A RELIGIOSA

Ay! que vida tan amarga

dò no se goza el Señor!

Y si es dulce el amor,

no lo es la esperanza larga.

Quiteme Dios esta carga,

mas pesada que de azero,

que muero porque no muero.

Solo con la confianza

vivo de que he de morir:

porque muriendo el vivir

me assegura mi esperanza.

Muerte, dó el vivir se alcanza,

no te tardes, que te espero,

que muero porque no muero.

¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas

apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida

que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores;

esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta

mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se

imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos

sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos

Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam

com lagrimas.

_Valchiusa_ ou, como dizem, _Voclusa_, onde Petrarcha passa tantos annos

sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e

depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para

todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e

universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.

Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a

austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.

Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso

rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e

lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias

da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão

procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.

Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher;

a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.

Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em

realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; _ter geminis

honoribus_; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a

de murta, como amante.

Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como

escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das

Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.

Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios

e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a

alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse

feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a

absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e

perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario de _Laureta_.

A Chave do Enigma · 第 45 / 95 题