¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me
sentir. Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle,
e eu colhi-o.
Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que
estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.
¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo,
duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?
Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos,
nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello
feudal. Ainda no berço uma cigana lhe lêra a _buena-dicha_, em que
ninguem creu.
O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de
proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o
canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições
selvaticas, a andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho
para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura,
entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada nas
noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as
virações, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a
escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as
diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não
trovador.
Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar
n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua
humildade a enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça,
montada no seu palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel.
Desde essa hora perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a
alguma outra; pediu á fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe
obtivessem mercê de correspondencia, que fôra temeridade e loucura o
esperál-a, mas unicamente o fazer-se d'ella conhecido por seus cantares
nas _côrtes de amor_, quando já não fosse por seu denodo contra
inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas na terra, ignorado
d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes um heroe;
mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a sciencia e
a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da Provença,
obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.
O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa
elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e
damas se reuniam.
O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia
porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e
inveja dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma
hora do serão de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de
seus espaldares lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem
poderia dizer a cada uma d'ellas se lhe não estava destinado um papel na
historia, ainda sem titulo, que por acaso se ia abrir?
O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto
perante um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de
cathedral, começava a sua primeira recitação; se o effeito correspondia
nos ouvintes á espectativa, o serão seguinte já lhe dava assento n'um
escabello; tão insigne favor, redobrava-lhe posses ao talento;
excedia os prestigios da vespera.
Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado
pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella
propria trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.
D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era
sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais
tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára
com terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza
do seu valle natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um
milagre; mas para se despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe
mister cantar o amor, sem denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e
peior: era-lhe forçoso dizer muito, calando tudo; desconcertar ou
prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de cortezãos, e de soberbos;
arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto e alegre pelo
relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a pontaria
da bésta sempre n'outro.
Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de
quem o inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se
faz amor.
Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no
inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é
amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem
se entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe
revelava a sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em
logar de um; eram dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade
ainda mais occulta. ¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de
Faiel, se não misturam com as festivas delicias na historia dos
trovadores! ¡laudas de sangue por entre paginas doiradas!
Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis
declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do
Castello de Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem
Guilherme de Cabestaing.
¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão
pouco, na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto
por todos os modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do
seu bemdito sonho da igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas
de atrevimento para se remontar até á esphera da castellan, emprestava o
amor as suas á castellan, para ella baixar até á cabana do trovador.
D'ali subiam juntos á felicidade. A abelha rainha da colmeia, e o
insecto que ella escolhe d'entre os seus adoradores, vão, dizem os
naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance d'olhos, o mysterio
por onde o enxame se regenera.
Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a
fusão das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa
presumir sem temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com
os seus subditos mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos,
não concorreriam menos para a demolição do feudalismo, que os
monstruosos direitos dos senhores, ás primicias nos casamentos das
villans suas vassallas.
Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena
historia, e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu
tinha de mim, nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia
moral onde habitava Maria; e que, se a minha alma era, como talvez
fosse, a que Deus talhara para a sua, muito bem fez ella em vir provocar
o seu trovador.
Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não
verdade muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta
collecção; quando não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.
¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média?
falo do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do
que se comprehendia sob a denominação de _gaia sciencia_, e que dava
assumpto ás discussões e sentenças das famigeradas _côrtes de amor_: era
um verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario,
pelos campos da phantasia e do sentimento.
A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa, e passára, sem
mudar de nome, a interpretar igualmente os desejos bem succedidos; e as
festas do coração. A _gaia_, ou folgasan, _sciencia_, pelo contrario,
tendo devido começar, como o seu nome o inculca, por celebrar as boas
fortunas, foi por natural pendor descahindo a pouco e pouco para a
tristeza, para a saudade, para a desesperança, que vieram por derradeiro
a constituir o habito e principal caracter da poesia da edade média.
O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que
celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos
de pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto
se operam; não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos
espiritos; entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante
áquelle com que a linguagem theologica obumbrava os mysterios da
Religião; percebia-se sempre pelo fundo da scena ir e vir uma figura de
mulher, encarregada de algum papel singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem
o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era adorada; sabia-se que o merecia;
nada mais.
O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela
auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe,
esperando e desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos
appetites, sem de todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como
um demonio; invejando toda a especie de glorias para merecer, invejando
a paz dos mortos para descançar; maldizendo e apertando os laços;
misturando, como as creanças, o riso com as lagrimas; e não admittindo
para confidente senão as arvores e o vento, os rios, as flores, e as
estrellas.
Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que
não eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram
menestreis; quando a mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia
um sepulcro, e a devoção d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em
fluxo e refluxo contínuo as povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a
heroicidade era lyrica, e as fraquezas heroicas! tempos extraordinarios,
resumidos em dois versos pelo seu chronista epico, o Ariosto:
_Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,_
_Le cortesie, l'audaci imprese io canto._
Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os
cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo
undecimo, do duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura
os lestes; sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente
poesia não parece senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto
dos Provençaes. Não os conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece
que se os conhecesse os tomaria para exemplares; mas o certo é que os
meus amores se assimilhavam aos de muitos d'elles em mais de um ponto; e
portanto, sendo eu sincero, como elles o tinham sido, era impossivel que
a lyra em que eu improvisava, não gemesse, sem o cuidar, no estylo da
mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos annos no cemiterio
das litteraturas.
Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de
existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e
inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela
necessidade de a cantar.