para as ruinas da villa Adriana, distante uma legua pouco mais ou menos,
do logar onde se tinha feito alto, e que jaz ao pé da montanha em que se
eleva o Tivoli.
O general teve logo tenção de ahi acampar, mas mudou de resolução e fez
proceder a uma completa exploração dos logares. Não poz tropas em
Tivoli, porque só no ultimo caso é que elle queria entrar nas cidades.
No meio das ruinas da villa Adriana, que formam uma fortaleza, a brigada
inteira plantou seu campo, homens e cavallos, porque as camaras
subterraneas d'este edificio estavam muito bem conservadas para ali se
poderem alojar.
Esta cidade foi elevada pelo proprio Adriano; tem duas milhas de
extensão, e uma de largura. Uma pequena floresta de larangeiras e
figueiras brotam sobre a base do antigo palacio.
A 6 de maio partiu-se ás oito horas da manhã, com os _bersaglieri_ á
frente; e para alcançar a grande estrada de Palestrina foi mister passar
pela garganta de São-Veterino. Levou-se uma hora a passar este
desfiladeiro; ao meio dia acampou-se n'um outro valle onde se encontrou
agua fresca e sombra. Não se via uma casa, mas nadava-se em verdura.
Ás cinco horas e meia, retomou-se a marcha e subiu-se a montanha. Os
soldados tinham ante si os animaes de carga que levavam as munições de
guerra.
Quanto aos soldados, todos levavam seu pão; a falta de carne não os
inquietava, encontravam-na em todas as paragens; só os bersaglieri
tinham marmitas.
Chegada ao cume da montanha a expedição encontrou uma antiga estrada
romana perfeitamente conservada que conduzia á Palestrina, onde chegou á
uma hora da manhã.
Foi uma fortuna encontrar esta estrada romana, tão bem conservada, que
nem só um dos animaes de conducção deu um passo em falso, nem o vento
levantou um só grão de poeira.
Entretanto fizeram-se frequentes altas para dar repouso aos soldados.
Tinha-se necessidade, visto a lide que se lhes reservava, de que não
chegassem fatigados.
O general enviou patrulhas para todos os lados.
Uma d'estas patrulhas formada por sessenta homens e commandada pelo
tenente coronel Bronzelli, o mesmo que dez annos depois foi mortalmente
ferido no campo de batalha de Treponti, obteve felizes resultados;
atacou uma villa occupada por napolitanos, pôl-os em fuga e fez-lhes
alguns prisioneiros.
Dois dos nossos que não quizeram render-se foram mortos e feitos em
pedaços.
A 9 teve-se aviso de que um corpo consideravel de napolitanos avançava
para Palestrina; e com effeito pelas duas horas da tarde, do alto da
montanha de S. Pedro que domina a cidade e que era occupado pela nossa
segunda companhia, viu-se avançar em boa ordem, pelas duas estradas que
se reunem á porta del Sole, a columna inimiga. Eram dois regimentos de
infanteria da guarda real, e um de cavallaria.
Garibaldi enviou diante d'elles em atiradores, duas companhias da sua
legião, uma da guarda nacional movel, e a quarta companhia bersaglieri.
Aquella occupava a ala esquerda da longa cadeia de montanhas que vem
expirar no valle.
Manara, da plataforma da porta, dominava a cavallo esta scena magnifica,
e por intervenção de uma trombeta indicava os movimentos que era mister
obrar.
Ter-se-hia julgado isto uma revista, pela tranquillidade com que estas
cousas se passavam, e pela maneira com que os movimentos respondiam aos
sons da trombeta.
Quando chegámos perto dos napolitanos, um vivo fogo começou, e os outros
corpos da expedição, formados em columna, se apresentaram fóra da porta.
O chefe inimigo quiz então estender em atiradores seus primeiros
pletões; mas viam-se os soldados horrorisados recusarem affastar-se uns
dos outros. Quanto a nós, avançámos sempre proseguindo o fogo. Então a
nossa extrema direita, commandada pelo capitão Rozat, torneou um muro
que a impedia de avançar e foi correr vivamente a estender-se sobre os
flancos do inimigo.
Os napolitanos oscillaram um instante; depois, rompendo suas fileiras
repentinamente, tomaram a fuga sem quasi descarregar as espingardas.
Então alguns homens do batalhão de Manara penetraram até ao meio de suas
fileiras, e sahiram d'ahi conduzindo cinco ou seis prisioneiros.
Da direita, ainda que marchando mais lentamente, as cousas procederam da
mesma fórma; a primeira companhia de _bersaglieri_ deixou aproximar os
napolitanos a um tiro de pistolla, e com uma carga viva e inesperada, e
um choque vigoroso á bayoneta, facilmente os poz em fuga, repellindo-os
successivamente de tres casas que occupavam, e sustentando com a maior
ordem uma carga de cavallaria que custou a vida a bom numero de
cavalleiros napolitanos.
Garibaldi esperava este momento: enviou de reforço um batalhão a Manara,
ordenando-lhe que carregasse sobre toda a linha á bayoneta.
Fulminados sobre o flanco pelos lombardos, repellidos em frente pelas
legiões e pelos exilados, os reaes tomaram a fuga rapida e completamente
deixando no campo tres canhões.
O combate durou tres horas, e foi conduzido a bom fim sem grande perda.
Os inimigos oppozeram tão fraca resistencia que nos maravilharam.
Se houvessemos tido cavallaria para a lançar em perseguição dos fugidos,
a sua perda teria sido consideravel.
Mas quando Garibaldi viu o inimigo retirar-se precipitadamente e os
nossos perseguil-os em desordem, temeu uma emboscada, e fez tocar a
retirada.
Tivemos doze mortos e vinte feridos, entre elles o bravo capitão
Ferrari, que recebeu uma bayonetada no pé.
A perda dos napolitanos foi de cem homens.
O resultado material, como se vê, era pouca cousa, mas o effeito moral
era grande.
Dois mil soldados de Garibaldi tinham posto em completa derrota seis mil
napolitanos.
Perto de vinte e quatro pobres diabos prisioneiros, quasi todos da
reserva, e por consequencia arrancados a suas familias e obrigados a
combater por uma causa que não era a sua, foram trazidos á presença de
Garibaldi. Trementes e de mãos juntas pediram-lhe a vida. Eram bellos
homens, bem vestidos, mas detestavelmente armados de espingardas de
pederneira, com sacos cheios de imagens de santos e santas, de reliquias
e de remedios.
Tinham-nas ao pescoço, nas algibeiras, por toda a parte. Disseram que o
rei estava em Albano com dois regimentos suissos, tres de cavallaria e
quatro baterias; esperavam-se outros reforços de Napoles.
Sob as ordens do general Zuechi tinham elles sido enviados para tomar
Palestrina e apoderar-se de Garibaldi, que lhes inspirava um terror que
ninguem podia imaginar.
Á noite acampamos fóra de Palestrina.
No dia seguinte avançámos para occupar os postos avançados, duas milhas
mais longe; as nossas patrulhas aventuraram-se até ás linhas inimigas,
que tinham os piquetes a quatro milhas de distancia.
Para não ficarmos ociosos faziamos manobrar os nossos soldados que desde
Solaro não tinham feito exercicio uma só vez. Era um bello e animador
espectaculo para a nossa causa republicana, vêr estes homens que a um
quarto de legua do inimigo, aprendiam o manejo das armas de que iam
servir-se contra elle, e que ao som da trombeta estudavam a escóla de
plutão e o fogo de atiradores.
Á tarde voltámos á cidade, mas foi para dar um novo assalto.
A 7 de maio, tinhamos chegado á meia noite debaixo de torrentes de
chuva. O batalhão Manara tinha recebido para alojamento um convento de
agostinhos; mas os monges não tinham querido abrir; e, fatigados e
molhadissimos os republicanos bateram debalde á porta durante uma hora e
soffrendo um vento glacial. Enfim, por muito grande que fosse a
paciencia dos _bersaglieri_ esgotou-se; fizeram vir os sapadores, e a
porta do convento foi arrombada.
Ainda que esta noite os soldados horrivelmente cançados, ficassem
furiosos por similhante acolhimento, ainda que o general dissesse
claramente, e não deixasse ignorar á sua gente, que fazia tanto a guerra
aos monges hostis á republica, como aos napolitanos, as exhortações de
Manara e de seus officiaes chegaram a acalmar os soldados e a impedir as
desordens que se podiam esperar em tal occasião. Deitamo-nos
tranquillamente sobre o chão dos corredores, e procuramos n'um curto
repouso força para supportar novas fadigas.
Por felicidade a fadiga que nos deram os napolitanos não foi grande.
Na noite da batalha os bersaglieri reganharam o seu convento, e de novo
o encontraram fechado. Foi preciso recorrer novamente aos sapadores para
arrombar as portas a golpes de machado.
Os irmãos d'esta vez haviam fugido. Não tinham podido crer que os
republicanos fossem tão pouco rancorosos, e temeram que a doçura que
tinhamos mostrado não fosse um laço que occultasse alguma sinistra
volta.
Tambem, fugindo os irmãos haviam levado comsigo as chaves das cellas.
Para obter roupas e objectos necessarios a um acampamento, por muito
modesto que elle fosse, foi mister forçar algumas portas. Por felicidade
os sapadores não estavam longe. Estas portas arrombadas, foi contagioso
o exemplo; em vez de se contentarem, como da primeira vez com o chão dos
corredores, os soldados quizeram ter, uns colxões, outros enxergões; os
chefes, cançados de moralisar, seguiram o mau exemplo e apoderaram-se
das cellas. Em menos de meia hora, foi cheio de alto a baixo; apenas
houve tempo de collocar sentinellas á egreja; aos carneiros e á
bibliotheca.
De resto, nada havia a tomar; os irmãos não tinham deixado senão grandes
moveis, dos quaes nenhum cabia n'um saco; mas bom numero de paisanos que
haviam excitado os nossos soldados a esta desordem, aproveitavam a
confusão, e, como formigas, se juntavam aos tres e aos quatro afim de
levarem os bocados com que um só não podia.
Muitos dos nossos, pouco religiosos, corriam por todo o convento felizes
por uma vez se poderem assimilhar-se aos monges. Um sahia de uma cella
com um largo chapeu dominicano na cabeça, outro passeava gravemente nos
corredores com um grande habito branco sobre o uniforme. Todos
appareceram á chamada com uma enorme tocha na mão, e durante a noite de
9 a 10, em honra da nossa victoria sobre os napolitanos, o convento foi
explendidamente illuminado.
A correspondencia dos pobres irmãos não foi mais respeitada que o resto,
e mais de uma carta que se abriu e leu em triumpho teria feito córar até
ás orelhas os castos fundadores da ordem.
A 10, parámos em Palestrina e acampamo-nos nos prados. Os napolitanos
pareciam ter perdido o gosto de nos atacar, e coroavam as collinas de
Albano e de Frascati aproximando-se pouco a pouco de Roma.
Garibaldi, que temia um assalto combinado dos napolitanos e francezes
poz-se a mesma tarde em marcha, para voltar sobre Roma; passámos em
silencio, e n'uma perfeita ordem, a duas milhas do campo inimigo, por
sendas quasi impraticaveis, sem que nenhum accidente perturbasse a
tranquillidade de uma marcha magnifica.
Emfim na alvorada de 12 chegámos a Roma tendo feito durante a noite
vinte e oito milhas sem pararmos um instante; tinhamos a maior
necessidade de repouso; muitos de entre nós julgando partir para uma
campanha de algumas horas sómente, não tinham trazido para maior
ligeireza, nem marmita, nem saco, nem utensilio algum.
Mas vindo a noite, em logar de descançarmos, fomos obrigados a retomar
as nossas espingardas; foi dado alarme na cidade, correndo o ruido de
que os francezes atacavam o Monte-Mario; sahimos precipitadamente pela
porta Angelica, trocámos alguns tiros com os francezes, e dormimos á
borda de um fosso com a mão sobre as armas.
_G. Medici._
XVI
COMBATE DE VELLETRI
A partir d'este momento as notas deixadas por Garibaldi na occasião de
partir para a Sicilia, facilita-nos o podêl-o agora deixar relatar as
suas aventuras.
⁂
A 12 de maio a assembléa constituinte romana, á noticia da heroica
defeza de Bolonha, proclamou este decreto.
Roma, 12 de maio de 1849.
«A assembléa constituinte em nome de Deus e do
povo.
«Decreta:
ARTIGO UNICO
«O heroico povo de Bolonha, bem mereceu da patria, e da
republica, sendo o digno emulo de seu irmão o povo romano.»
No dia em que Bolonha cahia, o embaixador extraordinario da republica
franceza, Fernando de Lesseps entrava em Roma com Miguel Accursi,
enviado da republica romana em Paris.
O armisticio de que se tratava havia quinze dias, e contra o qual eu me
tinha pronunciado no dia 1 de maio, estava concluido.
O governo romano resolveu aproveitar-se d'estas treguas para se
desembaraçar do exercito napolitano; porque ainda que elle não fosse
para temer, é sempre mau ter sobre os hombros vinte mil homens e trinta
e seis bocas de fogo.
Engano-me, eram só trinta e tres porque tres tinhamos nós trazido da
Palestrina.
O governo julgou esta occasião favoravel para crear dois generaes de
divisão, um, de um coronel, e o outro, de um general de brigada; o
primeiro foi Roselli, eu o segundo.
Roselli foi nomeado general de expedição. Alguns amigos me aconselhavam
a não acceitar esta posição secundaria, para obedecer a um homem que,
ainda na vespera, era meu inferior.
Confesso porém que sempre me tem sido indifferentes estas questões de
amor proprio, se me tivessem dado, ainda mesmo como simples soldado, a
occasião de desembainhar a espada contra o inimigo do meu paiz, teria
servido como _bersaglieri_. Acceitei pois, com reconhecimento, o posto
de general de divisão.
No dia 16 de maio, á noite, todo o exercito da republica, isto é dez mil
homens e doze bocas de fogo sahiu dos muros de Roma, pela porta
San-Giovanni.
Entre estes dez mil homens haviam mil de cavallaria.
No caminho deu-se pela falta do corpo Manara designado tambem para fazer
parte da expedição.
Enviou-se um official do estado maior para saber a razão porque Manara,
que era sempre o primeiro a marchar contra o inimigo não apparecia.
Não tinha sido prevenido. Estava furioso, julgava que só elle tinha sido
desviado da expedição.
Passámos o Teverone pela estrada de Tivoli, ali costeamos á direita e
chegamos a Zagarola ás onze horas da manhã, depois de uma das marchas
mais custosas para a nossa gente. Apezar de não termos avançado muito,
tinhamos andado dezeseis horas. Isto provinha do grande numero de gente.
Havia uma poeira insupportavel. Além d'isto a estrada era tão estreita
em certas partes que tivemos de passar a um e um.
Quando chegamos a Zagarola não havia pão nem carne, a divisão napolitana
tinha comido tudo, e vinho pouco deixou.
O estado maior tinha-se esquecido de prever o caso.
Felizmente tinha levado comigo alguns bois, e a minha gente agarrou
outros ao laço; mataram-se, esquartejaram-se, assaram-se e comeram-se.
É verdade que quando me queixei d'esta falta de cuidado que esteve a
ponto de matar á fome a expedição, respondeu-se-me que temeram reunindo
viveres despertar o inimigo.
Perfeitamente!
Estivemos trinta horas pouco mais ou menos n'esta pequena villa, d'onde
sahimos sem pão como tinhamos entrado.
A ordem de marcha deu-se no dia 18 á uma hora da tarde, não partimos
porém senão ás seis horas. Estas paragens fatigam mais que marchas
forçadas.
Finalmente, ás seis horas puz-me á frente da brigada da vanguarda e
parti para Valmontone. Seguiam-me as outras brigadas. Tinha mandado
observar o maior silencio nas fileiras e grande vigilancia na frente e
nos flancos. Recebi aviso de que o exercito napolitano estava acampado
em Velletri com desenove a vinte mil homens entre os quaes haviam dois
regimentos de suissos e trinta bocas de fogo.
Dizia-se que o proprio rei de Napoles estava na cidade.
Effectivamente os realistas occupavam Velletri, Albano e Frascati, as
vanguardas estendiam-se até Fratocchi. Tinham o flanco esquerdo
protegido pelo mar e o direito apoiado pelos Apeninos e haviam occupado
Palestrina depois que eu a abandonei e dominavam d'este modo o valle
onde havia o unico caminho praticavel a um exercito que viesse atacal-os
de Roma.
Podiam pois oppor-nos uma séria resistencia e além d'isto levavam-nos
vantagem em posição, numero, bocas de fogo e cavallaria.
O feliz resultado porém da primeira empreza era uma promessa de sorte
para a segunda. Por outro lado as tropas do rei de Napoles estavam
completamente desmoralisadas e como se sabe, na guerra a força moral é
tudo.
Para obrigar o inimigo a fugir ou a combater, julgou-se que era
necessario apoderarmo-nos de repente do valle, occupar uma posição de
lado que ameaçasse as communicações do exercito napolitano com Napoles.
Monte-Fortino tinha sido escolhido para formar este ponto estrategico.
Com effeito, senhores d'este ponto, podiamos lançar-nos sobre Citerna e
fechar aos realistas o caminho da fronteira, apoderarmo-nos de Velletri,
se por acaso a abandonassem para nos fazer frente, ou finalmente
lançarmo-nos com toda a nossa força sobre o corpo mais fraco do inimigo,
se elle commettesse o erro de se dividir.
Ao anoitecer descobrimos um caminho muito estreito que conduz perto de
Valmontone; gastamos duas horas a percorrel-o. O batalhão Manara ajudado
d'um esquadrão de dragões e duas bocas de fogo foi encarregado de
proteger a vanguarda.
Chegamos ás dez horas, as trevas eram espessas e o sitio do acampamento
pessimo; fomos obrigados a ir buscar agua a uma milha de distancia.
No dia 18, continuamos a marcha com a mesma ligeireza; assim como na
vespera tinhamos encontrado Palestrina e Valmontone evacuadas pelo
inimigo achamos tambem Monte-Fortino livre, tão livre que era facil
disputar-nos.
Todo o exercito bourbonez retirava para Velletri.
No dia 19 de manhã deixei a posição de Monte-Fortino para marchar sobre
Velletri com a legião italiana, o terceiro batalhão do terceiro
regimento de infanteria romana e alguma cavallaria commandada pelo bravo
Marina, seriam ao todo quinhentos homens.
Tinha a meu lado Ugo Bassi, que sempre desarmado mas excellente
cavalleiro, servindo-me de ajudante d'ordens, me dizia sem cessar no
meio do fogo:
—General! por favor, mandai-me onde houver maior perigo, em logar de
enviar para ahi alguem de mais utilidade.
Chegado á vista de Velletri, enviei um destacamento com ordem de avançar
até aos muros da cidade, para que reconhecesse os logares, e, chamando o
inimigo, o obrigasse, se fosse possivel, a tomar a offensiva.
Eu não esperava, é verdade, com os meus quinhentos homens, bater os
vinte mil do rei de Napoles; mas tencionava, empenhado o combate,
attrahil-os a mim, e, em quanto os entretinha, dar tempo ao grosso do
nosso exercito para chegar e tomar parte no combate.
Nas alturas que flanqueam a estrada que conduz a Velletri, colloquei
metade da minha legião, duzentos ou trezentos homens no centro, a metade
do batalhão á direita, e os poucos soldados de cavallaria, commandados
por Marina, na estrada mesmo.
Guardei o resto da minha gente em segunda linha como reserva.
O inimigo, vendo o nosso pequeno numero não tardou a atacar-nos;
primeiro, um regimento de caçadores a pé sahiu dos muros, e,
espalhando-se, começou um fogo de atiradores sobre os nossos postos
avançados.
Segundo a ordem que tinham recebido os postos avançados pozeram-se em
fuga.
Os caçadores napolitanos foram então seguidos de alguns batalhões de
linha e d'um numeroso corpo de cavallaria.
O choque foi violento, ao principio. Chegados que foram a distancia de
meio tiro de espingarda da nossa gente, um fogo perfeitamente socegado e
bem dirigido os fez parar.
Havia meia hora que o fogo estava travado.
N'este momento, o inimigo lançou sobre a estrada dois esquadrões de
caçadores a cavallo; uma carga desesperada d'elles devia decidir a
victoria.
Puz-me então á frente dos meus cincoenta ou sessenta cavalleiros e
carregamos quinhentos homens.
Os napolitanos trazidos pelo impulso passaram-nos por cima. Eu fui
derrubado, e lançado a dez passos do meu cavallo; levantei-me e fiquei
no meio do combate, dando quanto podia ser para que me não dessem.
O meu cavallo seguira-me o exemplo: tinha-se levantado. Lancei-me sobre
elle, e fiz-me reconhecer dos nossos homens, que podiam julgar-me morto,
pondo o meu chapeu e agitando-o na ponta da minha espada. Eu era bem
reconhecido por ser o unico que trazia um ponche branco debroado de
vermelho.
Grandes gritos accolheram a minha resurreição.
No seu ardor, a cavallaria napolitana penetrou até á nossa reserva, em
quanto os batalhões de linha, a seguiam em columna cerrada. Perdeu-os o
seu ardor; pois tendo os flancos protegidos pelo regimento de caçadores
a pé, achando os nossos embuscados em todas as collinas da direita e da
esquerda, com a nossa reserva na frente, apresentaram-se como um alvo
aos tiros dos nossos soldados.
N'esta occasião mandei pedir reforço ao general em chefe
participando-lhe que a batalha estava, a meu ver, de boa face.
Responderam-me que não m'o podiam enviar, antes dos soldados terem
tomado a refeição.
Resolvi então fazer o que podesse com minhas proprias forças, por
desgraça sempre insufficientes nas circumstancias decisivas.
Fiz tocar a carregar sobre toda a linha; eramos mil e quinhentos contra
cinco mil.
No mesmo instante as nossas duas peças foram postas em bateria e
descarregaram; o fogo de atiradores redobrou, e meus quarenta ou
cincoenta lanceiros conduzidos por Marina, lançaram-se sobre tres ou
quatro mil homens de infanteria.
Entretanto Manara que estava a duas milhas de nós pouco mais ou menos,
ouvia nosso fogo e pedia ao general em chefe permissão de marchar
debaixo do fogo da artilheria.
Ao fim de uma hora foi lhe concedida.
Estes bravos mancebos chegaram a marche-marche pela grande estrada
debaixo do fogo inimigo. Quando attingiram a nossa retaguarda, esta
abriu-se para os deixar passar. Desfilaram ao som das cornetas e no meio
de um admiravel enthusiasmo. Á vista d'estes jovens, pequenos,
trigueiros e vigorosos; á vista de seus negros penachos fluctuantes, o
grito de _vivam os bersaglieri!_ sahiu de todas as bocas. Elles
responderam pelo grito de _viva Garibaldi!_ e entraram em linha.
N'este momento era repellido de posição em posição, e retirava-me
protegido pelos canhões da praça, de que a maior parte collocados á
direita da porta estavam apoiados no convento; duas das peças faziam
frente á embocadura da grande estrada, os outros atiravam para o flanco
esquerdo da nossa columna, onde os atiradores estavam espalhados; mas
visto a natureza do terreno, que offerecia á minha gente numerosos
abrigos de terra atraz dos quaes elles podiam esconder-se, ellas não lhe
fizeram grande damno.
Chegado apenas sobre o campo de batalha, Manara procurou-me com os
olhos. Bem depressa me reconheceu pelo meu ponche branco; metteu o
cavallo a galope para me alcançar; mas no meio do caminho foi suspenso
por um incidente que refiro aqui, porque pinta admiravelmente o espirito
dos nossos.
Passando diante da musica que tocava uma aria alegre, uma vintena dos
seus soldados não poderam resistir á influencia d'esta aria, e debaixo
da metralha e fusilaria dos napolitanos tinha-se posto a dançar, como se
estivessem n'um explendido baile.
No momento em que Manara, debaixo de uma saraivada de ballas, os olhava
rindo, uma balla de artilheria levou dois dos dançantes.
A este accidente fez-se uma breve pausa.
Mas Manara perguntou:
—Então, a musica?
A musica de novo tocou, e a dança recomeçou com mais ardor que até ali.
Por mim vendo chegar os bersaglieri tinha enviado Ugo Bassi para dizer a
Manara que viesse fallar-me.
A sua primeira palavra foi a perguntar se eu não estava ferido.
—Julgo, respondeu Ugo Bassi, que o general recebeu duas ballas, uma na
mão, outra no pé, mas como se não queixa, provavelmente as feridas não
são perigosas.
De feito, eu tinha recebido duas arranhaduras, de que só á noite tratei
quando não tinha outra cousa a fazer.
Manara contou-me a scena a que acabava de assistir.
—Por ventura com homens d'estes, me perguntou elle, não poderiamos
tentar levar Velletri de assalto?
Puz-me a rir. Conquistar com dois mil homens e duas peças, uma cidade
collocada como um ninho de ave no cimo de uma montanha elevada e
defendida por vinte mil homens e trinta peças de artilheria!
Mas era tal o espirito d'esta brava mocidade que nada via de impossivel.
Enviei novos mensageiros ao quartel general. Se tivesse ao menos cinco
mil homens teria tentado o assalto tal era o enthusiasmo dos meus e o
desanimo dos napolitanos.