_Onde não ha el-rei o perde_
Representava-se na comedia Franceza, com immenso successo o _Cerco de
Calais_, tragedia de Belloy. O principal papel era desempenhado pela
actriz Clairon, tão conhecida pelas suas aventuras galantes sob o nome
de Fretillon. Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, que
desempenhava um papel n'esta peça, era accusado pelos seus collegas d'um
acto de improbidade. Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se a
entrar em scena em companhia d'elle, e o _Cerco de Calais_ foi
interrompido na vigesima representação. Os espectadores agitaram-se e
houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente notar entre os
mais obstinados. Ordenou-se que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque.
Ella, então, disse a quem a intimava, com emphase theatral, que ia, mas
que sua magestade podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua liberdade,
mas nada sobre a sua _honra_.
--«_Isso é sabido_--responderam-lhe--_onde não ha el-rei o perde!_»
É vulgar e de facil comprehensão a applicação d'esta phrase.
L
_Onde se vae aninhar a virtude?_
Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do
coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave,
complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento
caritativo.
Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e
pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem.
Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O
pobre chegou-se e disse-lhe:
--«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho
entregar.»
--«Não, meu amigo--acudiu--e aqui tens outro.»
E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda
a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou:
--_Onde se vae aninhar a virtude?_