O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda
hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel
que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para
successores de S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de
freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de França, para se estar com
Racine ou Molière, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances,
nada mais natural.
Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em
derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça
e de tão renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado
de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a
distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e
dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e
ermas, iam buscar por outros pontos da cêrca novas amenidades, ou
taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou
estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos pés da muralha dos
cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, atapetado de
fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta
ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda
a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas
bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos
reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por
mais que faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não
sei que lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a
imaginação grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é
que eu ideára o _Banho das Graças_, descripto por Narciso n'uma das suas
cartas; e ali é que eu devaneei o _Barquinho do lago encantado_, que vós
lestes n'este livro.
Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar
a sós com o coração ainda agitado das scenas do dormitorio do Pilar.
¡A taciturnidade do sitio, todavia tão melodiosa, vinha tão de molde aos
soliloquios da Musa interior! Eu não pensava: borboleteava: deixava-me
boiar na viração pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um
espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.
Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em
que tudo quanto é solido, isto é, duro,--fixo, isto é, estorvo,--temido,
isto é, tirannia,--elementos de que se nos compõe a vida real a todos
quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago
de bemaventurança nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas,
em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de
doidos com que elles nos calumniam, forçamos nós o destino a servir-nos,
como escravo docil aos nossos minimos desejos.
Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os.
Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas
exhalações dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos
com os nossos irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos
continham tanta ternura como os nossos berços.
¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas
immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!
«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh,
que não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade.
As proprias lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem;
outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser;
e mais formosas e mais queridas sempre, de apparição em reapparição.
Negue-o quem quizer; não se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que
tudo isto é muito verdade.
N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como
presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que
embebeu a visão, e já não a perde.
¡_O meu Lago_, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo
aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me
possam despojar! ¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram
elles os senhores d'aquelles dominios, _mea regna_!... e um sopro, que
se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de
propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e
estão-se rindo de revoluções do mundo: _mea regnas_. ¿Sabeis porquê?
porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e
a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo,
bens, e futuros, de nossa terra.
No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma
propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam,
porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a
tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as
arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de
ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios
das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o
disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.