XXXVI

¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na

hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos

e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar

d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam

pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era;

¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se

logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já

conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!

¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas

grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a

salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são,

cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo

dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que

mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a

convivencia quotidiana, de todas as horas, diurna e nocturna, com

tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o

polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o

musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no

philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam

com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse,

encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á

borda do ninho!

Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no

qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia,

seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo

physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui

e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares

mais respiraveis para o espirito.

Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente _a fortiori_, os

caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.

Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no

esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os

promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo

superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo

condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos

entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis,

comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não

eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que

beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram

da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos

nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este

sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a

refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em

todo, nada.

Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:--nem

illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem

beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem

desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem edificativos.

Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu

Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a

sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua

livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem

d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D.

Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas

quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra,

na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas

floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da

Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas

eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas,

ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou

os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o

Céo, indifferença para a terra.--Viver tal não valia a pena.

Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar

saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que

deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve

perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando,

áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma

congregação nova:--a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das

sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.

¿Mas que digo eu _não houve perda_? assim mesmo a houve, e, se bem se

considerar, não tão pequena.

Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu

cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente,

passaram, pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos

alicerces se pagaria, para a mão de um particular qualquer: um Silva, um

Guimarães, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a

sua familia. Desde logo, trancados os portões a poetas, a amantes, a

meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez

começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar, á sua

imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão attentos os seus

livros havia tantos seculos, no estio á sombra das copas, no inverno

á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que

só produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a

terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os

seus ermitães, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e

mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais

ninho.

Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos,

a quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que

todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.

¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive

só de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias,

estes mixtos de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos

que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de

romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha

de mais saboroso e nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dos _Lusiadas_

seria feliz, e quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera

deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo

Jáu o trabalho de mendigar para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe

esmolar da sua pobreza

¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que

morreram á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por

cima das nossas cabeças a resplandecer!

¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós

sempre n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois

de mortos advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes

ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere

mais dois seculos; não tem pressa; agora descança-se.

¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu

mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então

isto que lhe eu cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos

Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro,

escutado, e applaudido de outros cysnes, não saberias ter suspirado

no teu ultimo canto aquelle triste verso

_o gôsto de escrever que vou perdendo;_

nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos bisavós:

Vão os annos descendo, e já do estio

há pouco que passar até o outono;

a fortuna me faz o engenho frio,

do qual já me não jacto, nem me abono;

os desgostos me vão levando ao rio

do negro esquecimento, e eterno sono;

mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha

das Musas, co'o que quero á Nação minha.

O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado,

sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de

todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.

A Chave do Enigma · 第 53 / 95 题