LXI

_Desça o panno, acabou a comedia!_

Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos,

nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são

pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas

romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo

de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito

particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:--«Onde

Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde

é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos

mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido

dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que

abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para

chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é

um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as

instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos

momentos da sua vida.

Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte,

encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um

pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe:

--«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um

grande _talvez_. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E

tu não passas d'um tolo.»--Depois exhalou o ultimo suspiro n'uma grande

gargalhada acompanhada d'estas palavras:

--«_Desça o panno; acabou a comedia!_»

Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres · 第 87 / 128 题