Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se

encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um

momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com

justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e

insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de

procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar

este personagem sem ideias nenhumas.

Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um

contemporaneo do marquez de Pombal--o que aliás a chronologia parece

demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel--nós permittir-nos-hemos

contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.

José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o

estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para

explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com

que nos governou o marquez de Pombal.

Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos

povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua

equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La

cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de

constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava

anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se

ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente

do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a

doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser

alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o

Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o

pacto constitucional.

Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos

altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção

que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que

sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou

pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._

A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na

coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,

_creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a

_liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do

commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).

Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos

excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,

Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a

acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia

de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que

governos como o de Pombal lhe opposeram.

Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que

prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os

differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que

não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em

seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as

mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»

A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:

que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava

para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza

do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso

moral da humanidade.

Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o

acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda

foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem

forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a

Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés

d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou

a salvação do povo_.

A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,

envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não

teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a

consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por

Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio

celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles

que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou

deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e

postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte

que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia

que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de

degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e

desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque

o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito

organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade

ingenita.

* * * * *

Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores

e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente

preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o

vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.

Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,

terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em

que é necessario que a gente se colloque.

Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,

em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação

tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o

vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de

seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer

com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada

sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do

centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a

fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do

senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de

mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo

charlatanismo dos seus tyrannos.

O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma

peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão

honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está

abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um

merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora

amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França

deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns

dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca

exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres

ainda de talento que de pudor.

Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que

se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do

Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o

cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util

animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada

n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de

uma charrua.

Lisboa 10 de junho de 1882.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06/07) · 第 4 / 4 段