_Dôr, tu não és um mal_
O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres
philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas
deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo
se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que
os nomes de _stoicismo_ e _stoico_, entraram na applicação usual da
lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam
consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente
insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões,
superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal
apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como
indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre
chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do _dever_ e que d'ella lançou
os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma
profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica.
As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças
da alma: a saude, a _apathia_, a ausencia das paixões. Foi por causa
d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros
stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião
severa em moral.
Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes,
e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos,
apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com
enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia
intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos
stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham
adoptado:--Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto,
Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e
tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes
o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do
christianismo.