_Audacia, ainda audacia e sempre audacia_
Danton, um dos vultos mais notaveis da revolução franceza, nascera para
tribuno popular. Alto, forte, face de _bull-dog_, muito picado das
bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia, alma em harmonia com a
estatura, com o ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, não
podia ser senão o que foi, um revolucionario enthusiasta, arrastando o
povo, já pela sua palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução
muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes inflammadas,
assombrando mesmo os que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle--diz um
escriptor contemporaneo--como de um folle de forja, para accender o
povo.» Apoz a fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente a queda do
rei, fez-se eleger substituto do procurador da communa, preparou a
revolução de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da justiça.
Esse famoso dia levantou toda a Europa contra a França revolucionaria.
Brunswick, acaba de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos
francezes tinham experimentado revezes na Lorena; Longwy estava tomado,
Verdun cercado, e o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as coragens,
Danton resolveu vibrar um grande golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia
seguinte, 2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido do canhão se
fazia ouvir, elle correu á Assembleia legislativa, e, n'um discurso
rapido, fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, trémulos nas
suas cadeiras: «É n'este momento, senhores, que podem decretar que a
capital bem mereceu da França inteira. O canhão que se ouve não é o
canhão do alarme, é o passo de carga sobre os nossos inimigos!... Para
os vencermos, para os anniquilarmos, que é preciso? _Audacia, ainda
audacia e sempre audacia!_»
Algumas horas depois os massacres de Setembro espantavam Pariz.
Se Danton não organisou, como é accusado, aquellas horrorosas
carnificinas, está averiguado que nada fez para as prevenir e reprimir,
e talvez que elle visse n'ellas uma execução terrivel, mas necessaria.
N'esta repetição energica, hoje proverbial, Danton fôra precedido pelo
velho marechal de Trioulce. Quando se perguntava a este o que era
necessario para bem fazer a guerra, respondia:
--«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e sempre dinheiro!»
Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, que tres coisas fazem o
orador:--«primeiro, a acção; segundo, a acção; e terceiro, a acção.»