_Delicias de Capua_
A antiga Capua, capital da Campania, era uma das mais formosas cidades
da Italia. Construida no centro de magnificas planicies, ensombradas
pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e a oliveira, circundada de
imensos passeios orlados das mais perfumosas plantas, das mais
brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a mais adoravel residencia
de toda a Italia.
Foi lá que Annibal, depois da batalha de Cannes, e quando já tocava o
extremo da sua audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis
d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os historiadores antigos
attribuem á permanencia de Annibal no seio das delicias de Capua, a
causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu exercito ter-se-ia
amollecido e ter-se-hia corrompido alli pelos famosos vinhos e pelos
gosos faceis.
No entretanto, se considerarmos que o capitão carthaginez e os seus
temiveis bandos guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, de que
só foram arrancados pela habil diversão de Scipião na Africa, as
_delicias de Capua_ não passam de uma amplificação de rhetorico.
Segundo a opinião de historiadores modernos e homens de guerra dos mais
celebres, um exercito de soldados feitos e experimentados não se perde
n'um quartel de inverno. O que melhor explica a inutilidade dos exforços
do maior capitão d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão 1.º,
depois da batalha de Cannes, é o abandono a que entregou a patria, onde
dominava uma facção invejosa; além de que, rodeado de povos hostis e
alliados incertos, recrutando difficilmente o seu exercito, composto de
mercenarios de toda a especie, Annibal já não estava em estado de tentar
qualquer coisa grande e decisiva. Comtudo, não se sustenta menos contra
as melhores tropas e os mais habeis generais da republica, enchendo a
Italia com o terror do seu nome, e agitando o mundo com as suas
negociações, para levantar, em toda a parte, inimisades aos romanos.
_As delicias de Capua_ ficaram em todas as linguas modernas para
designarem uma calmaria moral, temperada de divertimentos e prazeres,
em que as molas do corpo e do espirito se distendem e enfraquecem.
O padre Lacordaire aprecia a phrase do modo seguinte:
«A historia de todos os successos é a historia d'Annibal em Capua.
Esquece-se, embriaga-se, adormece-se; o lento veneno da molleza distende
todas as molas da actividade, e o ser que nada é senão pela actividade,
dissolve-se, pouco e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.»
V
_Disse eu alguma tolice?_
As lições de Platão e de Xenocrato tinham desenvolvido em Phocion um
coração virtuoso e uma alma elevada. Na tribuna, como no campo de
batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um orador foi mais inflexivel
nos seus conselhos, nem contou menos com o successo da sua perseverança.
A eloquencia de Phocion era a expressão natural do seu caracter e dos
seus costumes; elle fallava aos athenienses com a serenidade de um
philosopho e o laconismo d'um spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o
chamava--_o machado dos seus discursos_. Superior aos applausos, tanto
como aos clamores da multidão, elle abalroava de frente a potencia
popular, e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. Tinha a
palavra austera, e a sua eloquencia vigorosa e concisa desdenhava dos
artificios oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear
applausos. Estando um dia na tribuna e vendo-se ruidosamente victoriado
por todo o povo, volveu-se admirado para os seus amigos e
perguntou-lhes:
--«Disse eu alguma tolice?»