Do merecimento litterario de Gomes Eannes de Azurara diremos

Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),

Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

OPUSCULOS V

*OPUSCULOS*

POR

A. HERCULANO

SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO

DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE

TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

*TOMO V*

CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS

TOMO II

LISBOA

VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

73, Chiado, 75

M DCCC LXXX VI

COIMBRA--IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

AO

ILL-^{MO} E EX.^{MO} SENHOR CONSELHEIRO

ANTONIO DE SERPA PIMENTEL

DEDICAM

OS EDITORES

Compõe-se este volume de tres escriptos já impressos em outras épochas,

mas provavemente desconhecidos da maior parte dos leitores actuaes, e

bem assim de um notavel estudo inedito ácerca do Feudalismo, que o

auctor não chegou a concluir, e em que trabalhava quando a morte o

surprehendeu.

Pouco diremos a respeito d'aquellas primeiras composições.

As noticias da vida e obras de alguns historiadores portuguezes são

extrahidas do _Panorama_. Destinadas, apenas, a satisfazer a curiosidade

dos leitores habituaes d'este genero de publicações, nas quaes a

variedade e a concisão são requisitos essenciaes, essas noticias não

teem todo o desenvolvimento que o auctor hoje lhes daria, se houvesse de

aproveital-as para algum d'estes volumes; mas, apezar d'isso, cremos que

o leitor folgará de as encontrar aqui reunidas, não só pelo seu

indisputavel merecimento, mas tambem por serem invocadas em todos os

artigos do _Diccionario bibliographico_, onde coube ao laborioso

Innocencio da Silva tractar dos escriptores a que ellas dizem respeito.

As _Cartas sobre a historia de Portugal_ sairam á luz nos tomos 1.^o e

2.^o da _Revista universal lisbonense_, precedidas das seguintes

palavras do illustre redactor d'este semanario: «Temos em nosso poder a

preciosa serie de cartas, cuja primeira publicamos hoje. N'ellas

descobre o nosso infatigavel e eloquentissimo antiquario, o sr.

Alexandre Herculano, um grande numero de importantes verdades ácerca dos

principios de Portugal--da constituição, natureza e relações mutuas das

classes, n'esses tempos tão obscuros e tão pouco averiguados. N'estes

escriptos, que não são mais do que o preludio de uma obra, que sem falta

sairá cabal, sobre a materia, faz o sr. Herculano á sua pátria, e

geralmente á sciencia, um presente de altissima valia, de que a _Revista

universal_ devidamente aprecia a honra de ser mensageira.» Com effeito,

estas cartas, publicadas em dezeseis numeros d'este semanario, desde 7

de abril de 1842 até 3 de novembro do mesmo anno, foram então

interrompidas, porque o auctor, conscio já das proprias forças, dedicou

d'ahi em deante todos os cuidados ao immenso valor da obra monumental,

que lhe havia de conquistar o primeiro logar entre os historiadores do

seu paiz.

O terceiro dos opusculos agora reunidos, isto é, a carta em defeza de

algumas asserções do primeiro volume da _Historia de Portugal_,

appareceu, tambem, na _Revista universal_. O auctor mantem e defende as

suas idéas, combatendo um artigo de critica publicado em 2 de abril de

1846, e firmado com as iniciaes D. S. M. de Vilhena Saldanha, que

suppômos serem a assignatura do respeitavel ancião D. Sancho Manuel,

fallecido em 30 de maio de 1880. Como esta carta não trazia titulo, e

nós tinhamos de lhe dar algum, pareceu-nos conveniente alludir á pessoa

que escreveu o artigo a que ella responde: tanto mais que a cortezia de

ambas as composições tornava desnecessario qualquer resguardo.

Até aqui falámos de trabalhos que já tinham visto a luz publica, e a

respeito dos quaes é sufficiente o que fica dicto. Agora, porém,

chegados á parte inedita e mais valiosa do presente volume, procuraremos

satisfazer a justa curiosidade do leitor, descrevendo minuciosamente o

manuscripto, e declarando o systema que seguimos ao dal-o à estampa.

O luminoso estudo ácerca da existencia ou não existencia do feudalismo

em Portugal compõe-se (no estado em que chegou ás nossas mãos) de oito

capitulos completos e um apenas começado, além de algumas folhas

avulsas, de que adeante nos occuparemos.

Os primeiros seis, que neste livros abrangem as paginas 193 a 242, foram

escriptos em 1875, isto é, dois annos depois da publicação do _Ensaio

sobre la historia de la propriedad territorial en España_, como o auctor

declara, e chegaram a estar no escriptorio da _Revista occidental_, onde

todavia não poderam sair impressos, por ter acabado esta _Revista_ em

julho do mesmo anno. Acham-se lançados em meias folhas de papel almaço,

escriptas de um só lado, e promptos para a imprensa, não offerecendo,

por isso, difficuldade alguma de leitura. O grande escriptor calculava

n'esse tempo ser esta a terça parte do que lhe seria necessario dizer em

relação a tão interessante e debatido ponto historico.

Ou por essa occasião ou pouco tempo depois, accrescentou os capitulos

VII e VIII, não já em meias folhas, mas em oitavos do mesmo papel,

formato que lhe permittia, não só intercalar quaesquer novas provas ou

argumentos, que lhe fossem occorrendo, mas ainda dar diversa collocação

aos paragraphos, se de futuro a deducção das idéas e a harmonia da

composição o exigissem.

Incommodos de saude mais ou menos graves, trabalhos litterarios de outra

indole, e varios negocios domesticos, impediram então o auctor de

proseguir n'este importante assumpto, e foram causa de não possuirmos

hoje completo mais um livro serio, coisa de extrema raridade nos tempos

que vão correndo.

Quando, d'ahi a muitos mezes, recuperada a saude e dispondo do tempo

necessario, pôde dedicar-se de novo ao exame da obra do sr. Cárdenas,

tudo nos persuade de que trazia profundamente alterado o plano primitivo

do seu trabalho. Achou-se, sem duvida, apertado e tolhido nos estreitos

limites em que a principio o circumscrevera, e resolveu abrir mais largo

campo, onde podesse desenvolver a grande copia de noticias que

enthezourara, e que directa ou indirectamente se prendian com o assumpto

em discussão.

Foi este, a nosso, ver, o motivo por que, voltando atraz, tomou nota de

numerosas proposições do _Ensayo_, transcrevendo as passsagens

respectivas em meias folhas de papel de pequeno formato, e pondo no alto

da primeira a cota: «_IV_ (_Continuação_)». O leitor encontrará este

additamento desde paginas 242 até o fim do capitulo.

Resolvido, pois, a dar maior amplidão ao seu trabalho, tractou o auctor

de reconstruir os capitulos VII e VIII, que hoje apresentam em mais de

um logar graves difficuldades de leitura, por causa das transposições,

emendas, entrelinhas e accrescentamentos, de que estão cheios os

respectivos borrões.

Apezar d'isso, o capitulo VII--o magistral estudo do _Codigo

wisigothico_--póde considerar-se completamente organisado, tanto na

doutrina como na forma, embora deixe vêr, aqui ou alli, «as arestas

vivas do cunho», porque o auctor não chegou a pôr-lhe a ultima lima.

Não acontece, porém, outro tanto com o VIII, destinado ao estudo do

_Direito consuetudinario_. Este capitulo compõe-se de 32 oitavos de

papel, que a principio tinham tido outra ordem, e cuja disposição

definitiva não ficou claramente marcada senão até o 17, isto é, até

paginas 283 d'este livro. D'ahi em deante os embaraços crescem, porque

alguns d'esses oitavos não teem numeração antiga nem moderna, e,

formando sentido completo, sem dependencia de outros anteriores ou

posteriores, tornam sobremodo difficil acertar com o seu verdadeiro

logar: quer-nos parecer, porém, que não contrariámos demasiado a

intenção do auctor, dando-lhes a ordem em que vão impressos.

Além dos já referidos, encontrámos uma serie de oitavos numerados de 1

até 10, mas sem designação do capitulo a que eram destinados. O ultimo

d'elles está acabar, o que indica que foi ahi que se interrompeu o

trabalho do insigne escriptor. Por esta circumstancia, e tambem por ser

a materia de que ia tractar (a divisão da propriedade territorial) a que

justamente se devia esperar, na ordem dos apontamentos que tomara do

livro do sr. Cárdenas, não tivemos duvida em os considerar como

principio do capitulo IX, marcando, comtudo, entre paretheses este

numero de ordem.

Restavam ainda duas folhas da primeira composição, que não tinham sido

aproveitadas, nem podiamos introduzir no texto, embora se conheça que

deviam fazer do capitulo que ficou por acabar. São, porém, tão

importantes, e formam por si sós um corpo de doutrina tão perfeito, que

julgamos prestar um serviço, formando com ellas o Esclarecemento A, no

fim do volume.

No mesmo caso está uma nota relativa á intelligencia que se deve dar á

palavra _Feudo_, nas raras vezes que apparece nos documentos d'aquella

edade. Esta nota estava lançada tambem em folhas inteiras, e tanto pode

servir de elucidação ao que se diz na Carta 3.^a sobre a Historia de

Portugal (pag. 79), como de prova da affirmativa do auctor a pag. 199,

onde fizemos a competente chamada. Constitue o Esclarecimento B.

Resumindo: os primeiros seis capitulos estavam promptos para serem

impressos, segundo o plano primitivo; a continuação do VI, o VII e o

VIII, conservavam-se no primeiro borrão, e portanto dependentes de

ulteriores modificações, tanto na sua disposição geral, como no estylo,

que não tinha recebido ainda as ultimas correcções; o que reputamos IX

ficou apenas principiado; e as folhas avulsas, que aproveitámos para

Esclarecimento, esperavam o seu futuro destino.

Se attendermos, agora, ás doutrinas contidas nos extractos do livro do

sr. Cárdenas, com que o auctor ampliou o capitulo VI do seu trabalho,

reconheceremos que elle se propunha estudar detidamente a divisão da

propriedade territorial, as relações das diversas classes entre si, o

serviço militar, a administração da justiça, o poder central e seus

representantes locaes; a organisação social, em summa, do nosso paíz

n'aquellas épochas remotas. Já não era, pois, um simples opusculo que

tinhamos a esperar da sua penna auctorisada: era um livro precioso, que

viria supprir, em grande parte, o V volume da _Historia de Portugal_, se

não no desenvolvimento e discussão erudita de todos os pontos

controvertidos ou ignorados, com certeza nos resultados finaes a que

chegara o seu longo estudo e admiravel lucidez de espirito.

Entre Fernão Lopes e fr. Antonio Brandão mediaram dois seculos. Entre o

douto cisterciense e o auctor d'este livro outros dois, e bem medidos.

Oxalá que, d'esta vez, seja mais curto o prazo, em que tenha de

apparecer o continuador idoneo dos trabalhos, que Alexandre Herculano

deixou interrompidos.

(1881).

_Os editores_.

HISTORIADORES PORTUGUEZES

1839--1840

I

*Fernão Lopes*

Tão raros ou tão pouco lido andam os antigos escriptores portuguezes,

que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de

nome os conhecem, e frequentes vezes nem de nome. Grave mal, por certo,

e mui de lamentar é tal e tão ingrato desamor áquelles que assim lidaram

em suas doutas vigilias ou para nos transmittirem as heroicas façanhas

de nossos antepassados, ou para nos doutrinarem com virtuosos conselhos,

ou para nos consolarem com um brado de poesia de mais singelas eras, ou,

finalmente, para nos herdarem sua sciencia; que muita e boa a tiveram.

Assustam os livros pesados e volumosos do tempo passado as almas debeis

da geração presente: a aspereza e severidade do estylo e linguagem de

nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao

polido e suave dos livros francezes. Sabemos assim quaes são os

documentos em que estribam glorias alheias: ignoramos quaes sejam os da

propria, ou, se os conhecemos, é porque estranhos nol-os apontam,

viciando-os quasi sempre. Symptoma terrivel da decadencia de uma nação é

este; porque o é da decadencia da nacionalidade, a peior de todas;

porque tal symptoma só apparece no corpo social quando este está a ponto

de dissolver-se, ou quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel

dos brutos. Desenterra a Allemanha do pó dos cartorios e bibliothecas

seus velhos chronicons, seus poemas dos Nibelungos e Minnesingers; os

escriptores encarnam na poesia, no drama e na novella actual as

tradições populares, as antigas glorias germanicas, e os costumes e

opiniões que foram: o mesmo fazem a Inglaterra de hoje á velha

Inglaterra, e a França de hoje á velha França: os povos do Norte saúdam

o Edda e os Sagas da Irlanda, e interrogam com religioso respeito as

pedras runicas, cobertas de musgos e sumidas no amago das selvas: todas

as nações, emfim, querem alimentar-se e viver da propria substancia. E

nós? Reimprimimos os nossos chronistas? Publicamos os nossos numerosos

ineditos? Revolvemos os archivos? Estudamos os monumentos, as leis, os

usos, as crenças, os livros, herdados de avoengos?

Não.--Vamos todos os dias ás lojas dos livreiros saber se chegou alguma

nova semsaboria de Paul de Kock; alguma exaggeração novelleira do

pseudonymo Michel Massan; algum libello antisocial de Lamennais. Depois,

corremos a derrubar monumentos, a converter em latrinas[1] ou tabernas

os logares consagrados pela historia ou pela religião...

E, depois, se vos perguntarem: de que nação sois? respondereis:

Portuguezes!

Callae-vos; que mentis desfaçadamente.

Mas nós faremos lembrada, ao menos aqui, a nossa gloria litteraria.

Como o pae da historia nacional, como o velho Fernão Lopes, começámos a

escrever as memorias que d'elle restam moralisando primeiro, do mesmo

modo que elle moralisava antes de entrar na materia. Não se nos leve a

mal um defeito, se o é, em que já caiu o nosso principal chronista,

quando é d'elle que devemos fallar.

Escassas são as noticias que chegaram até nós ácerca de Fernão Lopes. A

epocha do seu nascimento ignora-se; mas parece que devia ser na da

gloriosa revolução de 1380, ou alguns annos antes. O abbade Barbosa e

outros dizem que fôra secretario d'el-rei D. Duarte, quando infante, e

de seu irmão D. Fernando, e cavalleiro da casa do infante D. Henrique.

Em 1418 foi encarregado por D. João I da guarda do real archivo, cargo

que até então andava unido a um emprego da fazenda publica.

Por trinta e seis annos serviu Fernão Lopes de guarda dos archivos, e de

todo este tempo existem varias certidões, passadas por elle, _das

escripturas da torre do castello da cidade de Lisboa_. Depois de tão

largo periodo foi substituido por Gomes Eannes de Azurara, que D.

Affonso V nomeou em logar de Fernão Lopes, _por este ser já tam velho e

flaco, que per sy non podia bem servir o dicto officio_, dando-o a

outrem _por seu prazimento e por fazer a elle mercê, como é rezom de se

dar aos boõs servidores_, segundo diz a carta de nomeação de Azurara. A

epocha da morte do chronista ignora-se absolutamente; mas sabe-se que

ainda vivia em 1459, cinco annos depois de ter sido exonerado do cargo

de guarda do archivo.

Quando D. Duarte subiu ao throno (1434) deu _carrego a Fernão Lopes, seu

escripvam, de poer em caronyca as estorias dos Reys, que antygamente em

Portugal forom; e esso mesmo os grandes feytos e altos do muy vertuoso e

de grandes vertudes El-Rey seu senhor e padre_ (D. João I), dando-lhe

por isto quatorze mil libras cada anno, mercê que foi confirmada em nome

do moço principe, por influencia do infante D. Pedro, tão sabio quanto

infeliz, pae e protector das letras.

Foi, com effeito, Fernão Lopes o primeiro que poz em _caronyca_, isto é,

em ordem, as _estorias_ da primeira dynastia dos reis portuguezes, e fez

a bella Chronica de D. João I. Até ahi havia apenas algumas memorias

espalhadas, alguns breves compendios dos successos publicos. N'este

numero deve entrar um manuscripto que existia em Sancta Cruz de Coimbra,

feito, segundo parece, nos fins do seculo XIV, em que mui de leve se

mencionam os acontecimentos mais notaveis dos tres primeiros reinados, e

d'elle talvez se houvessem de contar as antigas chronicas, que Duarte

Nunes reformou, ou estragou, e que muito desconfiamos sejam as mesmas

que _colligiu_ Acenheiro no principio do seculo XVI, e que serviram de

fundamento a Ruy de Pina e Galvão: sobre tudo o que pesam ainda muitas

sombras, ao menos para nós, parecendo-nos, todavia, indubitavel que

alguma cousa havia escripta antes de Fernão Lopes; porque a alguma cousa

eram essas _estorias_ dos antigos reis, mencionadas na carta de nomeação

de Fernão Lopes, e que n'esse documento se distinguem claramente dos

_feitos_ de D. João I.

De quanto Fernão Lopes escreveu, o que hoje existe conhecido e impresso

é a Chronica de D. Pedro I, a de D. Fernando e a D. João I. Comtudo, por

averiguado se tem que elle escrevera as dos outros reis anteriores, e

até Damião de Goes lhe attribue uma de D. Duarte. Seja o que for, é

certo que para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos as tres

chronicas que d'elle existem.

O nosso celebre critico Francisco Dias, o homem, talvez, de mais apurado

engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores,

diz que Fernão Lopes fôra o primeiro, na moderna Europa, que dignamente

escrevera a historia: com razão o diz, e poderia accrescentar que poucos

homens teem _nascido_ historiadores como Fernão Lopes. Se em tempos mais

modernos e mais civilisados houvera vivido e escripto, não teriamos por

certo que invejar ás outras nações nenhum dos seus historiadores. Além

do primor com que trabalhou sempre por apurar os successos politicos,

Lopes adivinhou os principios da moderna historia: a _vida_ dos tempos

de que escreveu transmittiu-a á posteridade, e não, como outros fizeram,

sómente um esqueleto de successos politicos e de nomes celebres. Nas

chronicas de Fernão Lopes não ha só historia: ha poesia e drama: ha a

edade media com sua fé, seu enthusiasmo, seu amor de gloria. N'isto se

parece com o quasi contemporaneo chronista francez Froissart; mas em

todos esses dotes lhe leva conhecida vantagem. Com isto, e com chamar a

Fernão Lopes o Homero da grande epopea das glorias portuguezas, teremos

feito a tão illustre varão o mais cabal elogio.

II

*Gomes Eannes de Azurara*

A Fernão Lopes succedeu no cargo de guarda dos archivos Gomes Eannes de

Azurara, como dissemos no primeiro artigo, com o consentimento d'elle,

que por velho e doente de boa vontade resignou o emprego, que tão

dignamente servira. Foi Gomes Eannes filho de João Eannes de Zurara ou

de Azurara, conego de Evora e de Coimbra. Entrou, sendo mancebo, na

ordem de cavalleria de Christo, onde chegou a ter o grau de commendador

de Alcains, a qual commenda possuia em 1454, e que depois trocou pelas

do Pinheiro-grande e da Granja de Ulmeiro, que achamos serem suas pelos

annos de 1459.

Parece que durante a sua mocidade Gomes Eannes, segundo o costume dos

cavalheiros d'aquelles tempos, se occupou inteiramente no exercicio das

armas, sem curar de instruir-se nas boas letras. Verdade é que o abbade

Barbosa o faz erudito na historia desde mancebo; mas o mestre Matheus de

Pisano, seu contemporaneo, preceptor de D. Affonso V e auctor de uma

chronica da conquista de Ceuta, escripta em latim, diz que, sendo já de

idade madura, se applicàra ao estudo, mas que até então fôra

inteiramente hospede em litteratura.

Foi depois d'esta epocha que Gomes Eannes entrou no serviço d'el-rei D.

Affonso V, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de

sua nomeação, passada a 6 de Junho de 1454; como bibliothecario da

livraria real fundada por aquelle monarcha, do que nos informa mestre

Matheus na obra citada; e como encarregado de escrever varias chronicas

das cousas portuguezas, conforme o diz o proprio Azurara no capitulo II

da Chronica do conde D. Pedro de Menezes.

Documentos d'aquelle tempo provam D. Affonso V fizera grande estimação

de Gomes Eannes. Morava este em umas casas d'el-rei á porta do paço de

Lisboa; tinha uma tença de doze mil reaes brancos; e fez-se-lhe mercê,

em 1467, de uma capella que vagara para a corôa, graça esta que, como

observa o abbade Corrêa da Serra, era n'aquelles tempos assaz

extraordinaria. Doou-lhe, tambem, el-rei umas casas em Lisboa, do que se

acha memoria no livro 3.^o dos Misticos. Antes d'isto, porém, Gomes

Eannes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos.

Ácerca d'este chronista se conserva ainda uma lembrança curiosa no

Archivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma pelliteira viuva e rica, chamada

Joanna Eannes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O já

citado abbade Corrêa nota, com razão, que tal adopção de um homem

nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavalleiro, feita por uma

plebea, era inteiramente opposta ás idêas do seculo XV, devendo-se por

isso suspeitar que Azurara foi d'aquellas pessoas, para quem o respeito

ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.

São incertissimas todas as datas relativas á vida de Gomes Eannes:

apenas se póde dizer que vivera pelo meado do seculo XV. A maior parte

das memorias que d'elle fallam não mencionam nem a epocha do seu

nascimento, nem a da sua morte. Algumas ha que dizem fôra nomeado

chronista em 1459: ignoramos se existe ainda a carta de tal nomeação;

mas d'isso duvidamos. O que se póde affirmar é que Azurara acabou uma

das suas chronicas (a do conde D. Pedro) em 1463, porque elle proprio o

diz. Antes d'esta compozera a da tomada de Ceuta, que serve de terceira

parte á de D. João I escripta pelo immortal Fernão Lopes; e depois

d'ella a de D. Duarte de Menezes. Estas são as tres obras, que com

certeza se podem attribuir a Azurara. Quer, todavia, Damião de Goes que

na Chronica d'el-rei D. Duarte, attribuida vulgarmente a Ruy de Pina, e

cuja melhor parte elle julga de Fernão Lopes, houvesse tambem alguma

cousa de Gomes Eannes.

Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus

contemporaneos, parece que o seu immediato successor lhe levou n'isso

conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em merito.

Azurara, tendo de escrever sobre cousas de Africa, passou áquellas

partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os logares e

circumstancias das façanhas que tinha de narrar. Estando alli, recebeu a

celebre carta de D. Affonso V, que anda impressa no principio da

Chronica de D. Duarte de Menezes. Este documento prova quão bella era a

alma d'aquelle monarcha, a quem podemos sem receio chamar o ultimo rei

cavalheiro, e cuja honrada memoria teem pretendido escurecer aquelles

que só em seu filho encontram um grande homem. Vê-se nesta carta que D.

Affonso entendia que uma penna vale bem um sceptro, e o engenho um

throno. De irmão para irmão não houvera mais affavel e affectuosa

linguagem, e mais generosas animações e mercês. Bem nos pêsa que não

seja possivel, pela extensão d'esse documento, o lançal-o n'este logar;

não para exemplo de reis, mas de quem mais do que elles carece de tão

formosa lição, neste seculo que se diz allumiado, e em que ha homens que

em nome da patria votam miseria e fome para àquelles que mais bem

merécem.

Do merecimento litterario de Gomes Eannes de Azurara diremos em breves

palavras o que entendemos. Pode-se de algum modo comparar ao italiano

Alfieri, posto que pareça pouco exacta qualquer comparação entre um

auctor de chronicas e um poeta dramatico. E todavia muito ha em um que

do outro se possa dizer: ambos chegaram á idade viril sem possuirem os

rudimentos sequer das boas letras: nos escriptos de ambos apparece o

resultado d'esta falta de educação litteraria: ha em um e outro certa

inflexibilidade feroz e ausencia inteira d'aquellas graças de estylo que

nascem do coração amaciado desde a infancia pela cultivação do espirito:

as concepções nascem-lhes do entendimento, como Minerva da cabeça de

Jupiter, cubertas, por assim dizer, de um arnez de ferro. Louva-se em

Azurara, e de louvar talvez é, a sinceridade bravia, com que lança em

rosto aos heroes, cujas façanhas escreve, os defeitos que tiveram, os

erros e culpas em que cairam: n'isto se parece tambem, de certo modo,

com Alfieri. Mas nós preferimos o systema de Froissant e Fernão Lopes:

para cada um dos seus heroes havia n'estas almas generosas um typo ideal

a que procuravam assemelhal-os, engrandecendo-os: e por ventura que mais

proficua é assim a historia ao genero humano. Para acabarmos um

parallelo, que poderiamos levar mais longe, notaremos a tendencia dos

dois escriptores, que collocámos em frente um do outro, para

_philosophar trivialidades_, e ostentar elegancias rhetoricas e

erudições suadas para elles, impertinentes para os leitores. Move a riso

ver o pobre Azurara a lidar em pôr claro como a luz do dia, com a

auctoridade de S. Jeronymo, Sallustio, Fulgencio, e _casy todolos outros

auctores_, que são temiveis as más linguas, como causa somno o observar

os tractos que o illustre dramaturgo italiano dá ao juizo para nos fazer

odiar a tyrannia, ácerca da qual escreveu um volume, cousa muito

escusada na moderna litteratura. Todavia, em ambos elles a sinceridade

das intenções suppre de algum modo a aridez e o vazio da obra.

Posto, porém, que Azurara esteja em grau inferior a Fernão Lopes, não

deixou de fazer com seus escriptos bom serviço à litteratura patria.

João de Barros o tinha em subida conta, e até no estylo d'elle se

comprazia. Não assim Damião de Goes, que foi o primeiro em notar-lhe as

affectações rhetoricas. Infelizmente para Azurara, Goes era melhor juiz;

e a posteridade, confirmando a sentença do perspicaz chronista de D.

Manuel, rejeitou o parecer do historiador da India.

III

*Vasco Fernandes de Lucena--Ruy de Pina*

O nome de Lucena parece vir pouco a ponto em uma noticia dos

historiadores portuguezes, porque d'elle não resta uma só pagina

_original_ sobre historia; mas julgamos dever fazer menção de Vasco

Fernandes, não só por ter sido um dos homens mais celebres do seu tempo,

como tambem, e principalmente, por ser d'entre elles o primeiro que,

depois de Azurara, teve o cargo de chronista-mór. Encarregado de varias

missões politicas nos reinados de D. Duarte, D. Affonso V e D. João II,

e vivendo, por tal motivo, a maior parte da vida em paizes extranhos,

occupado, além d'isso, quando residíu no reino, em grandes negocios

d'estado, não pôde provavelmente occupar-se dos estudos historicos

necessarios para poder desempenhar as obrigações do seu cargo, do qual

fez desistencia em Ruy de Pina no anno de 1497.

Escreveu, todavia, Vasco de Lucena varias obras que, ou se perderam, ou

jazem manuscriptas em parte que se não sabe. Da _Instrucção para

Principes_, de Paulo Vergerio, traduzida por elle de ordem do infante D.

Pedro e que Barbosa diz existir na bibliotheca real, não achámos o menor

vestigio, apesar de consultarmos um catalogo anterior, segundo nos

parece, a 1807. Das outras obras suas, de que faz menção Barbosa, tambem

nenhum rasto encontramos, ao passo que existe uma, que não duvidamos de

lhe attribuir, e que o nosso illustre bibliographo não conheceu. É esta

uma traducção franceza de Quinto Curcio, feita no anno de 1468, a qual

pertenceu a Philippe de Cluys, commendador da ordem de S. João de

Jerusalem, e que actualmente se guarda entre os manuscriptos do Museu

britannico.[2]

* * * * *

Ruy de Pina succedeu, como dissemos, a Vasco Fernandes, em 1497, no

cargo de chronista-mór, postoque muito antes exercitasse o officio de

historiador. Dos primeiros annos de Ruy de Pina apenas se sabe que foi

natural da Guarda, mas ignora-se o anno do seu nascimento, ainda que

haja algumas suspeitas de fosse pelos annos de 1440. Em 1482 diz elle

que fôra por secretario da embaixada mandada por D. João II a Castella,

e o mesmo cargo serviu d'ahi a dous annos na embaixada de Roma. Parece

que, voltando de desempenhar esta commissão, o encarregou el-rei de

escrever as chronicas do reino, apesar de então ser chronista-mór

Lucena, o que se deprehende de uma provisão de D. João II, em que lhe

manda dar uma tença de nove mil e seiscentos réis «esguardando ao

trabalho e á occupação grande que Ruy de Pina escripvão da nossa camara

tem com o carrego que lhe demos de escrepver e assentar os feitos

famosos _asy nossos_ como de nossos regnos que _em nossos dias são

passados_, e ao diante se fizerem[3].» Em outra provisão lhe concede

tambem seis mil réis de mantimento.

Depois d'esta epocha ainda Ruy de Pina serviu em outra embaixada a

Castella e andou envolvido nos difficeis negocios publicos d'aquelle

tempo, até que, succedendo na corôa D. Manuel, não só lhe confirmou as

mercês do seu antecessor, mas fez-lhe outras novas, dando-lhe finalmente

o cargo de chronista-mór, e guarda-mór da Torre do Tombo e da livraria

real.

Em 1504 tinha Ruy de Pina concluido os seus trabalhos historicos, porque

n'esse anno recebeu de D. Manuel uma nova tença de trinta mil réis pelas

chronicas de D. Affonso V e de D. João II, accrescentando a esta somma

cinco moios de trigo em Ceuta e um cazal d'el-rei no termo da Guarda.

«Cheio de honras e de recompensas, diz o abbade Corrêa, que para aquelle

tempo eram grandes, viveu Ruy de Pina todo o reinado de el-rei D.

Manuel, alcançando ainda alguns annos do d'el-rei D. João III, que lhe

encommendou a chronica de seu pae, que deixou adiantada até a tomada de

Azamor, e de que Damião de Goes confessa ter-se servido para a

composição da sua.»

É Ruy de Pina de todos os nossos antigos chronistas o de que nos restam

maior numero de chronicas. Escreveu elle a de D. Sancho I, D. Affonso

II, D. Sancho II, D. Affonso III, D. Diniz, D. Affonso IV, D. Duarte, D.

Affonso V e D. João II. As duas ultimas são sem duvida escriptas

originalmente por elle. Na de D. Duarte, segundo parece a Damião de

Goes, o substancial da historia é de Fernão Lopes; o que é relativo á

expedição de Tangere, de Gomes Eannes de Azurara; e de Ruy de Pina

apenas a coordenação d'esses diversos trabalhos. Quanto ás da primeira

dynastia, quer o mesmo Goes (e esta opinião prevalece hoje) que não

sejam mais que uma recopilação ou resumo do primeiro volume das

chronicas de Fernão Lopes, que existia em poder de um tal Fernão de

Novaes, e que D. João II mandou fosse entregue a Ruy de Pina. Impossivel

parece hoje averiguar até a certeza esta opinião; porque esse volume de

Lopes ou se perdeu, ou foi aniquilado por Pina, que, ambicioso de pouco

suada gloria, quiz, pobre corvo de D. João II, adornar-se com as

brilhantes pennas de pavão do Homero de D. João I.

Segundo o testemunho de João de Barros, Ruy de Pina foi uma potencia

litteraria no seu tempo. O historiador da India refere que o grande

Affonso de Albuquerque tivera a fraqueza de enviar joias a Ruy de Pina,

para que se não esquecesse d'elle na sua historia. Aquella cujo nome

devia encher o mundo não teve a consciencia de que era o maior capitão

do seculo, é creu que a sua immortalidade dependia de um chronista

obscuro! Triste documento de que os genios mais portentosos estão como

os homens ordinarios sujeitos às mais ridiculas fraquezas.

O abbade Corrêa da Serra põe Ruy de Pina acima dos chronistas que o

precederam. É talvez o juizo litterario mais injusto que se tem

pronunciado na republica das letras. Que elle exceda Azurara não o

contestaremos nós; mas que seja anteposto a Fernão Lopes é no que não

podemos consentir: as narrações de Ruy de Pina, postoque superiores ás

de Gomes Eannes, estão mui longe da vida e _côr local_ que se encontra

nos escriptos do patriarcha dos chronistas portuguezes.

Parece que os fados de Ruy de Pina eram ganhar nome e celebridade á

custa do trabalho alheio: ajudou elle o seu destino em quanto vivo;

ajudaram-lh'o outros depois de morto. Em 1608 publicou-se em Lisboa um

volume em 8.^o com o titulo de _Compendio das grandezas e cousas

notaveis d'entre Douro e Minho_, obra que no frontispicio é attribuida a

Ruy de Pina. Este livro, porém, nada mais é do que o que compoz mestre

Antonio, _fisiquo e solorgiam_, natural de Guimarães, e que em antigos

codices anda juncto ás chronicas de Ruy de Pina, bastando ler uma pagina

d'elle para nos convencermos de que é escripto em um periodo da lingua

anterior á epocha d'este chronista, e que elle talvez não fez mais que

copial-o, com intento de lhe chamar seu, podendo-se-lhe applicar aquelle

distico francez:

Pour tout esprit que le bon homme avait, Il compilait, compilait,

compilait.

IV

*Garcia de Rezende*

Com os começos do reinado de D. Manuel os horizontes da nossa

litteratura estenderam-se consideravelmente. Era a epocha do esplendor

nacional e, ao passo que as nossas conquistas e poderio se dilatavam,

dilatavam-se tambem os progressos litterarios dos portuguezes. A

imprensa tinha produzido o magnifico livro da _Vita-Christi_, e com isso

dava mostra de que Portugal possuia, esse motor maravilhoso que devia

conduzir a Europa com passos agigantados pela estrada da civilisação e

do progresso. N'este reinado de gloria e de predominio--mas de uma

gloria differente da antiga e de um predominio que assentava sobre base

tão incerta como eram os milhões de ondas do oceano em que elle se

estribava--proseguiu em maior escala o triste systema de D. João II de

substituir a agricultura pelo commercio, como fonte principal da riqueza

publica. Era então que a monarchia, aniquilando os derradeiros restos da

sociedade feudal nas Ordenações Manuelinas, e assentando-se na larga e

firme base do direito romano, realisava e completava, por um lado o

pensamento politico, por outro o pensamento economico do manhoso filho

do nosso ultimo rei cavalleiro. As palavras _e da conquista, navegação e

commercio da Ethiopia_, etc., que D. Manuel accrescentava ao dictado de

_senhor de Guiné_, que D. João para si tomara, eram a expressão mais

simples e mais exacta da idêa commercial e monarchica, isto é, de que o

commercio obtido por meio das conquistas e navegações pertencia ao

_senhorio real_, e a historia dos ciumes de D. João II e do seu

successor sobre os novos descobrimentos confirma a nossa opinião. Assim

o estado se confundia ou, antes, se incorporava na corôa, e se

constituiam essas formas politicas dos reinados seguintes que resumbram

em toda a legislação posterior, e a que, talvez, possamos chamar meio

termo entre o absolutismo e o despotismo, como a organisação social

portugueza antes das côrtes de 1481 se póde também considerar como um

meio termo entre o absolutismo e a monarchia representativa.

Substituida, portanto, a agricultura, que era do povo, pelo commercio

exclusivo, que era da corôa, e extinctas as tradições feudaes na nova

compilação Manuelina, a idade media morrera, com o seu systema de luctas

e resistencias, e começara esse seculo XVI, cujo caracter essencial em

politica foi a unidade monarchica. Este phenomeno explica o novo aspecto

que tomou a historia e o apparecimento de uma litteratura cortezan e

paceira, que visivelmente se distingue nos poetas mais modernos do

cancioneiro, nas obras latinas que por esse tempo appareceram,

principalmente nas de Cataldo Siculo, e nos autos do Aristophanes

portuguez Gil-Vicente, compostos para alegrar as horas de tedio nos

paços de D. Manuel. A chronica tomou logo o sabor do elogio historico, e

Garcia de Rezende, velho cortezão, escreveu a vida de D. João II debaixo

dos tectos dos sumptuosos paços da Ribeira. A este pobre homem não cabe,

todavia, a gloria da invenção d'aquelle genero historico: Ruy de Pina

foi o seu inventor. A Chronica de D. João II escripta por este foi o

modelo ou, antes, o original da de Garcia de Rezende, que apenas lhe

accrescentou alguns dictos e feitos do seu heroe, algumas anecdotas

desenxabidas e triviaes de antecamara, em que não esqueceram as

acontecidas com o proprio auctor. Garcia de Rezende não fez senão

aperfeiçoar a chronica individual e tornal-a, ainda mais que Ruy de

Pina, uma biographia real. E que outra fórma podia ter a historia n'uma

epocha em que a organisação social tinha sumido o povo, a nobreza, e

ainda o clero, debaixo do throno do monarcha?

Seria uma das comparações mais curiosas a do caracter historico da

Chronica de D. João I por Fernão Lopes com o da Chronica de D. João II

por Garcia de Rezende, se ao mesmo tempo se comparasse o estado da

sociedade portugueza no meado do seculo XV com o em que se achava no

principio do XVI. Esta comparação nos parece serviria para explicar as

formulas historicas pelas politicas, e vice-versa estas por aquellas.

Que distancia espantosa não ha, com effeito, entre o grande poema de

Lopes e a mesquinha collecção de historietas de Garcia de Rezende, onde

apenas avultam algumas paginas com o supplicio de um nobre, o assassinio

de outro, e o mysterio de um rei que morre, ao que parece; envenenado?

Que distancia espantosa de um cadafalso, de um punhal, e de uma taça de

veneno, ao cerco de Lisboa, à batalha d'Aljubarrota, ao baquear de

Ceuta? No livro de Garcia de Rezende vê-se o aspecto triste, e a vida de

agonia, e o sorrir forçado de um rei sem familia, rodeado de cortezãos,

cujos nomes pela maior parte se resolvem em fumo com o morrer de seu

senhor, a quem seguem os ginetes de Fernão Martins, os bésteiros e

espingardeiros da guarda, não para pelejarem com estranhos, mas para o

defenderem contra os odios de seus naturaes. Ahi o vulto real abrange

quasi os horizontes do quadro, e só lá no fundo, mal desenhadas e

indistinctas, se enxergam as personagens historicas d'aquella epocha, e

as multidões agitadas ou tranquillas a um volver d'olhos do monarcha,

mas nullas tanto em um como em outro caso. Na chronica de Fernão Lopes

ha, pelo contrario, a historia de uma geração: é um quadro immenso de

muitas figuras no primeiro plano. Nos degráus do throno de D. João I

estão assentados guerreiros e _sabedores_, e monges e clerigos, e povo

que tumultua e brada com vóz de gigante--_patria_! Ao pé da imagem

homerica de Nunalvrez vê-se a fronte serena e sancta do arcebispo de

Braga, e a face meditabunda e enrugada de João das Regras, e os vultos

terriveis do Ajax portuguez Mem Rodrigues, e do esforçadissimo Martim

Vasques, e de tantos outros cavalleiros a quem difficilmente sobrepuja o

rei popular, o Mestre de Aviz. O chronista faz-vos acompanhar as

multidões quando rugem amotinadas pelas ruas e praças; guia-vos aos

campos de batalha onde se dão e recebem golpes temerosos; abre-vos as

portas dos paços ao celebrar das côrtes, ao discutir dos conselhos;

arrasta-vos aos templos onde trôa a voz do monge eloquente; lança-vos,

emfim, no existir dos tempos antigos, e embriagando-vos com o perfume da

idade media, e deslumbrando-vos com o brilho da epocha mais gloriosa da

historia d'esta nossa boa terra portugueza, evoca inteiro o passado, e

rasgando-lhe o sudario em que jaz, com o sopro do genio dá alma, e vida,

e linguagem ao que era pó, e morte, e silencio.

Em Ruy de Pina raro se encontra a historia da nação: em Garcia de

Rezende talvez nunca. Fernão Lopes e Azarara tinham escripto no tempo de

Affonso V: estes escreviam no de D. Manuel. D'ahi provém a differença.

Em poucas palavras o pouco que se sabe da biographia de Rezende.

Ignora-se a epocha do seu nascimento; mas sabe-se que era natural de

Evora é irmão do celebre André de Rezende, o traductor de Cícero. Foi

pagem da escrevaninha de D. João II e seu predilecto. Grato por isto,

lhe escreveu a vida, a qual se imprimiu Evora em 1554.[4] Compoz tambem

uma relação da ida infanta D. Beatriz para Saboia, e outra da viagem

d'el-rei D. Manuel a Castella, e finalmente umas trovas satyricas que

intitulou _Miscellanea_. Colligiu em um volume as poesias avulsas que no

seu tempo tinham mais celebridade, tanto dos poetas d'quella epocha,

como de outros mais antigos. Este volume, que foi dado á luz por elle em

Lisboa em 1516 com o titulo de _Cancioneiro Geral_, é hoje um dos mais

raros monumentos da nossa litteratura, e o verdadeiro titulo de gloria

de Garcia de Rezende.

Em 1514 foi a Roma como secretario de embaixador Tristão da Cunha,

mandado ao papa por el-rei D. Manuel. Voltando á patria morreu em Evora,

não sabemos em que anno, e jaz no convento do Espinheiro.

CARTAS SOBRE A HISTORIA DE PORTUGAL

1842

*CARTA I*

1 d'abril de 1842.

Srs. Redactores da _Revista universal lisbonense_.--A reforma ha pouco

feita no seu estimado jornal; o agasalhado que n'elle se concede a tudo

quanto se chama fructo de sciencia humana; a maior extensão de

escriptura que nas suas paginas se póde hoje encerrar; e sobretudo a

ambição, que desperta nos entendimentos ainda humildes, de se acharem á

meza da sciencia em tão honrada companhia litteraria como a dos

collaboradores da _Revista_; tudo isso me excitou a dirigir-lhes esta

carta, que folgarei mereça a honra da publicação, e que se o merecer

será seguida por outras sobre o mesmo objecto, porque traçando e

alevantando a _Revista_ um formoso edificio de civilisação n'esta pobre

terra de Portugal, posto que eu saiba serem as pedras que posso cortar e

carrear para o monumento toscas e mal desbastadas, sei tambem que até

estas teem sua cabida e serventia, quando para mais não sejam ao menos

para sumir lá nos alicerces e na grossura dos muros, em quanto os

artifices de primor vão aperfeiçoando as portadas, columnas, cimalhas,

remates, e mais exterioridades de desenho, em que os architectos da obra

põem as suas complacencias d'artistas.

Entendi eu, que o entreter alguns momentos os leitores da _Revista_ com

diversos estudos sobre a nossa antiga antiga historia, não seria

fazer-lhes mau serviço. Ha n'este fallar das recordações de avós o que

quer que é saudoso e sancto, porque a historia patria é como uma d'estas

conversações d'ao pé do lar em que a familia, quando se acha só, recorda

as memorias do pae e mãe que já não são, de antepassados e parentes que

mal conheceu. Mais saboroso pasto d'espirito que esse não ha talvez,

porque em taes lembranças alarga-se o ambito dos nossos affectos: com

ellas povoamos a casa de mais entes para amarmos; explicamos pelos

caracteres e inclinações dos mortos os caracteres e inclinações dos que

vivem; os habitos actuaes pelos habitos e costumes dos nossos velhos.

Se, abastados e engrandecidos, viemos de humildes e pobres, pretendemos

muitas vezes fazer esquecer ao mundo o nosso berço; mas no abrigo

familiar, deixada tão viciosa vergonha, abrimos o larario domestico e

tiramos d'elle os deuses da meninice, grosseiros simulacros da imagens

paternas, e folgamos de os contemplar, e de recontar ou de ouvir a sua

historia, que temos recontado e ouvido mil vezes, que todos os da casa

bem sabem, mas que sempre narramos ou escutamos com attenção e deleite,

e talvez com enthusiasmo. As recordações da terra da patria não são,

porém, mais que as memorias de uma numerosa familia.

Ha muito que para ellas voltei as minhas predilecções. E não sei, até,

quem possa deixar de o fazer em tempos como os que ora correm. Se o rico

e poderoso que nasceu dos minguados e chãos vai pedir ao passado frescor

e regalo para o espirito, como deixará o que se vê abatido e em

amarguras de lembrar-se de opulentos e nobres avós? Qual será a nação

que amarrada ao poste do padecer, ludibriada e appupada por tudo,

despida, cuberta de lodo, cheia de pisaduras e de feridas, se não volte

para os tempos que passaram quando esses tempos foram feracissimos de

muitos generos de grandezas e de glorias, e como o Salvador no Calvario

lhes não diga: _Tenho sêde_? Quem, vendo diante de si desfolharem-se-lhe

uma a uma todas as esperanças, se não retrahe do presente, e não vai

pelo campo sancto dos seculos buscar e colher saudades de consolação?

Separado, e não de poucos dias, d'esse tumulto e ruido da sociedade

actual, que Deus louvado não entendo nem desejo entender, e em cujas

opiniões e idéas, ou por demasiado grandiosas ou por vergonhosamente

pequeninas, não acho medida pela qual afira e concerte as minhas, que

não passam de triviaes e means; ajuramentado com a propria consciencia

para deixarmos seguir o mundo seu caminho, bom ou mau, com tanto que não

nos embargue o nosso, tenho procurando estudar algumas epochas da tão

poetica e formosa historia da gente portugueza. É para varios d'esses

estudos imperfeitissimos que eu peço algumas columnas da _Revista

universal_, não porque elles preencham completamente os fins da

instituição d'este Jornal--a instrucção; mas porque poderão mover os que

valem e sabem muito a que, pretendendo corrigir erros sobejos, em que

por certo cairei; instruam verdadeiramente o commum dos leitores da

_Revista_, e os chamem a contemplar o espectaculo da nossa sociedade

antiga.

Estes estudos, feitos por um systema d'historia como me pareceu que

elles deviam ser feitos, apparecerão na _Revista_ soltos, em quanto de

mais perfeito modo os não posso trazer á luz da imprensa. Fragmentos são

os que unicamente se hão-de e devem lançar nas columnas de uma folha

volante, entre cujos meritos a variedade é talvez o que mais se busca.

Trabalhos completos são para livros, e livros d'historia estou eu (sem

humildade hypocrita o digo) bem longe ainda de os poder fazer. Todavia

darei a estas Cartas, quanto em mim couber, um certo nexo, que a

natureza da materia requer. Um dos principaes defeitos dos trabalhos

historicos do nosso paiz parece-me ser a _insulação_ de cada um dos

aspectos sociaes de qualquer epocha, que nunca se conhecerá, nem

entenderá, em quantop a sociedade se não estudar em todas as suas formas

d'existir, em quanto se não contemplar em todos os seus caracteres.

Estas Cartas, se merecerem a approvação de vv. ss., poderão algum dia

servir, no que tiverem bom, se tiverem, de esclarecimento e notas a uma

parte da Historia Portugueza, como eu concebo que ella se deveria

escrever: historia não tanto dos individuos como da Nação; historia que

não ponha á luz do presente o que se deve ver á luz do passado;

historia, emfim, que ligue os elementos diversos que constituem a

existencia de um povo em qualquer epocha, em vez de ligar um ou dois

d'esses elementos, não com os outros que com elle coexistem, mas com os

seus affins na successão dos tempos, grudados pelos tôpos

chronicologicos com massa de papel feita das folhas _Arte de verificar

as datas_.

*CARTA II*

Quando, volvendo os olhos para os tempos remotos, indagamos a historia

de nossos antepassados e da terra em que nascemos, a primeira pergunta

que nos occorre para fazermos ás tradições e monumentos é naturalmente a

seguinte: onde, quando, e como nasceu este individuo moral chamado a

Nação? O berço da sociedade de ser, com effeito, a primeira pagina da

sua historia.

Quem, examinando uma carta topographica da Peninsula espanhola, vê esta

faixa de terra chamada Portugal, estreitada entre o oceano e o vulto

enorme da Hespanha, sem divisões nascidas da natureza do solo e fundadas

na geographia physica, que a separem naturalmente della, e quando depois

disto sabe que por sete seculos, com a curta interrupção de sessenta

annos, os habitadores deste cantinho do mundo conservaram intacta a sua

independencia e individualidade nacional, prevê desde logo nesses

homens, que assim souberam conservar-se livres d'estranho jugo, grandes

virtudes e generoso esforço, e na organisação social do paiz uma

extraordinaria robustez e uma harmonia notavel com as suas necessidades

e indole; porque as instituições e costumes de qualquer povo são a sua

physiologia, pela qual se lhe explica principalmente o curto ou o

dilatado da vida. A curiosidade então volta-se para a primeira infancia

desse povo, para a epocha em que disse a si mesmo: _Eu existo_. Na

disposição daquelles tenros annos devem-se-lhe achar já os annuncios do

vigor da juventude e da idade viril.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 05 · 第 1 / 14 段