As differentes circumstancias companheiras da hora extrema de quatro

homens eminentes, d'essa hora em que o espirito se mostra nú aos olhos

da posteridade, revelam o seu estado moral e as suas convicções, e

n'elle e n'ellas o estado moral e as convicções da geração a que

pertenceram. No primeiro ha uma individualidade vigorosa, que tem fé na

propria virtude e no testimunho da consciencia. No segundo ha ainda a

virtude, mas não ha a consciencia d'ella; substituiu-a o juizo do

monarcha: a gloria crê precisar da confirmação dos cortezãos; crê

precisar de um diploma que a legalise. No terceiro ha tambem virtude,

mas já como que duvidosa de si; a individualidade desappareceu

completamente; o homem nobre e virtuoso crê que o seu nome se hade

submergir na corrupção geral que o cerca, e ergue-se no seu leito de

agonia para bradar aos vindoiros: «juro-vos que fui honesto.» No quarto,

emfim, a gloria prostitue-se á traição; a nacionalidade é levada ao

mercado das ambições de estrangeiros; um homem illustre cospe na face da

patria, expira contando os saccos de oiro que lhe valeu sua perfidia, e

a nação dissolve-se como um cadaver gangrenado.

Eis aqui porque eu considero todo o seculo decimo-sexto como um seculo

de decadencia. O viço da arvore dura algum tempo depois de se lhe haver

entranhado o gusano no âmago do tronco; porque as folhas nasceram e

crearam-se quando a seiva ainda era pura. É após isso que as folhas

amarellecem e caem; os ramos engelham e torcem-se; o tronco secca e

apodrece. Então passa o sôpro das tempestades, e a arvore desaba em

terra.

Mas, dirá alguem, todos esses factos, que constituem o facto complexo da

decadencia, foram acasos; foram decretos do destino. Explicação

insensata! As palavras _acaso_ e _destino_ são apenas desculpas vãs, a

que os entendimentos tardos se acoitam para se esquivarem á indagação

das causas dos phenomenos historicos. Os acontecimentos que caracterisam

a generalidade de uma épocha, e que reunidos constituem a synthese

d'ella, teem sempre origem na indole intima da sociedade, na natureza da

sua organisação. Se houve uma grande mudança na existencia politica de

um povo, o caracter da geração que foi educada pelas antigas

instituições e antigos costumes, e que assistiu a essa transformação,

poderá ser modificado por ella, mas conservará sempre os principaes

lineamentos que lhe imprimiram as formulas sociaes que passaram. São os

homens que vem depois os que traduzem em obras as novas formulas, e é

pela analyse d'essas obras que a revolução deve ser julgada; porque só

então os factos são exclusivamente gerados por ella.

Applicando estes principios á transformação preparada durante a edade

média, e concluida pelo duro coração e robusta intelligencia de D. João

II, acharemos facilmente a solução d'esse mysterio da força e esplendor

do reinado subsequente, e da rapidez quasi incrivel com que tudo isso se

abysmou em pouco mais de sessenta annos. Virá um dia em que, indagando o

estado social do seculo XV, achemos ahi as causas dos successos do

primeiro quartel do decimo sexto; das prosperidades e glorias do reinado

de D. Manuel.

* * * * *

Bem que rapidamente, tenho procurado fazer conhecer quaes sejam os

fundamentos da these que estabeleci--de que a decadencia da nação

portugueza, começando apparentemente nos ultimos annos do reinado de D.

João III, principia essencialmente nos primeiros do reinado antecedente,

ou, com mais rigorosa data, nas côrtes d'Evora de 1482. Para vermos como

debaixo da grandeza e brilho exterior d'esses dois reinados ia já

lavrando a dissolução social, seria necessario saír do cyclo a que me

pareceu deverem limitar-se estas cartas, isto é, do que propriamente se

póde chamar edade média portugueza.

Nas considerações que fiz, n'esta rapida e necessaria digressão sobre o

verdadeiro character do seculo decimo sexto, está, mais que no respeito

á chronologia, a razão para havermos de preferir o estudo da edade média

ao do seculo das nossas glorias. No estudo da épocha vulgarmente chamada

do renascimento, nome que talvez só por antiphrase ou cruel escarneo lhe

conviria, fôra preciso fechar os olhos ao brilho de apparentes

grandezas, e allumiar com o facho da historia o corpo enfermo da

sociedade portugueza, que apressava a sua hora de morrer com a febre das

conquistas. Seria necessario vê-lo desmaiar e definhar-se esmagado

debaixo do pêso da sua grandeza, e depois descer ao sepulchro carcomido

pelo cancro da propria corrupção moral. Mais um motivo pessoal é esse

para nos esquecermos d'elle. Para fartar de amargurar os corações que

amam a terra da patria, não é necessaria a historia; sobra-nos a vida

presente.

Mas a razão capital da preferencia, que devemos dar ao estudo da edade

media, está no que ha pouco ponderei ácerca dos fins objectivos da

historia. Nem descobrimentos, nem conquistas, nem commercios

estabelecidos pelo privilegio da espada, nem o luxo e magestade de um

imperio immenso, nos podem ensinar hoje a sabedoria social. Os

instinctos maravilhosos de uma nação que tende a constituir-se; as

luctas dos diversos elementos politicos; as causas e effeitos do

predominio e abatimento das differentes classes da sociedade; os vicios

das instituições incompletas e incertas, que obrigaram não só nossos

avós, mas toda a Europa, a deixar o progresso natural e logico da

civilisação moderna para se lançar na imitação necessaria, mas bastarda,

da civilisação antiga; a existencia emfim intellectual, moral, e

material da edade media é que póde dar proveitosas lições á sociedade

presente, com a qual tem muitas e mui completas analogias.

Abstraiâmos, com effeito, da enorme distancia de civilisação que nos

separa d'esses tempos; abstraiâmos da quasi constante antinomia entre a

vida civil da edade media e a vida civil actual, e consideremol-as ambas

unicamente nas suas tendencias politicas. Dizei-me: não ha uma parecença

notavel entre tão afastadas épochas? Imaginae um periodo da historia do

genero humano, em que os diversos principios de governo se combatessem

sem cessar, buscando enfraquecer-se mutuamente, equilibrando-se por

algum tempo, vencendo-se por fim uns aos outros, e achando brevemente na

victoria a propria ruina. Imaginae um periodo, em que as crenças

politicas fossem convertidas em odios implacaveis, herdados muitas vezes

de paes a filhos; em que as garantias sociaes estivessem muitas vezes

nas leis e faltassem quasi sempre nos factos; em que cada uma das

classes accusasse as outras de oppressoras, iniquas, violentas, quando

subjugada, e fosse iniqua, oppressora, e violenta apenas obtivesse o

poder; em que a espada do homem de guerra resolvesse frequentemente os

problemas politicos, e em que ao mesmo tempo a superioridade

intellectual do individuo tivesse commummente mais acção nas phases da

sociedade que a auctoridade publica; em que se junctassem no mesmo povo,

na mesma classe, e até no mesmo homem, os extremos de nobres affectos e

da corrupção e maldade mais torpes. Imaginae um periodo com estes

caracteres, e buscae-o depois na historia. Onde é que o encontrae? Na

edade media. Mudae agora uma palavra; chamae ás classes partidos--e essa

mudança será apenas de nome, porque os partidos representam os

interesses diversos das diversas classes--e dizei-nos a que épocha vos

parece quadrarem taes caracteres? Indubitavelmente á nossa. Porque taes

coincidencias em tempos distantes? Examinel-o; que em similhante exame

acharemos mais um motivo para estudarmos com preferencia os quatro

primeiros seculos da sociedade portugueza.

A edade media foi o largo e custoso lavor da Europa para transformar a

unidade do imperio romano na individualidade dos povos modernos. A

organisação do imperio era essencialmente falsa e absurda; as suas

partes eram heterogeneas. Se assim não fosse, a furia dos barbaros

septemtrionaes, ou se teria quebrado embatendo nas fronteiras, ou apenas

teria trazido ao seu seio o mesmo que as invasões dos tartaros na

China--apenas revoluções dynasticas. Se a alluvião d'homens do norte não

desmembrasse o imperio romano, desmembrar-se-hia elle por si. Mais tarde

ou mais cedo as raças diversas que o compunham, sem o constituirem, se

haviam de separar, e reconstituir-se na sua individualidade, se as

tribus septemtrionaes não viessem substituir a acção vigorosa e rapida

da conquista á acção branda e lenta do tempo. O restabelecimento da

variedade sobre as ruinas da unidade absoluta é o grande principio que a

meu ver a edade media representa: esse principio está impresso na maior

parte das fórmas sociaes, nas instituições, na separação dos idiomas, e

até na litteratura. Por dez seculos a Europa, que fôra romana, não fez

mais de que agitar-se á roda d'este principio. Da profunda ignorancia em

que, como era natural, ella caiu ao expirar da civilisação antiga,

nasceu a sua impotencia para o fazer predominar duravelmente nos varios

aspectos da vida das nações: mas as nações ficaram. As diversas

nacionalidades, separadas por caracteres profundamente distinctos, foram

o unico resultado importante de mil annos de luctas, de revoluções,

d'incertezas. Foi só isto que o renascimento não soube nem pôde

condemnar como abusão e mentira.

O renascimento não foi unicamente uma rehabilitação do pensar romano na

arte e na sciencia: foi a restauração completa da unidade como principio

dominador e exclusivo, salva a distincção das nacionalidades, que ficou

subsistindo. Cada povo converteu-se, não sei se diga n'uma imagem, se

n'um arremedilho ou farça do imperio. Faltou um Cesar, ou para melhor

dizer appareceu em cada paiz o seu--D. João II em Portugal, Isabel em

Hespanha, Luiz XI em França, Henrique VII em Inglaterra, Maximiliano na

Allemanha. Era que em cada um d'estes paizes as instituições nacionaes

tinham cedido o campo ás Institutas e Pandectas.

O que são as revoluções politicas do nosso tempo? São um protesto contra

o renascimento; uma rejeição da unidade absoluta; uma renovação das

tentativas para organizar a variedade. Hoje os povos da Europa atam o

fio partido das suas tradições da infancia e da mocidade. O seculo XIX é

o undecimo do que exclusivamente se póde chamar socialismo moderno. Os

tres que o precederam foram uma especie d'hybernação em que o progresso

humano esteve, não suspenso, mas latente e concentrado nas

intelligencias que iam accumulando forças para o traduzir em realidades

sociaes. Eis d'onde procedem as analogias dos seculos chamados barbaros

com a épocha em que vivemos.

Esta interrupção das fórmas exteriores da vida politica moderna foi,

absolutamente fallando, um mal ou foi um bem? Não o sei; mas sei que foi

uma necessidade. A lucta continua em que viviam as classes para defender

ou dar o predominio aos respectivos interesses; a desegualdade de forças

entre os elementos politicos; a barbaria moral, que sabe misturar muitas

e grandes virtudes com a corrupção dos costumes, principalmente

domesticos; a falta d'ordem publica e de melhoramentos materiaes, pelo

imcompleto da administração geral, que devia regular e supprir a curta

acção das administrações municipaes; a ignorancia extrema, que reinava

por toda a parte, na fidalguia por systema, no clero por depravação e

fanatismo, no povo pela carencia absoluta d'educação; tudo isto tornava

necessaria a acção da monarchia pura. Era preciso que as nações se

habilitassem, no tirocinio da oppressão, para a liberdade; que os

elementos sociaes se descriminassem e repousassem; que a

intellectualidade se desenvolvesse; que, emfim, as diversas

nacionalidades existissem _em si_, como existiam _entre si_.

Porque cumpre confessar que, se o absolutismo pesou duramente na Europa,

tambem facilitou de um modo admiravel a ligação e harmonia do corpo

social. A edade media dividira por limites quasi indestructiveis as

differentes nacionalidades; fizera-as, como disse, existir entre si: o

principio caracteristico do socialismo moderno--a variedade--tinha sido

n'esta parte, senão um pensamento, ao menos um instincto imperioso,

definido, claro e activo; mas a nacionalidade, repito, não existia em si

ou para si. A variedade ia até o individualismo, isto é, separava ou

antes fazia inimigas as classes, as hierarchias, as povoações do mesmo

paiz, os individuos da mesma povoação; e d'este modo aquelle principio,

que estremára os povos, tendia a annullar a propria obra, levando ao

excesso a sua intolerancia contra o principio opposto.

Quando, algum dia, chegarmos ao exame do estado da sociedade portugueza

na epocha wisigothico-feudal, que abrange o periodo decorrido desde o

conde Henrique até D. Affonso III, em que a influencia das instituições

romanas mal despontava, acharemos a prova d'esta verdade: veremos,

digamos assim, a raiva da divisibilidade; vel-a-hemos não parar nas

divisões das classes, antes retalhar cada uma d'estas em variadas

hierarchias. Mais: veremos a desunião, ou para melhor dizer, a guerra

posta de permeio entre municipio e municipio, e legalisada politicamente

nos foraes, civilmente nos costumes ou leis tradicionaes; vel-a-hemos

entre os mesmos burguezes, de familia para familia, de homem para homem:

vel-a-hemos de geira de terra para geira de terra, da behetria para o

senhorio, do couto para a honra, da terra da corôa para o reguengo; em

todos os logares e por todos os modos. E qual era a fórmula material,

que exprimia esta divisibilidade quasi infinita? O privilegio. O

privilegio era uma especie d'escada de Jacob; tinha degràus

innumeraveis. A maior parte consistia em alguns direitos de liberdade

para o que a elles subira; muitos em direito de opprimir os pequenos; e

todos em representarem uma idéa falsa, isto é, que a abjecção extrema

era a regra geral, e que todas as vantagens sociaes vinham por excepção.

Felizmente a regra geral dava-se em um numero d'individuos menor que a

excepção; e o privilegio, tomando esta palavra na accepção que hoje

se-lhe-liga, vinha por essa facto a perder completamente a sua natureza

excepcional.

Todos os seculos teem ufanias vãs e infundadas: uma das do nosso, que

pertence a esta especie, é a de havermos sido inexoraveis liveladores de

direitos e condições. Enganamo-nos. Mil vezes mais que nós o foi o

grande principio de unidade politica chamado monarchia absoluta. Nós

aniquilámos alguns privilegios, que elle conservára, porque eram mais

d'apparato que de substancia: nós derribámos meia duzia de tripodes,

onde alguns vangloriosos se empoleiravam, porque, pobres tacanhos,

precisavam d'isso para que os víssemos. A monarchia derribou gigantes;

partiu em pedaços miudos a escada immensa do privilegio. Verdade é que

metade d'esses privilegios eram foros de liberdade, que pertencem a

todos os homens; mas, como já disse, a edade media lhe ensinára que a

servidão mais abjecta só deixava d'existir por privilegio, e a monarchia

não podia assim esquecer tão repetida lição.

Não consente o bom methodo que antecipe aqui o desenvolvimento das idéas

que em resumo tenho apontado; por isso limitar-me-hei a só mais uma

observação. O principio da liberdade pertence incontestavelmente á edade

media, porque, se não me engano, a liberdade não é mais que a

facilitação da variedade nos actos humanos, e a variedade é, como tenho

repetido, o caracter essencial d'essa épocha. O principio da egualdade

dos direitos e deveres fêl-o porém surgir, e converteu-o em facto geral,

o predominio da monarchia. Esta condição social, que nos parece hoje tão

inconcussa, tão obvia, não poderia subsistir na épocha da completa

desegualdade. Era necessaria a existencia d'uma entidade politica que,

estando acima de toda a sociedade, tendesse constantemente a nivelar,

pelo menos em relação a si, as outras entidades, e que finalmente o

alcançasse. Era preciso que a opinião do poder divino dos reis chegasse

a sanctificar-se com a decisiva victoria do elemento monarchico, para a

egualdade civil se comprehender. As idéas actuaes a este respeito são

apenas a conclusão inteira de certos postulados, dos quaes a monarchia

tirára principalmente as consequencias relativas a si.

Obrigado, pelo empenho que tomei de mostrar a importancia do grande

cyclo historico chamado edade media, a fazer sentir que o posterior a

elle foi um periodo de decadencia, e por isso forçado a representar em

parte os males sociaes produzidos pela monarchia absoluta, era

necessario que mencionasse egualmente os factos que abonam o seu

triumpho. Pesar uns e outros, e comparal-os pela totalidade dos seus

resultados, careceria d'averiguações que não tenho feito, e de um grau

de perspicacia que provavelmente não possuo. Foi por isso que já

confessei ignorava se esse grande acontecimento tinha sido um mal ou um

bem, contentando-me com saber que havia sido uma necessidade. As

considerações que fiz me parecem indical-o sufficientemente. No

proseguimento d'estas cartas espero que achemos provas completas d'estas

simples indicações.

Um reparo se póde fazer ainda ácerca da idéa fundamental sobre que tenho

procurado fixar a attenção do leitor, isto é, sobre a conveniencia de se

estudar exclusivamente, ou pelo menos com preferencia, a historia da

edade media, se do estudo da historia queremos tirar applicações para a

vida presente. Este escrupulo, analogo ao que resulta da grandeza

apparente do seculo decimo sexto, e da acção vigorosa da unidade

absoluta predominando exclusivamente na organisação politica d'essa

épocha, resolve-se por um modo tambem analogo áquelle de que me servi

para resolver o primeiro.

Se a monarchia absoluta como elemento politico trouxe reformas

necessarias; se é verdade que lhe devemos principalmente o haver dado

nexo a este corpo moral chamado nação, o ter feito nascer e progredir

até certo ponto a egualdade civil e a centralisação administrativa; será

por ventura escusado o conhecimento da sua influencia na organisação

social? Não deverá esse conhecimento ser mais profundo e exacto, se o

buscarmos na épocha em que a acção politica da monarchia era unica, e em

que todas as resistencias dos outros elementos tinham desapparecido, ou

estavam subjugadas pela preponderancia illimitada da corôa? E não é ao

seculo decimo sexto e aos dous seguintes que pertence este grande facto?

Eis-aqui, pois, ainda outra difficuldade, que se póde oppôr á minha

theoria; difficuldade que apresentei com toda a força de que é

susceptivel. Esta força, porém, achal-a-hemos só apparente, se quizermos

attender ao verdadeiro modo de considerar a questão de que hoje nos

occupamos.

O elemento monarchico não surgiu repentinamente nos fins do seculo XV.

Quem não o sabe? Nos acontecimentos humanos tudo vem successivamente;

cada facto é um annel da cadeia eterna das causas e effeitos. O

principio da unidade nunca deixou d'existir; porque os mesmos povos que

destruiram o imperio absoluto, o despotismo dos Cesares, e retalharam o

orbe romano, traziam comsigo nos capitães das hostes guerreiras, nos

cabeças das tribus barbaras da Germania, esse elemento, esse principio.

Depois dos graves e profundos trabalhos historicos de Agostinho Thierry

quasi ninguem ignora qual era o valor politico dos Xeques e Caciques dos

antigos selvagens da Europa; o que eram os Alariks, Hlodewigs, e

Theoderiks, que os escriptores dos tres ultimos seculos poliram e

enfeitaram com os titulos pomposos de principes e monarchas. Mas a sua

existencia, e a especie de supremacia, de que a eleição ou a propria

superioridade physica e intellectual os revestia, é incontestavel. Elles

não eram reis; os barbaros não lhes davam um nome que correspondesse á

idéa que este titulo representa; mas os habitantes das provincias

romanas, que elles conquistavam, lh'o deram. Isto mostraria, se d'isso

não houvesse outras provas, que suas attribuições de algum modo se

approximavam da idéa a que entre os povos civilisados do imperio tal

expressão cabia. Tomada até certo ponto a barbaria dos vencedores pela

policia dos vencidos, estes reis na lingua romana, foram-no, mais ou

menos completamente, na realidade dos factos. As monarchias modernas lá

vão achar sua origem.

Atravez de toda a edade media, em que o christianismo, conjurado n'essa

parte com os costumes dos barbaros, bradava independencia e liberdade á

corrupta civilisação antiga, esta lhe respondia com o brado de ordem e

paz. Trinta gerações vacilharam entre estes dous gritos, que ambos

soavam nos corações; porque ambos representavam as primeiras precisões

sociaes. Por fim os povos, cansados do vacillar de mil annos, cairam,

como era natural, aos pés da paz e da ordem. As necessidades, para as

quaes offerecia remedio a civilisação romana, tinham-se tornado mais

fortes no meio de tantas luctas para as unir com as que nasciam da

civilisação do evangelho e do instincto da natureza. A monarchia

mostrára sempre, no meio d'essas largas e trabalhosas tempestades

humanas, que era a herdeira das tradições do imperio; a unidade do poder

provára por muitas vezes que ella só possuia o segredo da paz e da ordem

publica. D'ahi veio o seu inevitavel triumpho.

No estudo da edade media portugueza acharemos uma prova incontestavel

d'estas observações. Veremos a lei civil geral substituida gradualmente

á lei civil local; o systema de fazenda dos tributos geraes substituido

ao irregular das contribuições de foral; a administração do estado

nascer sobre as ruinas das administrações do municipio e do senhorio

quasi feudal, tudo por influencia da corôa; e veremos tambem d'essas

causas, e d'outras analogas a ella, resultar a ordem e a organisação do

nosso paiz.

É ahi que nós podêmos comprehender o elemento monarchico; é ahi que a

sua acção apparece energica, civilisadora, progressiva; é ahi que elle

disputa o predominio aos outros elementos, e que se faz popular

annullando-os. Obtido o triumpho, assemelha-se a todos os vencedores:

degenera e corrompe-se nos ocios da victoria; sáe das raias de

organisador, e converte-se em oppressão. Nem d'outro modo podia

acontecer: elle representava unicamente a ordem e a paz, e os elementos

d'onde podia nascer a independencia e a liberdade tinham sido

completamente esmagados ou constrangidos ao silencio.

Assim, no fim do seculo XV ha verdadeiramente um ponto de intersecção na

vida da monarchia: a actividade que ella estava habituada a empregar nos

seus rijos combates com a aristocracia, e em buscar a alliança da

democracia para a fazer suicidar ao passo que d'ella se ajudava para

vencer o privilegio; essa actividade, digo, espraia-se nos

descobrimentos e conquistas, porque não tem já objecto nas fórmulas

sociaes: n'estas a sua acção benefica cessa porque está completa, e

principia a sua acção deleteria; no logar da ordem põe a servidão; em

vez do repouso da paz produz a quietação do temor; á moralidade

substitue a corrupção dos costumes. Pervertida a indole nacional,

enfraquecida a energia interior do povo, o poderio exterior começa a

desmoronar-se logo: o primeiro symptoma de morte claro e indubitavel

apparece no desamparar as praças d'Africa em tempo de D. João III. O

ultimo arranco da nação não tarda: é o estertor dos moribundos nos

campos de Alcacer-Kebir.

Eis de que modo a propria monarchia, considerada como principio social,

como elemento de civilisação, se deve com preferencia estudar na épocha

em que se preparava, mas ainda não existia, o seu predominio absoluto.

Eis-nos assim outra vez encerrados no cyclo da edade media, do qual

parecia que ella nos obrigaria a sair.

RESPOSTA ÁS CENSURAS

DE

VILHENA SALDANHA

1846

Ajuda, 8 de Abril de 1846.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 05 · 第 6 / 14 段