¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na
hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos
e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar
d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam
pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era;
¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se
logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já
conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!
¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas
grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a
salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são,
cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo
dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que
mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a
convivencia quotidiana, de todas as horas, diurna e nocturna, com
tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o
polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o
musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no
philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam
com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse,
encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á
borda do ninho!
Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no
qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia,
seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo
physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui
e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares
mais respiraveis para o espirito.
Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente _a fortiori_, os
caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.
Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no
esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os
promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo
superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo
condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos
entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis,
comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não
eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que
beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram
da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos
nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este
sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a
refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em
todo, nada.
Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:--nem
illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem
beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem
desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem edificativos.
Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu
Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a
sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua
livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem
d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D.
Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas
quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra,
na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas
floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da
Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas
eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas,
ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou
os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o
Céo, indifferença para a terra.--Viver tal não valia a pena.
Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar
saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que
deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve
perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando,
áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma
congregação nova:--a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das
sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.
¿Mas que digo eu _não houve perda_? assim mesmo a houve, e, se bem se
considerar, não tão pequena.
Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu
cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente,
passaram, pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos
alicerces se pagaria, para a mão de um particular qualquer: um Silva, um
Guimarães, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a
sua familia. Desde logo, trancados os portões a poetas, a amantes, a
meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez
começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar, á sua
imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão attentos os seus
livros havia tantos seculos, no estio á sombra das copas, no inverno
á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que
só produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a
terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os
seus ermitães, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e
mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais
ninho.
Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos,
a quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que
todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.
¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive
só de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias,
estes mixtos de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos
que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de
romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha
de mais saboroso e nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dos _Lusiadas_
seria feliz, e quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera
deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo
Jáu o trabalho de mendigar para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe
esmolar da sua pobreza
¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que
morreram á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por
cima das nossas cabeças a resplandecer!
¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós
sempre n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois
de mortos advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes
ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere
mais dois seculos; não tem pressa; agora descança-se.
¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu
mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então
isto que lhe eu cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos
Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro,
escutado, e applaudido de outros cysnes, não saberias ter suspirado
no teu ultimo canto aquelle triste verso
_o gôsto de escrever que vou perdendo;_
nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos bisavós:
Vão os annos descendo, e já do estio
há pouco que passar até o outono;
a fortuna me faz o engenho frio,
do qual já me não jacto, nem me abono;
os desgostos me vão levando ao rio
do negro esquecimento, e eterno sono;
mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha
das Musas, co'o que quero á Nação minha.
O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado,
sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de
todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.