Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre

que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos

insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em

bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante

os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os

interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente

compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para

os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,

foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos

constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:

dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á

civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir

os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude

geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é

criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na

sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é

effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da

maquina politica.

Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual

toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis

scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a

liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do

mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma

originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos

resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes

visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco

duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,

depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento

em que principiaria a ser necessaria.»

Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa

de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado

social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a

empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o

resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para

baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna

mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda

defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.

E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das

sociedades.

Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos

destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:

«Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais

consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general

Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos

cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem

d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer

porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é

indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre

cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos

promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso

principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens

excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle

sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos

seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os

_legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos

thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são

simplesmente os servos d'aquelles homens.»

Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por

Spencer.

Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e

o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por

simples trabalhadores.

O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações

civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_

calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço

bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o

excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro

pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã

Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,

eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.

Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?

Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é

que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu

apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de

uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos

que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha

representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em

doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos

quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.

Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que

outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da

França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade

muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador

Napoleão.

O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da

força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a

catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma

memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele

Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje

se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em

produzir trabalho.

Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas

reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens

d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João

Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um

modesto professor como Adão Smith.

Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto

anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro

d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em

triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua

cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e

os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o

effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas

carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e

da fauna do mundo moderno.

Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao

representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do

seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do

governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós

da _Declaração dos direitos do homem_?

Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido

precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose

solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição

social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em

negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a

acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os

restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades

proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de

cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de

reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade

de trabalho.

A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal

representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a

revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre

o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da

dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é

o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os

regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto

ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de

um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro

unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um

numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a

communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se

approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na

lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são

os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os

cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

Na Europa já não ha d'isso.

Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos

governantes.

A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com

religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus

artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus

bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se

celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes

transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre

impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a

segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas

más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as

precederam.

A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no

seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr

Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia

psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em

tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No

primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos

poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.

O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja

actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles

são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta

familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e

de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia

aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um

aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O

terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo

philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como

Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel

Bernouilli, etc.

Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a

anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os

creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.

* * * * *

Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.

Durante o seculo XVIII--diz Michel Chevalier--vemos successivamente

passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como

rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a

supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa

tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em

detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava

a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano

extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei

dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida

suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais

convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da

agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a

riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha

arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella

contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a

auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo

punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o

principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.

Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes

e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios

estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa

expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande

Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em

Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro

Campomanes e Florida Blanca.

D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na

Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a

uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,

deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal

carece de originalidade.

Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que

geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,

reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos

annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei

D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a

sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas

estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu

no governo das monarchias modernas.

As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas

sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo

d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio

mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças

reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e

que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._

Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a

funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,

da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal

viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera

com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas

nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da

Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da

politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão

o penetraram inteiramente.

A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da

politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para

salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso

a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de

Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino

desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das

alcovas.

Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as

ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do

imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza

procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão

similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro

ministro na côrte de Lisboa.

Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da

caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como

cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;

suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em

estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das

academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do

programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução

no seu paiz.

Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua

politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que

Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que

as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam

ministrado.

O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua

unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade

conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre

o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de

cada um por meio dos effeitos mais expressivos.

Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao

_tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da

Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas

e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico

tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II

transfere para os membros das academias e das universidades a censura

até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o

direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os

funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,

finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e

tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres

annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a

aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o

direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.

Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em

Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o

systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França

resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João

V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.

Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma

boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos

estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;

hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje

não paga um _sou_.

Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma

extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o

bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje

vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»

A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro

que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das

baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á

mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma

individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem

bens, nem crenças, nem opiniões.

O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem

obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está

roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em

serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a

troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo

principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe

privilegiada.

Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma

superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é

uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,

todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam

na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da

riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos

poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a

abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem

o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem

direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os

productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de

salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,

desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que

produzem e aquelles que consommem.

Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe

pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria

ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na

prosperidade ou na riqueza, publica,--a companhia do Maranhão, a de

Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do

atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas

depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de

importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de

suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar

liberdade.

O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total

reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do

seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão

social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta

como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez

de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas

disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto

uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão

irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma

cidade.

O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas

qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal

da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de

renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade

franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve

consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão

de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia

completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as

funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo

medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não

reclame.

Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o

collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto

possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza

grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo

quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.

Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que

promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;

n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»

Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião--a d'lle, e o

publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se

julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,

como se faz aos pudins.

Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre

pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou

pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um

caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen

pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão

directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.

José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande

oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo

durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do

mundo civilisado.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06/07) · 第 2 / 4 段