão
louro e tão rosado, que parecia tal qual um menino Jesus. Mas as ideias
sombrias passavam rapidas, e o Estacio scismava logo depois que poderia
vir a ter um predio, muitos predios, como alguns senhores enriquecidos
d’aquelle modo, que nem por isso eram menos estimados por toda a gente.
Pelo contrabando ganhava o pão da sua familia e ganhava-o com risco de
vida, o que já não era tão pouco!
Um dia esteve quasi a brigar com o João Luiz, por este lhe dizer que
o contrabandista é um ladrão como qualquer outro, visto que rouba
o Estado e vae contra as leis; mas por fim soltou uma gargalhada e
respondeu-lhe que lá a roubar o Estado ninguem levava as lampas aos
empregados publicos, uns mandriões que passam vida regalada e que
recebem no fim de cada mez uma mão-cheia de dinheiro. Ladrões esses!
* * * * *
Noite fechada, principiou a soprar um vento mais frio. O João Luiz
ageitou-se melhor no capote e encolheu-se a um canto da rocha, de onde
se avistava bem o mar, até á costa. Passara-se uma hora ou mais talvez,
quando elle, que á força de estar attento via já tudo indistincto e
como que a apagar-se, julgou sentir bulha do lado da agua. Ia para
erguer-se, mas logo mudou de tenção; foi de rojo até á porta da casa
e chamou em voz baixa o Vicente. Tornado ao mesmo sitio, conheceu
claramente que andava perto um bote.
--Serão contrabandistas ou pescadores? murmurou ao ouvido do outro
guarda, que tinha vindo postar-se ao lado d’elle, tambem com a
espingarda engatilhada, para o que desse e viesse.
Mas não podiam fazer assim fogo, á falsa fé, detraz de um rochedo, como
o ladrão que espera um homem e o mata para roubar. Teve este pensamento
e sem importar-se com as ordens recebidas bradou:
--Quem anda ahi?
Não teve resposta. Repetiu a pergunta. O mesmo resultado. Ainda
duvidoso, e para certificar-se ou intimidar os tripulantes do bote,
disse com voz mais forte:
--Vocês são mudos?! Talvez uma bala os obrigue a falar.
Do bote partiram dois clarões repentinos.
Uma das balas tirou uma lasca de pedra, ao pé do Vicente.
--Ah! Grandes ladrões, esperem lá! gritou o João Luiz e ambos os
guardas, com as armas descançadas na rocha, desfecharam ao mesmo tempo,
quasi instinctivamente.
Do lado do mar pareceu-lhes que viera um gemido, mas, passada a
obcecação momentanea produzida pelos clarões, já não enxergaram a
embarcação.
O silencio da noite era quebrado tão sómente pelo arfar do oceano junto
á rocha.
O estampido fez com que chegassem, em acto continuo, o chefe fiscal e
os doze guardas.
A denuncia tinham-a dado provavelmente os mesmos contrabandistas,
marcando para outro sitio o desembarque, a fim de desnortearem a gente
da alfandega.
O chefe zangou-se muito, por deixar de se fazer a tomadia, mas a
final cahiu em si e absolveu o guarda, pela consideração de que
contrabandistas de tanta audacia não se venceriam ás primeiras. Demais,
o perigo tinha-lhe merecido sempre um especial desagrado.--Duas horas
depois dormia em casa a somno solto.
O João Luiz esteve de serviço toda a noite.
* * * * *
Rompeu formosa a manhã immediata.
Quando o guarda se recolhia a casa, o sol já ia alto e lançava myriades
de setas de oiro atravez da atmosphera, lavada pela chuva dos dias
anteriores. O mar, á direita, encrespava-se em ondas curtas, e alongava
na praia linguas de espuma.
Quasi ao entrar na Horta o João Luiz avistou no areal, á borda da
agua, um grupo de homens a rodear curiosamente o que quer que fosse.
Chegaram-lhe simultaneamente aos ouvidos, uns gritos de mulher.
Approximou-se e viu um cadaver extendido na areia.
Reconheceu o Estacio.
No peito, que a camisa aberta e ainda molhada deixava a nu, havia um
buraco pequeno, redondo, negro, de onde gotejava um tenue filete de
sangue.
A mulher do contrabandista, de joelhos ao pé do marido, soltava
gritos penetrantes, arrepellava o cabello e cahia de vez em quando
desamparada sobre o cadaver, em cujo rosto se desenhava constantemente,
persistentemente, a grande ancia que precedera a morte e que a morte
não pudera apagar.
A infeliz cahiu finalmente n’uma atonia profunda, e sentou-se na areia,
sem despegar os olhos de cima do morto, e murmurando no meio de um
tremor:
--Ai! O meu rico marido! O meu rico marido!
Ao pé da mãe o _Manilinho_ chorou em quanto a viu chorar. Depois,
quando ella socegou, approximou-se do pae, poz-lhe as mãosinhas na
cara, e disse a medo, muito admirado:
--Como o pae está frio! E sempre a dormir!
O guarda, horrorisado de si mesmo, pois fôra talvez a bala da sua
espingarda que tinha morto o irmão, olhava para o pequenino, e ao vel-o
tão innocente e tão divinal, levantou os olhos para o ceo, e perguntou
porque seria que Deus, mandando á terra anjos como aquelle, os não
deixava fazer milagres.
[Ilustração]
[Ilustração]